LULU SANTOS

O furacão da música pop encontra o furacão da publicidade pop e a conversa, claro, vai da música para a estética e para a vida. Roberto e Erasmo, Jorge Ben, a bossa nova, o preconceito contra o rock – e o direito de gostar de Michel Teló 

 

Por Washington Olivetto
Fotos
Daryan Dornelles

 

Washington Olivetto conhece Lulu Santos há 30 anos, por aí. Os dois podem ficar dois, três meses sem se ver, mas a amizade continua lá, próxima, forte, afetuosa.

“Gore Vidal me falou uma vez, na piazzetta de Ravello, sobre o orgulho de ter certos amigos”, diz Washington. “Tenho o direito de ser mais orgulhoso de meus amigos que o Gore Vidal” [não estranhem, Washington fala de gente como o escritor Gore Vidal, que faleceu este ano, com uma intimidade espantosa].

W e Lulu se encontraram no apartamento do publicitário em Ipanema, num daqueles diáfanos finais de tarde bem cariocas. Lulu Santos avisou: “Não dou entrevista.” Mas o cantor-compositor pop aceitou travar, para Status, esse inspirado dueto com o publicitário pop. A música dá o tom da conversa – não poderia ser diferente. Mas o encontro é também uma lição de vida, de verdade e de paixão.

“Se tem alguma coisa que eu admiro, Washington, é a generosidade como você lida com o talento dos outros”, começou Lulu. “Sem ciumeira, sem torcida contra”. Washington se fez de modesto: “O que você chama de generosidade, Lulu, eu chamo de esperteza. Admirar pessoas que merecem ser admiradas é coisa que realimenta.”

Lulu Santos está hoje sob os estridentes spots do The Voice Brasil, apresentado nas tardes de domingo pela Globo. É o velho programa de calouros repaginado para o terceiro milênio. Ao lado de Claudia Leitte, Carlinhos Brown e Daniel, Lulu revela toda a versatilidade de um genuíno bicho do palco. Palpita, ensina, serve de padrinho, vota, canta, dança e sapateia (de repente, olha ele lá cantando junto com Erasmo Carlos). Lulu é um príncipe do humor e da alegria. Ele assume: “O importante é criar felicidade nas situações que você vive e não impedir de transferir essa felicidade para os outros.” Pouca gente faz isso tão bem quanto Lulu.

Washington Olivetto – Subir num palco e se jogar de corpo e alma para a plateia é o jeito mais glorioso de ser generoso?
Lulu Santos – Eu transfiro admirações, é assim que quero ser como artista. Fazer um show com músicas do Roberto e do Erasmo e, de repente, ver o Roberto lá na sua plateia é o que chamo de inveja saudável. Quando alguém tem a capacidade de admirar o outro, facilita.

W – Como foi isso?
Lulu – As pessoas aplaudiam, aplaudiam, mas aí eu percebi que não olhavam para o palco, olhavam para o lado, ou para trás, e aplaudiam. Estranhei mas logo vi que era o Roberto que estava lá.

W – Você tem alegria no que faz. Eu diferencio ego e autoestima. Você, Lulu, tem uma autoestima que faz com que tudo seu seja grande, excepcional, extraordinário.
Lulu – No Brasil a gente tem um pouco de dificuldade com a noção de orgulho. Sujeito orgulhoso é malvisto. Em inglês, fala-se em pride o tempo todo. Nós temos esse viés de culpa, esse temperamento melancólico da contrarreforma. O contraponto é encontrar nos outros esses oásis de vida e do deixa viver. A gente nunca se enche o saco, né Washington?

W – Nunca. É só pegar o telefone que vai ter o outro do seu lado. Conta mais desse show Roberto-Erasmo.
Lulu – É um projeto alavancado pelo Banco do Brasil. Intérpretes escolhem seus compositores. Maria Betânia faz Chico Buarque. Sandy incorpora Michael Jackson. Eu escolhi Roberto e Erasmo. Nesse momento pareço uma companhia de repertório. Numa noite posso estar no Teatro Castro Alves, em Salvador, com Roberto e Erasmo e, no dia seguinte, na Feira Agropecuária de Itaipava, fazendo o Toca Lulu.

W – A empresa Lulu Santos…
Lulu – A Companhia Lulu Santos de Repertório tem dois espetáculos. O Toca Lulu e…

W [com ironia] – …e um espetáculo um pouco menos popular, mais erudito, que é Roberto e Erasmo.
Lulu – O encontro do Roberto e Erasmo com uma plateia é ex-plo-si-vo. Quero me dedicar muito a esse espetáculo ano que vem. Quero sair da minha própria pele. Quero voltar a fazer um pouco a antirrede social. O que é hoje viral antigamente se chamava de boca a boca. Tem determinadas práticas que parecem que foram inventadas pela internet, mas foram apenas renomeadas e talvez rodem com velocidade maior.

