3, 2, 1 POLO!

Cheio de estilo, o Bike Polo é um esporte cada vez mais popular. Nosso colaborador foi à Argentina disputar o campeonato sul-americano e conta por que os amantes do jogo têm motivo de sobra para comemorar

 

TENSÃO E CANSAÇO. Era o que sentíamos naquele momento, minutos antes de entrar em quadra. O dia anterior havia sido longo. No último jogo da véspera, nosso atacante, Genesis Cerqueira, fora penalizado por um lance perigoso e, agora, teríamos que jogar sem ele por um minuto. Isso nos deixava bastante nervosos. Vivíamos o segundo dia do “Chepolo”, o II Campeonato Sul-Americano de Hard Court Bike Polo, ou simplesmente Bike Polo, disputado em Buenos Aires no começo de outubro. Nosso time, o Selvagens, buscava manter-se vivo na disputa contra os argentinos do 43bol.

Criado há mais de 100 anos na Grã-Bretanha por amantes de polo tradicional (jogado com cavalos) e de bicicletas, o Bike Polo é hoje um esporte em expansão, principalmente em grandes metrópoles, como Nova York, Paris, Londres e Berlim. As bicicletas alteradas, os tacos artesanais e as diversas proteções que os jogadores ostentam como armaduras marcam o visual alternativo e conferem charme de esporte urbano à prática. A popularização ocorre também aqui na América do Sul. O primeiro torneio regional, disputado em 2011 em Santiago, no Chile, contou com 12 equipes. Esse número praticamente triplicou para 35 na edição portenha. No Brasil, onde o jogo chegou para valer há três anos, São Paulo é o centro do esporte, com cerca de 40 jogadores em atividade. As quadras do Parque do Ibirapuera, por exemplo, são espaços cativos para seus praticantes, principalmente às terças e quintas-feiras à noite. A organização desses jogos conta com página no Facebook (procure por São Paulo Bike Polo) e deu origem à liga feminina da modalidade, criada este ano.

A popularização do esporte tem atraído pessoas de diversos perfis e faixas etárias – de jovens de 20 e poucos anos a homens feitos por volta dos 40 –, moldando uma tribo bastante eclética. Há uma turma com pinta de skatista, outra mais ligada na bicicleta, ex-jogador de polo tradicional, muitos tatuados, muitos sem tatuagem. Para começar a jogar, basta chegar na quadra e se apresentar. Sempre sobram tacos que emprestamos com prazer. Mas, importante reforçar, ninguém entra em quadra sem capacete.

O jogo começa com as seis bicicletas – três de cada time – posicionadas atrás de seus respectivos gols, com a roda traseira encostada no fundo da quadra. O grito “3, 2, 1 polo!” dá início à partida, que pode durar até dez minutos ou menos, no caso de um dos times anotar cinco gols antes do tempo regulamentar.

O Bike Polo pode ser jogado com qualquer bicicleta. Mas, aos poucos, todo jogador percebe que, para seu nível melhorar, é preciso investir na bicicleta e em equipamento. Uma bike adaptada para o jogo pode custar até R$ 2 mil e os equipamentos outros R$ 500, pelo menos. O investimento é alto, mas a recompensa é certeira.

Poucos meses após me iniciar na prática, ali estava eu, em Buenos Aires, disputando o Sul-Americano. Quando nosso jogo decisivo começa, João Carlos dos Santos, o “JC”, se coloca no gol. Aos 30 segundos tomamos o primeiro gol e, logo depois, nosso terceiro jogador, Genesis, entra na quadra para empatar a partida.

Moda urbana e atitude irreverente marcam a eclética tribo dos jogadores e fãs de bike polo que se reuniu na capital argentina

O torneio continental (logomarca acima) reuniu 35 times ao todo, número três vezes maior do que o da edição anterior

O ritmo do jogo é intenso. A sorte é que a energia da torcida não fica atrás. Muita gente na arquibancada, uma “buena onda” unindo anfitriões e visitantes. Ao todo, havia 16 equipes locais, uma do Equador, cinco do Chile, quatro da Colômbia e nove brasileiras. Havíamos passado da fase classificatória na véspera e, agora, encarávamos a eliminatória. Do Brasil, apenas nosso time, e o UnderDogs, equipe brasileira favorita ao título, chegavam ao “mata-mata”.

