SÓRDIDO “HARÉM” DE KADAFI

Um homem com uma fúria sexual insaciável e ao mesmo tempo sombria. É o que revela um novo livro sobre o ex-ditador líbio

 

Por Daniela Fernandes, de Paris
Ilustração Gian Paolo La Barbera

 

 

Quando Soraya soube que havia sido escolhida para entregar flores ao então líder líbio Muammar Kadafi (1942-2011), mal pôde acreditar no privilégio. Afinal, entre centenas de alunos de sua escola, ela teria a honra de encontrar pessoalmente “papai Kadafi”, como as crianças o chamavam. O que a menina de 15 anos não poderia imaginar era que, naquele dia, daria adeus à sua adolescência e se tornaria escrava sexual de um tirano. Um simples gesto de Kadafi selou o destino da garota: ao receber o buquê, o ditador líbio colocou a mão sobre a cabeça da menina. Anos depois Soraya viria a descobrir que o toque era, na verdade, um sinal de Kadafi para seus guardas: “Quero esta pessoa”. No dia seguinte, funcionárias do governo foram buscá-la em casa para uma visita ao “Guia”, nome usado por seus seguidores. A partir dali, Soraya passaria cinco anos de sua vida em um pequeno quarto sem janelas no subsolo da residência presidencial, sem ver seus pais ou irmãos, sendo frequentemente violentada por “papai Kadafi”.

O ditador e sua guarda feminina

O corajoso relato de Soraya faz parte do livro “O Harém de Kadafi”, da jornalista francesa Annick Cojean (Verus Editora). Durante seis meses de investigação, a repórter do diário Le Monde ouviu ainda outras vítimas, além de professores, médicos e ex-colaboradores do ditador, assassinado por forças rebeldes em outubro do ano passado. O resultado é uma história surpreendente e ao mesmo tempo macabra. Segundo a autora, Kadafi teria estuprado “milhares de pessoas” durante os 42 anos que esteve no poder. Com uma fúria sexual que precisava ser saciada até quatro vezes ao dia (com a ajuda de muito Viagra), o líbio não poupava ninguém: funcionários de governo, celebridades, esposas de presidentes africanos e até mesmo ministros de Estado. Gente de seu staff mais próximo hesitava em convidá-lo para festas de casamento, com medo de que suas filhas ou noras despertassem o interesse do tirano. Mansur Dau, ex-chefe de segurança de Kadafi, contou a Annick que o casamento de seu filho teve de ocorrer em total sigilo – os convidados foram, inclusive, proibidos de entrar com o celular na festa, para que nenhuma imagem vazasse. Isso sem falar nas garotas e também meninos, geralmente na faixa dos 13 aos 15 anos, como Soraya, que o ex-ditador costumava sequestrar, após vê-los em escolas, festas de vilarejo e em outros eventos. Annick diz que ainda é difícil encontrar testemunhas dispostas a falar, seja por vegonha, seja por medo de represálias de forças kadafistas, ainda presentes no país. “Sempre vai haver alguém para dizer que isso tudo é mentira. Vão achar que há exageros porque o assunto é vergonhoso”, disse Annick à Status. “Mas a história é real e quero que seja contada nas escolas.”

Os depoimentos reunidos pela jornalista formam uma figura de mente sórdida, capaz de ter relações sexuais com seus próprios ministros como forma de coagi-los e mantê-los fieis ao poder – afinal, ninguém nunca teria coragem de expor a verdade. Kadafi também tinha o costume de espancar suas vítimas enquanto as estuprava, além de urinar sobre a pessoa para humilhá-la. A maioria desses atos ocorria na própria residência oficial de Kadafi, em Trípoli, conhecida como Bab Al-Azizia, hoje completamente destruída. No subsolo do casarão fortificado havia inúmeros quartos, formando um labirinto sem janelas, com luzes artificiais de neon e, segundo Soraya, tão úmidos que era preciso queimar ervas para tirar o cheiro de mofo. Como outras pessoas mantidas ali, a menina era proibida de circular pelos corredores e tinha acesso a uma área limitada, incluindo seu quarto, a cozinha do subsolo e a sala de ginástica do ex-ditador. E, claro, o quarto de Kadafi, no andar de cima, no estilo dos sultões de As mil e uma noites, imenso e com espelhos pelas paredes, além da tradicional cama com dossel em tule vermelho. Um canto era usado para orações, com algumas edições preciosas do Corão. No banheiro, uma enorme jacuzzi. Soraya era chamada por Kadafi a qualquer hora do dia ou da noite e muitas vezes havia até quatro garotas ao mesmo tempo no quarto. Quando ele não queria mais a companhia de alguém, dizia apenas “sai daqui, puta”.

kadafi mantinha uma garçonnière no subsolo da universidade de trípoli, com cama, jacuzzi e uma sala de cirurgia para realização de abortos

Sala para abortos
Kadafi parece ter sido mesmo um especialista em garçonnières. No ano passado, uma reportagem da rede britânica BBC revelou ao mundo imagens de uma estrutura mantida pelo ex-ditador líbio nos porões da Universidade de Trípoli, com cama de casal, jacuzzi e o mais sinistro: uma sala de cirurgia ginecológica totalmente equipada, provavelmente para realização de abortos. O espaço foi descoberto logo após uma nova diretoria assumir a universidade, com Kadafi já deposto. “Estou chocado. Encontramos coisas bem estranhas aqui”, disse à BBC o reitor, Faisal Krekshi, enquanto guiava a equipe de tevê pelos aposentos secretos do ex-ditador. No livro de Annick, Soraya fala do papel desempenhado pela equipe de enfermeiras – a maioria belas loiras ucranianas – que Kadafi mantinha como parte de seu staff. Oficialmente, cuidavam da saúde do “Guia”, realizando exames rotineiros e preparando sua dieta. Nos bastidores, porém, teriam a função de garantir que nenhuma das presas de Kadafi pudesse transmitir-lhe alguma doença. “Elas coletavam o sangue de todas nós, antes do ato, pois ele temia contrair Aids”, conta Soraya no livro.

Após algum tempo servindo como escrava sexual de Kadafi, a jovem recebeu uma “promoção” e passou a integrar a famosa guarda feminina do ex-ditador. Chamadas de “amazonas” no Ociente, as moças – sempre muito bem maquiadas e vestidas em uniforme impecável – acompanhavam Kadafi até mesmo em viagens ao Exterior. O discurso oficial era de que, escolhidas pessoalmente pelo “Guia”, elas eram exaustivamente treinadas para o combate, com aulas de armas de fogo e de artes marciais. Desde a morte do ditador, porém, outras versões para a guarda feminina vêm sendo reveladas. Ex-integrantes do grupo, além de testemunhas como Soraya, contam que as “amazonas” também eram forçadas a fazer sexo com o ex-ditador. “O comportamento de Kadafi era o de um psicopata. Da mesma forma que ele executava seus opositores, sem remorso, ele infligia violências sexuais às pessoas”, diz à Status o belga Pascal de Sutter, professor de psicologia da Universidade francesa de Lille, autor do livro Ces fous qui nous gouvernent (Esses loucos que nos governam, em tradução livre).”

Fachada da residência oficial, hoje destruída

Joias e dólares
O sexo forçado não era a única arma de Kadafi. Segundo Annick, o líbio variava o tratamento dado a suas vítimas de acordo com o status social do “alvo”. Artistas, jornalistas, filhas de generais e mulheres de políticos também podiam ser abusadas sexualmente, mas nesse caso o que valia mesmo era o desafio da conquista. De acordo com a jornalista francesa, Kadafi se mostrava extremamente paciente nessas horas, “um sumo estrategista”. “Ele era capaz de enviar um avião ao fim do mundo para apanhá-las e cobri-las de dinheiro e joias”, relata Annick, no livro. Uma das testemunhas ouvidas pela jornalista, uma ex-funcionária do serviço de protocolo do governo, contou que Kadafi convidava primeiras-damas para “entrevistas pessoais” durante visitas de chefes de Estado à Líbia. No dia seguinte, recebiam maletas com até US$ 500 mil em espécie. Annick admite que seria difícil para o Ocidente saber de todos os detalhes sórdidos desse lado de Kadafi, mas que parte disso era conhecida pelos principais governos. “Os serviços de inteligência estavam a par de muita coisa. Sabiam que Kadafi mandava buscar prostitutas na Europa para acompanhá-lo em encontros internacionais. O Ocidente sabia e é isso que me dá raiva.”

 

“ELE DEVASTOU A MINHA VIDA”

A seguir, trechos do depoimento de Soraya, extraídos do livro de Annick:

“Kadafi estava nu sobre a cama. Que pavor! Tapei os olhos e fui recuando, atordoada. Ele então me agarrou pela mão e me fez sentar a seu lado na cama. – Vem pra cá, puta!”

“Ele me fez dançar. E depois fumar. Então usou um cartão de visitas para fazer uma fileira de um pó branco muito fino. Pegou um papel, enrolou e aspirou pelo nariz. – Vai, faça como eu! Cheira, vadia!”

“Também chamou Adnane, um guarda veterano das forças especiais, casado, pai de dois filhos, e que era obrigado a manter relações sexuais frequentes com o Guia. Ele o sodomizou na minha frente, depois disparou: – Sua vez, vadia!”