W – Redes sociais são as velhinhas de uma aldeia italiana contando pra todo mundo que a filha da vizinha agarrou alguém.
Lulu – Velho como o telefone sem fio. Por que Irma Vap ficou dez anos em cartaz? Viral é o boca a boca. A gente deve gravar o show Roberto e Erasmo, o Roberto deu o imprimatur. Quero uma coisa legal, ao estilo dos Tribalistas. Mas prefiro continuar convencendo as pessoas pessoalmente, casa cheia a casa cheia.

W – Vi a estreia, as pessoas ficaram maravilhadas, aquelas músicas superconhecidas, mas senti certo incômodo. A ponto de um cara gritar, “toca uma do Lulu Santos”…
Lulu – Toca Lulu. Virou nome do outro espetáculo. Você chegou no camarim e disse: “Que coisa, você chega com um repertório desses e ainda assim consegue que as pessoas peçam pra você tocar você mesmo.” [ri] Gostei da ideia do Toca Lulu. E tem essa aliteração do “Toca Raul!”.

W – Canções sensacionais, as do Roberto e Erasmo.
Lulu – Eleitas pelo povo, elas ganham dimensão e gravidade à medida que o tempo passa e o uso as consagra.

W – Algumas, aposto, responsáveis por você, Lulu, fazer na vida o que faz hoje.
Lulu – Conheço o Roberto desde 1974… 1974! Toquei com o Roberto no Canecão em 1974. Ele me trata igual desde que eu era rigorosamente ninguém, apenas o garoto que estava substituindo o cara que tocava sintetizador e teve de viajar pros Estados Unidos. Por três fins de semana, subi com Roberto Carlos, Coral & Orquestra no palco do Canecão para fazer o show, dirigido pelo Ronaldo Bôscoli. Eu tinha 20 e poucos anos.

W – E todo mundo queria ser o Roberto Carlos na época. O Ritchie bem que tentou.
Lulu – Pelo menos foi da mesma gravadora [ri]. Mas o Ritchie sabia muito bem o que fazer. O primeiro disco dele vendeu um milhão e 200 mil cópias.

W – Neste show, você provavelmente mostrou para o Roberto um jeito diferente de fazer o que ele fez – uma leitura nova para um trabalho que ele gostaria de ter.
Lulu – Provavelmente.

Amigos para sempre: Washington Olivetto e Lulu Santos em um bate-papo para a Status no apartamento do publicitário em Ipanema

W – Isso é generosidade no melhor sentido.
Lulu – É aí que volto ao mesmo ponto. Toda generosidade se reverte para você mesmo. A volta cósmica é bem bonitinha. Naquela noite do Roberto fui dormir me sentindo no topo do mundo. Porque ali eu tenho completa validade. Ninguém pode contestar o meu direito de reprocessar um fato legítimo da cultura brasileira. O pop nacional tem 50 anos. Vamos parar com essa história, gente! Quando houve os 50 anos da bossa nova, foi aquela coisa toda. Acabaram até levando o Roberto para cantar Tom Jobim junto com Caetano. Quando, na verdade, lá atrás, Roberto era uma alternativa àquilo. O tempo todo ele era malvisto pelo pessoal da bossa nova.

W – E só optou pelo pop porque não deixavam que ele fosse pra bossa nova.
Lulu – É verdade, não deixavam. Tem um personagem a quem o Brasil deve um filme: Carlos Imperial.

W – Biografia, ele tem.
Lulu – Você me prometeu, esqueceu? Imperial foi o grande vértice. Você o conheceu pessoalmente?

W – Não só conheci como fui vítima dele.
Lulu – Olha aí. Também fui vítima dele.

W – Ele tentou literalmente me extorquir.
Lulu – Está vendo? Cada vez mais aumenta a minha admiração!

W – Quis fazer um comercial com uma canção do Eduardo Araújo, Ele é o bom. Que o Imperial registrou numa outra editora em nome dele. O Imperial tinha uma coluna numa revista…
Lulu – Na Amiga… ele era da pesada… Um gângster, totalmente autoinventado. Ninguém sabia de onde tinha surgido aquela criatura.

W – Ele acabou me ligando, me ameaçando. Liguei pro André Midani, com quem, aliás, você, Lulu, já teve todos os afetos e todas as contendas da vida…
Lulu – Meu amor, não fui eu quem tirou a biografia dele das bancas e das livrarias. Não tive nada a ver com isso. Alguma ele ia fazer com alguém para dar nisso.

W – Liguei para o André, e ele, “não se mete com o Imperial, ele é uma encrenca monumental”. Foi no início dos anos 1980. Acabei indo almoçar com ele no La Tambouille. Ele me disse, “quero é que você use muita coisa minha em seus comerciais, até porque sou dos poucos compositores [ele me contou isso numa boa] que já compunha antes de nascer. Tenho os direitos do Cai, cai, balão!, registrei o Atirei o pau no gato”. Ainda me convidou para ir ao Rio. “Tenho um sítio meu aonde levo umas lebres para abater…”
Lulu – Dizia que praticava o cochivilianismo. As colunas começavam assim: “Estava aqui abatendo umas lebres, praticando o cochivilianismo…” Foi o Imperial quem tirou o Roberto Carlos da bossa nova. Disse, “meu amigo, vai por aqui”. O Erasmo era secretário do Imperial, arrumava as notas da coluna. Erasmo escrevia: “O cantor e compositor Erasmo Carlos lança seu novo compacto, os brotos estão em delírio.”