Nosso adversário, o 43bol, era uma das melhores equipes da Argentina, campeã nacional de 2012. Era um time forte. Nos dois sentidos. Um de seus integrantes jogava com o objetivo claro de fazer com que o adversário colocasse um pé no chão, o que é proibido. Quando isso acontece, o jogador tem que pedalar até o meio da quadra, tocar o taco na lateral e só depois voltar ao jogo. Mas conseguimos deixar o jogo parelho. Eles fizeram 2 a 1, empatamos; outro gol deles, novo empate.

Detalhe do uniforme da delegação brasileira, composta por nove times

Nosso desempenho nos fez receber ao final o título de “time revelação” do torneio e, até aquele 3 a 3, parecia fazer com que os argentinos adotassem o jogo limpo. De repente, porém, o ritmo deles aumentou e assim nos eliminaram por 5 a 3.

Estávamos realizados, mesmo com a derrota. A alegria da nossa torcida contaminou a todos e mesmo os argentinos na arquibancada acabaram gritando nosso nome, superando a rivalidade entre os países. Nosso papel agora seria torcer pelos UnderDogs. Eles estavam na final, contra os chilenos do Monopolientos. Era o repeteco da final do campeonato anterior, quando os andinos ficaram com a taça.

A confraternização entre os brasileiros “selvagens” e os argentinos do 43bol, com nosso colaborador Marcos de Assis ao centro

Começou a cair uma forte chuva e os finalistas começaram a esvaziar um pouco seus pneus para melhorar a aderência no solo molhado. Era visível a tensão em seus rostos. Eles sabiam que o jogo seria lento e escorregadio. Cada um deles olhava para sua bicicleta com respeito e veneração. Quem joga Bike Polo tem um cuidado único com sua magrela, o que inclui montá-la de um jeito particular, sempre com quadros curtos para melhorar o controle e a agilidade e com tampões nas rodas para evitar que os raios quebrem.

Não teve chuva, não teve Chile. Em um jogo emocionante, nossos colegas do UnderDogs ganharam a final por 3 a 1 e levaram o título. Com o jogo terminado, a torcida invadiu a quadra e os times se abraçaram, dando vida ao surrado espírito esportivo. A festa seguiu num galpão de circo ali perto. Pois no Bike Polo é assim: todos querem consolidar o esporte ao redor do mundo, como uma grande família de malucos por bicicleta e polo. O próximo encontro já está marcado para o ano que vem, em São Paulo, sede do III Sul-Americano de Hard Court Bike Polo. 3, 2, 1 polo!

Nas fotos acima, detalhes das bicicletas adaptadas e dos tacos feitos sob medida para a prática do jogo

A equipe brasileira Underdogs celebra sob chuva o título do campeonato

 

A REGRA DO JOGO

• É disputado por dois times, cada um com três jogadores

• Não existe uma medida oficial para as quadras. Elas têm em média 40 metros de comprimento por 20 metros de largura

• O tempo de uma partida é de dez minutos, ou cinco gols marcados pelo mesmo time

• Se houver empate, ganha o time que marcar primeiro o “gol de ouro”

• A bola, igual às de hóquei, é conduzida em qualquer parte do taco, mas o lançamento ao gol só é permitido com as extremidades do cilindro

• Após marcar um gol, o time deve retornar ao campo de defesa para que o adversário reinicie a partida

• É permitido ficar parado com a bicicleta na frente das traves, mas sem encostar o pé no chão

• O único contato previsto no jogo é entre bicicletas, tacos e ombros dos jogadores

 

ESPORTE URBANO

• O Bike Polo tem mais de 100 anos de vida e paternidade irlandesa, pois seu criador foi o ciclista Richard J. McCreadye. À época, o esporte era jogado sobre a grama, e atendia pelo nome de Cycle Polo. Sua versão moderna é chamada de Hard Court Bike Polo, por ser praticada em “quadras duras” de grandes cidades, como Londres, Paris, Berlim, Milão, Zurique, Nova York, Seattle, São Paulo, Buenos Aires e Santiago.

 

ESTILO VINTAGE

• O crescimento do Bike Polo não foi ignorado pela alta moda. Uma das maiores grifes de luxo do mundo, a francesa Louis Vuitton, associou-se aos jogadores Hannes Hengst e Gregory Barbier para produzir uma bicicleta, acessórios e equipamentos com o objetivo de deixar o jogo ainda mais elegante . O visual “vintage” do conjunto é uma homenagem à história do Bike Polo, incluído na Olimpíada de Londres de 1908 como esporte de demonstração. A bike é feita em alumínio, aço, couro, tela e plástico de alta densidade. Ela e os demais acessórios e equipamentos podem ser adquiridos em algumas das lojas da grife ao redor do globo. www.louisvuitton.eu