DOCE BÁRBARA – PAULA LAVIGNE

Uma das principais produtoras de filmes no Brasil fala sobre aborto, remédios controlados, da vontade de ser homem e de sua fama de má

 

Por Karla Monteiro
Fotos  Stefano Martini 

 

Paula Lavigne é tudo o que dizem de Paula Lavigne. “Existe uma seleção natural em torno de mim. Não vou dizer aqui que sou uma fofura”, confirma a própria, que tem fama de antipática, encrenqueira e briguenta. Mas o que mais chama a atenção na carioca é uma coisa que pouco se fala sobre a ex-esposa de Caetano Veloso: ela é uma mulher de verdade – ou de verdades, que jorram frenéticas, sem filtro, sem censura. A entrevista estava marcada para as 15 horas de uma quinta-feira do final de setembro, entre uma reunião e outra. Paula surgiu pontualmente, toda de preto, com os cabelos presos sem compromisso, pisando forte pelos corredores da Natasha Enterprises, a sua produtora de cinema e música, considerada hoje uma das mais importantes do mercado. Ela se acomodou no sofá confortável da ampla sala num prédio elegante da Gávea, pediu água e café e foi logo perguntando, prática e, ao contrário da lenda, simpática: “Então, o que você quer saber de mim?”

Paula nasceu no Rio, em 1969, garota zona sul, filha do advogado criminalista Arthur Lavigne e da psicanalista Irene Mafra. Era uma menina “meio esquisita”, segundo se define: “Fui uma criança muito agitada. Tudo que entrava em moda eu era: DDA, disrítmica, hiperativa. A moda agora é bipolar. Se eu ainda fosse criança, iam dizer: ‘é bipolar’.”Para curar os males, os pais, geração 60, ricos e alternativos, optavam por caminhos equivalentes: “Eu fazia teatro para extravasar, flauta porque tinha asma, e balé por causa da perna torta.” No Tablado, a famosa escola de teatro de Maria Clara Machado, Paula encontrou a sua turma. E o parceiro da vida inteira: Caetano Veloso.

“Eu fiz um aborto aos 16 anos porque eu não queria ter filho adolescente. Tinha acabado de começar o relacionamento com o Caetano”

Tinha, então, apenas 13 anos. O resto da história é roteiro de filme: casou-se aos 16; tornou-se a dona da carreira de um dos maiores artistas do País; teve dois filhos com ele, Zeca e Tom, hoje com 20 e 15 anos; virou a mandachuva do cinema nacional, com 12 filmes de sucesso no currículo, entre eles Lisbela e o prisioneiro e 2 filhos de Francisco; produz dos grandes nomes da música como Seu Jorge aos independentes, como Criolo e Emicida; e no pacote, ganhou fama de temperamental, mandona, histérica, estressada.

No tête-à-tête, porém, Paula não parece nada disso. Tem até algo de desprotegida, de frágil, de doce. A doce bárbara. Embora ela mesma diga que sim, que é – quase – tudo isso.

Status – Você é mandona e temperamental ou faz parte do mito Paula Lavigne?
Paula Lavigne – Eu sou mandona. A sorte é eu ter canalizado a minha personalidade para a produção, em que você tem que mandar. Meus apelidos são “general”, “chefe”, “sinhá”… “Sinhá” eu adoro. Mas eu mando bem ou isso se reverteria contra mim.

– O que é mandar bem?
– A coisa mais parecida que existe com cinema é exército. Tem que ter hierarquia. Só funciona com uma voz forte de comando. Nem todo mundo aguenta a pressão. Existe uma seleção natural em torno de mim. Exército é fácil? Não, tem muita gente que não suporta aquilo. E tem gente que faz carreira.

Acima, com Caetano e Cazuza no Rio de Janeiro, em 1988

– Quantas horas você trabalha por dia?
– Vinte e quatro horas. Outro dia eu estava me perguntando: “Será que a coisa que eu mais gosto na vida é trabalhar?” Talvez. Tenho que me sentir útil. Trabalhando eu me sinto útil.

– Você consegue tirar férias?
– Não, não consigo. Sempre é tudo meio misturado. Tem coisas que eu tento fazer, tipo não olhar e-mail no final de semana, por exemplo.

– Você não consegue delegar?
– Na produção, você não é o artista. Você está ali para fazer a coisa acontecer, mas é substituível. A lição básica de produção, para mim, é: você tem que ser melhor do que todo mundo. Por isso sou exigente. E o pior de tudo dessa posição é que eu sou mulher. Mulher é refém dos hormônios. Na verdade eu não tenho mais esse problema.

– Por quê? Você é muito jovem para não ter mais esse problema.
– Fiz um implante de hormônios. Mudou a minha vida! Eu cheguei num ponto em que eu me estressava tanto que ia parar no psiquiatra, tomava todos os remédios tarja preta que você pode imaginar: antidepressivo, up, down, bipolar… O dia que eu botei esse implante, acabou. Não é que você não menstrua. Você nem sequer ovula. É uma dose de homem em você.

Na foto, a partir da esq., Frejat, Paula Lavigne, Zezé Di Carmargo e os senadores José Sarney e Aloizio Mercadante durante encontro para discutirem a proposta de alteração da lei de direito autoral, no Senado, em 2003

– Isso deve ser maravilhoso. Era tão difícil assim?
– Era uma semana perdida por mês. Você começa a chorar, você fica com ódio sem ter motivo, você fica triste sem ter motivo. Atrapalha todo mundo que está a sua volta. Imagina isso numa posição de comando como a minha?

– Nem quero imaginar.
– Você enlouquece as pessoas. Vai fazer dois anos que fiz esse implante. Não vou tirar onda dizendo que me tornei uma gracinha. Mas melhorei muito.

– Você parou com os tarja preta?
– Eu vivia babando por causa de Frontal para não agredir ninguém. Parei tudo. A única contraindicação do implante é que, depois de uma certa idade, você pode não voltar a ovular. Eu já tenho os meus três filhos. Está tudo certo.

– Três? Não são dois?
– Tenho a Luana que eu crio desde um ano de idade. Ela morou na Suíça. Agora mora em Nova York. Luana é discreta. É a mais bem educada dos três.

– Não tem um lado ruim em não menstruar mais?
– Eu odeio ser mulher. O mundo é dos homens. Tudo é para os homens. Quais os maiores problemas do homem? Calvície e ereção. Já tem remédio para os dois.

– Você queria ter filhos ou aconteceu?
– Não era uma coisa que eu pensava. Tive filho muito nova. Mas, na verdade, eu fiz um aborto aos 16 anos porque eu não queria ter filho adolescente. Tinha acabado de começar o relacionamento com o Caetano.

“Eu odeio ser mulher. O mundo é dos homens. Tudo é para os homens. Quais os maiores problemas do homem? Calvície e ereção. Já tem remédio para os dois”

– Dizer que fez um aborto no Brasil é uma grande coragem. A mulher ainda enfrenta esse tabu absurdo.
– Aborto no Brasil não ser legalizado é um crime. Eu teria estragado a minha vida, a minha relação com o Caetano se eu tivesse tido um filho com 16 anos. Não tenho a menor culpa.

– Você faria de novo?
– Não. Foi a pior agressão ao meu corpo. Mas a mulher tem que poder decidir. Pode acontecer com qualquer uma. É muita responsabilidade. Você é um receptor de esperma.

– Quando você decidiu malhar e ficar gostosa?
– Depois que tive filho. Me lembro que voltei da maternidade e o Caetano falou: “Ihhhh! Essa barriga não tem jeito não. Mulher quando tem filho fica barriguda para o resto da vida.” Pensei: “O quê? Tenho 21 anos. Vou malhar.” Foi a melhor coisa que eu fiz. A endorfina é a mais poderosa droga do mundo.

– Você parece muito atenta à cena independente, como Criolo e Emicida. Você vai à caça?
– Estou muito interessada no mercado independente. O mercado formal não existe mais. Tenho a sorte de viver esse momento de transição relativamente nova, com 43 anos. E ainda ter energia para acompanhar o que vai acontecer. Essa turma de São Paulo é séria e me interessa. Estou perto deles para estudar.

O ex-marido e ainda sócio Caetano, e os filhos Zeca e Tom

– Estudar?
– Eu pago pau para o Criolo e o Emicida. Eu venho de outro mundo. Caetano é da mesma gravadora há 50 anos. Eu sou totalmente mainstream. Mas me interesso pelo novo. Acho que eles é que vão fazer história no show business brasileiro.

– Por que você e o Caetano decidiram continuar trabalhando juntos? Não é muito difícil terminar um casamento e permanecer tão perto?
– A separação foi difícil e continua sendo. Foi a pior coisa que já enfrentei na vida. Mas fazer o quê? Tinha que ser. Mas se nós não continuássemos trabalhando juntos seria pior. Minha prioridade profissional é o Caetano. Todo mundo que trabalha comigo sabe: eu largo tudo. Caetano é tudo para mim. É o pai dos meus filhos e a pessoa que me fez sobreviver.

– As pessoas dizem que é o contrário.
– Imagina. Caetano é um cara inteligente. Ele tira o melhor das pessoas. Sou dependente psicologicamente dele. Não vou dizer para você que vivemos um conto de fadas. Mas temos uma responsabilidade imensa um com o outro, por tudo que a gente construiu. Gostamos dessa nossa união, com todos esses compromissos, de filhos a trabalho.

– Como vocês se conheceram? Você tinha 13 anos?
– Comecei a fazer teatro no Tablado com 7 anos. E dali eu entrei na vida artística. Com 12 para 13 anos, fizemos uma peça chamada “Os Doze Trabalhos de Hércules”. Muita gente dessa turma virou ator: Felipe Camargo, Malu Mader, Alexandre Frota, Roberto Bataglin. Era uma turma enorme. Geração anos 80, zona sul carioca.

– Foi justamente nessa época?
– O meu grupo fez uma peça de muito sucesso: “Capitães da Areia”. O Caetano foi assistir a essa peça. Ele acabou ficando amigo de todo mundo, a gente começou a frequentar a casa dele.

“A única coisa em que eu me viciei na vida foi Frontal, com receita médica. Precisei fazer um tratamento de dois anos para largar. Quando uma pessoa como eu, contra as drogas, poderia pensar que seria uma viciada?”

– Existe uma reverência, uma idolatria em torno do Caetano. Vocês eram fãs, adoradores do Caetano?
– Essa coisa do Caetano mito é de agora, depois que ele ficou com os cabelos brancos e fez 70 anos. Ele brinca que virou o Dorival Caymmi. Na época, o Caetano tinha 40 anos, era bem jovem. Claro, já era conhecido. Mas não uma entidade como é hoje.

– Então não foi um susto ter o Caetano na turma?
– Não, era uma coisa próxima, turma do Baixo Leblon: Cazuza, Bebel (Gilberto), o pessoal do teatro. O Caetano sempre gostou desse tipo de ambiente de jovens. Ficamos muito amigos.

– Mas você era uma criança…
– Tem um dado engraçado na nossa aproximação. Nos anos 80, tinha muita cocaína, muita loucura. E o Caetano sempre foi careta. Nunca gostou de drogas, não bebe, não cheira, não fuma. Eu também era careta.

– Apesar de andar com essa galera animada.
– Bem animada. Sempre sobrava eu cuidando de todo mundo. Tinha medo. Não entendia como as pessoas tinham coragem. Nunca tomei um ácido na vida e nunca vou tomar.

– Por que tanto medo?
– Minha cabeça já é muito doida. Não dá para ficar brincando. Para você ter uma ideia, eu comecei a beber vinho velha.

– Nem maconha você fumava?
– Não. Fumei maconha uma vez aos 11 anos. Achei aquilo um horror. Fiquei numa paranoia louca e nunca mais fumei na vida.

– Nunca mais?
– Depois, muito mais tarde, fui experimentar maconha de novo e gostei. Mas, até então, não dava não.

– E cocaína? Você chegou a experimentar?
– Cheirar? Nem pensar, Deus me livre. Via os meus amigos ficando horrorosos, fedidos, chatos. Foi uma época em que muita gente morreu.

– Então o que aproximou você e o Caetano foi a caretice?
– É… Eu brinco com o Caetano que a gente se aproximou porque a gente sobrava. A turma seguia na noite. E a gente ficava ali, aquelas duas pessoas, uma olhando para a cara da outra.

– Além da caretice, o que o Caetano viu em você?
Eu era uma menina cheia de opinião, de vontades. Acho que eu devia impressionar de alguma maneira.

– Vocês namoravam?
Não era um namoro. Foi acontecendo. Minha história com o Caetano não é uma história de paixão. É uma história de união de forças, de amizade, de amor, de companheirismo. Muito mais amplo do que uma história de paixão.