W – O Simonal também trabalhou com ele.
Lulu – Foi Carlos Imperial quem articulou o iê-iê-iê no Brasil. Tinha visão de mercadologia, aquela atitude pop ele já tinha sacado. Grande talento da produção.

W – Você disse: 50 anos de rock brasileiro e ainda tem gente que torce o nariz. Você, que é reconhecidamente um músico excepcional, também sofreu com isso?
Lulu – Fui totalmente singularizado como o representante das piores coisas desse negócio por causa da popularidade e do romantismo. Qualquer coisa que fosse mais punk, mais própria dos modelos originais de fora, era mais recomendável do que eu. Na crítica, na imprensa. Mas, pra mim, não fez a menor diferença. A elite… a elite não tem o tchum, o tchá. Tem sempre aquela coisa: devemos ou não devemos gostar?

W – Podemos ou não podemos gostar?
Lulu – Eu estava ouvindo ontem o Michel Teló. Não conheço direito, ouvi a música dele uma vez no Réveillon, em Maceió, grana excelente, maravilhoso, melhor do que contratar bufê e fazer uma festa… Este ano vamos a Punta del Leste. Depois do show da gente, a única coisa que o DJ pôde botar foi Michel Teló. Ah, então, é isso! Agora que está legal no mundo inteiro ser Brasil – interessante essa perspectiva – li na Time que Michel Teló, na Olimpíada, funcionou para a torcida inglesa, cara! Fiquei besta. A Inglaterra feliz, mais de 60 medalhas, todo mundo contente com o resultado, acabou aquele negócio do ha-ha. O inglês faz a diferença entre expect e hope, expect the worst, hope for the better and work with what comes. Sensacional a lógica da alma nacional, exposta assim abertamente. Se preparar para o pior.

W – Nem choveu na Olimpíada.
Lulu – Nem choveu. Bateu um jubileu legal, pegaram aquela onda da rainha. A rainha caindo de helicóptero com o James Bond. Tem alguma coisa melhor que isso?

W – Monty Python total. Mas, Lulu, essa divisão rock versus MPB que a gente estava falando me parece artificial. Você e muitos do chamado rock brasileiro dos anos 1980 fazem uma releitura constante da música popular. Penso, por exemplo, na presença do baião na sua música.
Lulu – Eu sou brasileiro, não vou escapar disso, não. Agora, então, que está bom ser brasileiro… [risada]. Isso é uma coisa que a tropicália já tinha resolvido havia muito tempo, né? Essa questão moral. Parece que a gente está ficando esteticamente mais conservador, exigindo das coisas um certo academicismo.

W – Me perguntaram se eu ouvia Michel Teló, eu disse, “claro que ouço, eu ouço tudo, bicho”.
Lulu – E por que não?

W – Você pode até não procurar por ele, mas ele procura você, vem a você. O barato do sucesso de Michel Teló é o mesmo dos livros de Paulo Coelho.
Lulu – Qualquer sucesso é bacana. Por que moralizar o sucesso? Sucesso é quando o sujeito encontrou sua própria lógica. Pode usar ou não usar. Melhor quando usa. A tropicália serviu pra isso, muito tempo atrás.Tirou a culpa do artista.

W – Cada movimento gosta de dizer, “nós somos o bom gosto”.
Lulu – Vou fazer uma denúncia. Tem uma coisa estranha aí no aficionado da bossa nova pelo jazz. O jazz era uma coisa datada quando a bossa nova apareceu. Aquilo já não estava funcionando como referência.

W – A importação musical era lenta naquela época.
Lulu – Era lenta, mas a bossa nova olhando pro jazz era pegar uma rabeira histórica enganada. Tem um equívoco aí. Não estou falando em falta de patriotismo, essas coisas. A bossa nova foi posta como filtro exclusivo de bom gosto contra quase tudo. No livro de Ruy Castro, ele exalta a bossa nova contra “a sanfona cafona de Luiz Gonzaga”. Acho Luiz Gonzaga tão ou mais importante que toda a bossa nova. Mas eu gosto mesmo é de rock’n’roll, quer saber? E de rhythm & blues. Menos de rock e mais de roll. A parte boa, a que rola.

W – Não dá pra fazer dieta de música.
Lulu – Não dá. Mas se tiver de escolher, é R&B. Na verdade, não gosto de rock de branco. Gosto de hip hop, gosto de funk. Presto atenção em artista negro. Seja Tim Maia, