LANCE SUJO

Como o ciclista americano Lance Armstrong, um mito do esporte mundial, usou o doping para vencer a qualquer custo e viu sua vida ir do céu ao inferno

 

Por Carlos Sambrana

 

“Já estive melhor, mas também já estive pior"

Está lá, em destaque no site pessoal do mítico ciclista americano Lance Armstrong, 41 anos, um texto que conta em poucas palavras a história de sua vida. “Se fosse um roteiro hollywoodiano, seria rejeitado como um simples melodrama: uma doença mortal atinge um atleta promissor e, apesar das poucas chances, ele não só vence a doença como retorna ao esporte e conquista o torneio mais importante, não apenas uma, mas sete vezes. Inacreditável, mas é verdade.” A julgar pelos últimos meses, a história de Armstrong viraria sucesso de bilheteria nas habilidosas mãos de diretores de Hollywood como Martin Scorcese ou Francis Ford Coppola. Com alguns adendos, é claro. Um filme que mostraria como um atleta com a imagem imaculada, considerado um herói em seu país, passou por cima de quem estivesse a sua frente para vencer sete vezes o Tour de France, a prova mais importante do ciclismo mundial; que trapaceou se dopando e fazendo com que seus companheiros se dopassem; que ameaçou os que ousassem atravessar o seu caminho; que comprou adversários; e que ganhou milhões de dólares enganando seus patrocinadores. Inacreditável, mas é verdade. Em outubro passado, Armstrong foi banido do esporte que o catapultou ao estrelato depois que uma investigação liderada pela U.S. Anti-Doping Agency (Usada) concluiu que ele “montou o mais sofisticado sistema de doping que o esporte já viu”. O Tour de France, outrora apelidado de Tour de Lance, diante das sucessivas glórias de Lance Armstrong, foi duramente golpeado e o nome do atleta apagado da prova por ordem da União Ciclística Internacional (UCI). Pior: ele corre sérios riscos de pegar 30 anos de prisão por falso testemunho.

É difícil acreditar que o atleta mais celebrado do ciclismo mundial, uma lenda comparada a gigantes como o nadador americano Michael Phelps e o velocista jamaicano Usain Bolt, tenha se rendido ao lance mais sujo que existe para vencer seus rivais. Mas Armstrong o fez, embora não exista nenhuma prova científica. Durante seu reinado sobre as duas rodas, estima-se que o atleta tenha feito mais de 600 exames antidoping sem nunca ter sido pego. “É importante ter em conta a linha do tempo, pois o controle do sangue foi estabelecido nos primeiros anos do século 21. Hoje, as técnicas usadas por Armstrong seriam detectadas sem problemas”, diz o médico Eduardo De Rose, membro-fundador da Agência Mundial Antidoping (Wada) e diretor do programa antidoping do Comitê Olímpico Brasileiro (COB). “Mas é fundamental entender que as provas de doping não são apenas laboratoriais.” O dossiê de mil páginas da Usada, que levou Armstrong ao debacle, foi elaborado com base em testemunhos de 26 pessoas, entre elas 11 ex-companheiros de sua vitoriosa equipe, a United States Postal Service. São nomes de peso como os dos ciclistas Floyd Landis, Tyler Hamilton e George Hincapie. Todos disseram que Armstrong não só tomava substâncias como EPO, testosterona e fazia autotransfusão de sangue para melhorar sua performance (leia quadro de desempenho), como contava com a ajuda do diretor de equipe, o belga Johan Bruyneel, e de sua ex-mulher Kristin Armstrong, para obrigar seus companheiros a fazer o mesmo. Era a forma de manter todos dentro de um círculo fechado, um pacto de honra equiparável ao de famílias mafiosas. “É chocante e decepcionante descobrir tudo isso, mas fizemos o nosso trabalho”, diz Travis Tygart, o diretor da Usada.

O sistema de doping foi montado por Armstrong com a ajuda do médico italiano Michele Ferrari, que, segundo a Usada, recebeu mais de US$ 1 milhão por seu “trabalho” entre os anos de 1996 e 2006. Ferrari tinha a missão de aplicar EPO diretamente nas veias dos atletas na dosagem que não acusasse doping. Ele também era encarregado de retirar sangue e depois fazer a infusão antes da prova. O intuito era sempre o mesmo: dar mais “gás” para Armstrong e seus companheiros. Outra tática adotada para burlar a fiscalização e aumentar a capacidade de resistência dos atletas era a de “batizar” azeite de oliva com testosterona, hormônio responsável por aumentar a potência muscular. “Essas substâncias melhoram a performance entre 15% e 20%. Se a diferença entre o primeiro e o segundo lugar é de 3 minutos, essa é a diferença entre a medalha de ouro e a medalha de prata em uma Olimpíada”, diz Jomar Souza, presidente da Sociedade Brasileira de Medicina do Exercício e do Esporte. “Há uma nuvem escura nesse caso. Como isso pôde acontecer e ninguém descobrir nada durante todos esses anos?”

O doping em esportes como o ciclismo não é novidade. Aliás, quem é do meio nem se surpreende mais com isso. Basta ver que, das últimas 14 provas do Tour de France, 11 foram conquistadas por atletas dopados. Todos perderam os títulos. Em 1998, foi o italiano Marco Pantani; de 1999 a 2005, Lance Armstrong; em 2006, Floyd Landis; e em 2007, 2009 e 2010, foi a vez do espanhol Alberto Contador. “Isso existe no ciclismo desde que o esporte foi criado”, diz Antonio Carlos Silvestre, técnico da seleção brasileira de ciclismo. “O problema é que o doping sempre vai estar na frente do antidoping.” É como polícia e ladrão, um precisa que aconteça o crime para correr atrás do outro. Mas por que só agora, sete anos depois da última conquista de Armstrong, resolveram ir atrás dele? A tese mais defendida por ciclistas profissionais é a de que a União Ciclística Internacional (UCI) e a Usada queriam mostrar que a farra da dopagem acabou e ninguém melhor do que Armstrong, conhecido mundialmente, para servir de exemplo.

Dono do mundo
Armstrong, é verdade, não é dos mais bem vistos no meio. Sua simpatia é comparada à de um argentino contrariado em uma discussão. “Arrogante”, “dono do mundo” e “implacável” são alguns dos adjetivos usados por quem já esteve ao seu lado para definir os principais traços de sua personalidade. Em Austin, capital do Texas, cidade onde vive, é famoso pela falta de cordialidade na saída da escola onde seus filhos estudam. Ele costuma furar a fila de pais e geralmente para seu carro na frente dos demais para buscar as crianças. “É um cara que acha que pode tudo”, diz Silvestre, da seleção brasileira de ciclismo, que vive em Austin há seis anos e meio. O brasileiro Nelo Breda, 56 anos, dos quais mais de 20 anos vivendo em Austin, conhece bem o estilo Lance Armstrong. Os dois se falaram pela primeira vez em 1989, quando o atleta já era considerado um dos maiores ciclistas amadores dos Estados Unidos. Breda, que já foi dirigente da Confederação Brasileira de Ciclismo e hoje é dono de uma loja de bicicletas em Austin, treinava ciclistas de um modo diferente para os padrões americanos da época. Ele subia em sua moto e fazia com que os atletas o seguissem em suas bicicletas. Quando Armstrong descobriu isso, foi atrás de Breda. “Treinamos entre 1992 e 1994. Ele era diferenciado, enquanto os outros atletas ficavam atrás da moto por, no máximo, 30 minutos a uma velocidade média de 40 km/h, Armstrong pedalava nesse ritmo por, no mínimo, uma hora”, diz Breda. E, cada vez que o brasileiro olhava para o retrovisor, enxergava Armstrong levantando o dedo, ordenando que ele acelerasse ainda mais. “Se o Lance decide passar por uma parede, não há quem o impeça”, diz Breda. Acontece que Armstrong também passou por cima de muita gente e mexeu com quem não devia.

Travis Tygart, da Usada

Floyd Landis

Tyler Hamilton

George Hincapie

Inimigos
Há muitos anos sua conduta era colocada em dúvida e ele, constantemente, provocava a Wada. Diversas vezes usou o Twitter para mandar mensagens dizendo que nunca haviam provado nada. Armstrong também se envolveu em uma batalha judicial com a seguradora americana SCA Promotions, patrocinadora que esteve com ele em suas vitórias do Tour de France. Em 2006, quando surgiram indícios de que ele teria conquistado os troféus com a ajuda do doping, a empresa pediu de volta os US$ 5 milhões dados como prêmio pelas vitórias. Armstrong venceu nos tribunais e ainda obrigou a seguradora a pagar US$ 2,5 milhões de custos processuais. Aquilo teria deixado os executivos da seguradora sedentos por vingança. Em outra frente, o ciclista reuniu um grupo de investidores de alto calibre para tentar comprar os direitos do Tour de France, da Amaury Sport Organisation (ASO), uma divisão do grupo francês Amaury, conglomerado de mídia dono da revista e do canal de tevê L’Equipe, da revista France Football e do jornal Aujourd’hui. Na época, Marie Odile Amaury, a controladora, rechaçou a ideia e disse que “o Tour não era dela, mas sim dos franceses”. E os franceses, muito influentes nas decisões que envolvem o esporte, não digeriram bem a fome de poder do americano.

O Tour de France está para a França como o Super Bowl está para os americanos. É um acontecimento que arrebata bilhões de pessoas (acompanhe no último gráfico da matéria), movimenta bilhões de dólares e move paixões. Para os ciclistas, vencer a prova é mais importante do que ganhar uma medalha de ouro olímpica. Mas, se o atleta não tiver uma boa equipe, fica para trás. E Armstrong fazia o jogo de equipe, o que é extremamente natural. “Os companheiros seguiam no pelotão da frente e ficavam contra o vento. Lance ia atrás. Isso fazia com que ele gastasse 30% menos energia que os demais e economizasse fôlego para as etapas mais importantes”, diz Silvestre. Isso é crucial em uma prova de 23 dias, com apenas dois dias de descanso. A tática usada, porém, não era suficiente para vencer. Ele precisou se dopar para ter ainda mais energia. “Independentemente do doping, ele é um atleta fora da curva”, diz Murilo Fischer, ciclista brasileiro que participou do Tour de France em 2007, 2008, 2009, e deverá disputar a prova em 2013.

Ele pode até ser um atleta ímpar, fazer coisas que poucos imaginavam que seriam possíveis, mas os fãs não perdoaram a sucessão de mentiras. “Ele não deixa de ser um superatleta, mas foi uma grande decepção. O pior de tudo isso foi a postura adotada, de tentar encobrir o que fez”, diz o empresário e triatleta João Paulo Diniz, que, em 2011, participou de um jantar beneficente com o ciclista na Fundação Livestrong (leia quadro acima). Em agosto passado, quando o dossiê da Usada ainda estava sendo preparado, Armstrong se disse inocente e afirmou que estava cansado de lutar. “Chega um momento em sua vida em que é preciso dizer ‘é o bastante’”, afirmou o atleta, por meio de um comunicado oficial, subvertendo a sua máxima “a dor é temporária, já a desistência é para sempre”. Ao ser finalizado e tornado público no dia 10 de outubro, o dossiê da Usada caiu como uma bomba. A imagem de Armstrong começou a sofrer cada vez mais com a exposição negativa e novas denúncias vieram à tona. O ex-ciclista neozelandês Stephen Swart apareceu dizendo que Armstrong teria dado US$ 50 mil para que ele e sua equipe não o “atacassem” em três provas do circuito americano em 1993. Também surgiram denúncias de que ele e seu staff ameaçaram as testemunhas durante as investigações. Aos poucos, as empresas patrocinadoras (leia abaixo) foram descendo da garupa de Armstrong.