– Quantos anos você tinha quando vocês abriram a empresa?
Na mesma época que comecei na Globo, 16, 17 anos.

– Por quê?
– O Caetano não tinha nada. Era tudo daquele jeito maluco, desorganizado. Os artistas estavam começando a se organizar. Lembro-me que o Tom (Jobim) foi um dos primeiros a começar a se profissionalizar.

– A geração 70 não tinha muita preocupação com dinheiro, era uma outra configuração, não?
– Os artistas não tinham a menor noção de quanto eles geravam. Todo mundo fala: “Ah… A Paula fez o Caetano.” Eu não fiz o Caetano. O Caetano já era o Caetano. A única coisa que eu fiz foi desobstruir as vias e fazer o dinheiro chegar até ele.

– Você virou empresária de um dos maiores artistas brasileiros aos 16 anos?
– Comecei a minha vida de empresária e fui morar com ele ao mesmo tempo. Sempre digo que virei empresária por uma necessidade doméstica. Só que cheguei à conclusão que era daquilo que eu gostava.

– Do business?
– Eu não gostava de ser mandada. Não nasci para ser empregada de ninguém. Do que eu gostava na Rede Globo era o meu salário, a minha independência.

– Obedecer não era a sua praia?
– Não. E era muito exposição. Eu nunca me achei bonita. Operei o nariz para fazer novela. Tinha o nariz adunco. O Caetano falava que eu parecia com a Bethânia. Na primeira turnê internacional dele, eu corri para o Pitanguy e, pá!, tirei o osso do nariz. Aquilo mexeu com a minha cabeça. Não é fácil ser ator. Para mim, é uma das piores profissões do mundo. Pior só jogador de futebol.

– Você viveu alguma situação de exposição que te marcou?
– Coisas bobas. Lembro-me que uma vez uma mulher me segurou na rua e gritava para a amiga dela: “Carmem, vem ver como ela é feia, ela é muito feia.”

– Que horror!
– Essas coisas me impressionavam. Eu pensava: “Caraca, por que eu estou aguentando isso?” Mas aí eu dizia para mim mesma: “Pelo meu salário, pela minha independência.” Quando comecei a ganhar dinheiro como empresária eu não precisava mais daquilo. Não sinto a menor saudade.

– Como era conciliar a vida profissional e a vida pessoal com o Caetano? Não era tudo muito misturado?
– Não vou dizer para você que não havia problemas. Eu sou ariana, ele é leonino. Sempre foi tudo muito intenso. Mas sempre teve uma coisa que falou mais alto: o foco. Caetano é um dos artistas mais responsáveis que eu conheço. Talvez se eu não tivesse encontrado o Caetano eu estivesse num hospício.

– Vocês têm dois filhos jovens. Três, aliás. Percebo uma volta forte da cocaína no Rio. Como vocês lidam com essas questões em casa?
– A primeira coisa é passar a responsabilidade para as crianças. Cada vez que você tira a verdade da criança você a está menosprezando. Lidar com esse negócio de drogas é complicado. Às vezes, até por ter uma educação aberta, o jovem acha que pode experimentar. Mas tem o lado químico. Eu acho que com cocaína não tem nem que experimentar. Não tem que ter essa experiência na vida.

– E maconha?
– As pessoas botam tudo num pacote só. A única coisa em que eu me viciei na vida foi Frontal, com receita médica. Precisei fazer um tratamento de dois anos para largar. Quando uma pessoa como eu, contra as drogas, poderia pensar que seria uma viciada? Já maconha eu acho que tem o seu valor. Maconha ser proibido é hipócrita, é ridículo.

– Você é a favor ou contra a legalização?
– Libera tudo e vamos cuidar de tudo. Gosto muito do filme do Fernando Grostein (Quebrando o tabu, com Fernando Henrique Cardoso). Não é um assunto fácil. Mas não precisamos de proibição, precisamos de cultura, de educação.

– Você acredita em Deus?
– Não. É chato falar isso. Parece que você é uma pessoa ruim, sem compaixão. Choca as pessoas. Teve um tempo que eu até disse para o Caetano: “Não vamos mais falar por aí que somos ateus.” Eu acredito em física, em energia. Agora acreditar que você morre e vai para um ceuzinho, que tem um Deus lá te esperando… Não tenho tempo para o incerto.