EXPLOSÃO CERVEJEIRA

Festival de microcervejarias comprova o bom momento da produção artesanal da bebida preferida dos brasileiros

 

Por Bruno Weis

 

No Beer Experience, o amor pela cerveja uniu “freiras” e “diabinhas”

Um galpão na zona oeste de São Paulo tornou-se há poucas semanas o centro do mundo para os amantes da cerveja. Durante dois dias, mais de quatro mil pessoas passaram pelo festival Beer Experience para provar amostras de cervejas artesanais made in Brazil, as estrelas da festa, que podem custar dez vezes mais do que as cervejas comuns. O visitante pôde descobrir fermentados feitos na Amazônia, no interior de São Paulo, no Rio e em diversos cantos da região Sul. A conclusão é óbvia: nunca se produziu uma variedade tão grande de cerveja no País. O evento, em sua segunda edição, promoveu pequenos produtores, mas também importadoras e bares. Tudo devidamente embalado com shows de blues e rock. “Dobramos tanto a participação dos expositores como do público”, diz o organizador André Cancegliero. “O festival reflete o momento que o mercado está passando, com as pequenas cervejarias crescendo entre 20% e 30% ao ano”, completa. Destacamos aqui alguns bons exemplos da cena artesanal cervejeira e, abaixo, um mapa dos principais polos e pequenas cervejarias que estão enchendo nosso copo com o néctar dos deuses em incríveis versões.

 

Belgas nas Gerais

A paixão de dois irmãos de Belo Horizonte pela riqueza de sabores da escola belga fez nascer em 1999 a Cervejaria Wäls. Hoje a marca tem oito rótulos e produção mensal batendo em 30 mil litros. “Mas isso varia muito, pois temos que respeitar o tempo de cada cerveja”, observa Tiago Carneiro (de camisa preta), um dos donos da empresa ao lado do irmão José Felipe. www.wals.com.br

 

Virgens embriagadas

Com 25 anos de carreira, a banda Velhas Virgens (foto) resolveu investir em rock’n’roll etílico e lançou este ano sua própria cerveja (detalhes na pág. ao lado). A receita foi criada por Tuca Paiva, o baixista da banda e “homebrewer” desde 2009, e executada pela cervejaria Invicta, de Ribeirão Preto. “Procuramos fazer algo com a nossa cara, para bebermos junto com os amantes de rock e cerveja, antes, durante e depois dos shows”, diz o vocalista Paulão de Carvalho. www.cervejavelhasvirgens.com.br

 

Chope engarrafado

“Éramos um grupo de indignados”, lembra Rafael Rodrigues (foto), um dos donos da gaúcha Coruja. “Estávamos em um bar em 2004 reclamando da baixa qualidade das cervejas quando decidimos fabricar nós mesmos a nossa bebida. Um ano depois, nosso chope foi eleito o melhor de Porto Alegre.” O sucesso fez com que a cervejaria apostasse em versões não pasteurizadas da bebida, as chamadas “Corujas Vivas”, engarrafadas em vasilhames de um litro e com validade de 60 dias. Hoje a produção da empresa gira em torno de 20 mil litros mensais e inclui outros sete rótulos. www.cervejacoruja.com.br

 

Um Brasil de loiras, ruivas e morenas artesanais

Existem cerca de 180 microcervejarias no país. Um número recorde, apesar da participação tímida no mercado (menos de 1%). A maioria delas está no Sul e Sudeste, especialmente no interior de São Paulo

Amazon Beer (Belém – PA)

Uma das raras cervejarias do Norte agrega frutas regionais à bebida, como bacuri e taperebá. www.amazonbeer.com.br

 

Cervejaria Premium (Frutal – MG)

A fábrica em Minas utiliza a água da região e lúpulos e maltes importados para criar três rótulos, como a Bauhaus Cobre, uma cerveja extrapuro malte. (18) 3301-0014

 

Dama Bier (Piracicaba – SP)

A cervejaria de Piracicaba tem rótulos para todos os gostos, incluindo a Amber Lady, uma receita originária de Munique, Alemanha.
www.damabier.com.br

 

Way Beer (Curitiba – PA)

A produção paranaense aposta em receitas inovadoras, como a da Amburana Lager, uma cerveja com um toque da tradicional madeira brasileira. www.waybeer.com.br

 

Coruja (Porto Alegre – RS)

A fábrica gaúcha tem rótulos especiais e sazonais em sua linhagem, que começou com as cervejas não pasteurizadas, como a Lager Coruja Extra-Viva

 

Velhas Virgens (Ribeirão Preto – SP)

A Velhas Virgens Rockin’ Beer é uma IPA amarga e encorpada – tem 6,5% de teor alcoólico – como um bom e sofrido blues.

 

Cervejaria Colorado (Ribeirão Preto – SP)

Cervejaria pioneira em misturar ingredientes brasileiros, como mandioca, café e rapadura a insumos importados. www.cervejariacolorado.com.br

 

Wäls (Belo Horizonte – MG)

As tradicionais variedades da escola belga dubbel, trippel e quadruppel são algumas das cervejas elaboradas pela cervejaria mineira

 

Mistura Clássica (VoltaRedonda – RJ)

A cervejaria fluminense tem um pub em cima da fábrica e 12 rótulos no mercado, incluindo a brown ale Mississippi. www.misturaclassica.com.br

 

Cervejaria Bamberg (Votorantim – SP)

A premiada cervejaria paulista produz 60 mil litros mensais de chope e cervejas especiais, como a pilsen Camila Camila. www.cervejariabamberg.com.br

 

Alta fermentação

Fatores apontados por especialistas para explicar o “boom” das cervejas artesanais no País:

• Fusão de grandes cervejarias resultou na queda da qualidade de marcas populares e tradicionais, deixando parte do público consumidor “órfã”;

• Profissionais cervejeiros demitidos no processo de fusão das grandes cervejarias puderam trabalhar em cervejarias menores, principalmente no Rio Grande do Sul e Santa Catarina;

• Abertura do mercado e incremento na importação de rótulos estrangeiros, principalmente da Bélgica, Alemanha, Inglaterra e Estados Unidos, elevaram a demanda de parte dos consumidores por produtos de melhor qualidade;

• Maior diversidade de tipos e variedades de cerveja aumentou as possibilidades de harmonização da bebida com comida, resultando em uma maior presença da cerveja no cenário da alta gastronomia.