Imagem arranhada
A primeira a desembarcar foi a Nike, parceira de longa data, que tinha no ciclista um de seus principais garotos-propaganda. “Devido às evidências aparentemente irrefutáveis de que Lance Armstrong esteve envolvido com doping e enganou a Nike por mais de uma década, é com grande tristeza que anunciamos o fim do contrato de patrocínio com o atleta”, disse a empresa por meio de um comunicado oficial. E prosseguiu. “A Nike não tolera o uso ilegal de drogas que melhoram o desempenho.” Atrás da Nike, seguiu um pelotão formado pela marca de óculos Oakley, a fabricante de bebidas Anheuser-Busch (dona da Budweiser) e a marca de bicicletas Trek, entre outras. Trata-se de uma perda anual de US$ 20 milhões para o bolso do atleta. “Lance Armstrong é um mito que fica com a percepção muito arranhada. Isso porque foi construído com atitudes totalmente antiéticas”, diz Eduardo Tomiya, diretor da consultoria especializada em gestão de marcas BrandAnalytics. “Ele pode, inclusive, ser processado pelas empresas que o apoiaram todos esses anos. Armstrong vendeu uma mentira e isso pode manchar a reputação das marcas.”
Diferentemente de Pelé, que não reconheceu uma filha fora do casamento; de Ronaldo, que se envolveu com travestis no Rio de Janeiro; ou do golfista Tiger Woods, que se viu em problemas conjugais causados por infidelidade em série, Armstrong se encontra em uma situação muito mais delicada. “Escândalos com Pelé, Ronaldo e Tiger Woods não mexeram na base. Não abalaram as conquistas dos atletas.” Por isso, para evitar que a contaminação atingisse a Fundação Livestrong, ele renunciou à presidência.

Stephen Swart, ex-ciclista neozelandês, acusou Lance Armstrong de pagar US$ 50 mil para que sua equipe o deixasse vencer

O ciclista não é uma lenda só porque ganhou o Tour de France sete vezes, mas sim porque, ainda aos 25 anos, venceu o câncer no testículo, cérebro e pulmão. A partir dali, criou uma fundação para ajudar pacientes com a doença. No ano passado, a Livestrong completou 15 anos e Armstrong apareceu no jantar de gala anual para arrecadar fundos. Em um salão com 1,7 mil pessoas, entre elas os atores Sean Penn, Robin Williams e a cantora Norah Jones, Armstrong quebrou o silêncio sem negar as acusações. “Já estive melhor. Mas também já estive pior”, disse.
Armstrong, de certa forma, lembra um personagem retratado com maestria pelo escritor Norman Mailer. Na eleição de 1964, que decidiria o representante de Nova York no senado americano, Mailer se deparou com uma disputa entre o insosso Kenneth Keating e o liberal Bobby Kennedy, e despejou o brilho de sua mente nas páginas do jornal alternativo nova-iorquino The Village Voice, do qual ele era um dos fundadores, declarando seu apoio a Bobby Kennedy. “Preferia votar num homem com base na suposição de que ele é um herói e vê-lo tornar-se um monstro do que num homem que jamais poderá ser um herói. Pois vejam: um herói, mesmo fracassado, ou herói como monstro, é mais provável que crie outros heróis, com seu exemplo ou por oposição a si mesmo, do que um homem que ganha poder e jamais foi alguma coisa”, escreveu Mailer. É indiscutível que Armstrong, a seu modo, foi um herói. No fundo, influenciou, influencia e ainda influenciará gerações com seu exemplo ou por oposição a si mesmo. Daria um bom filme, vai.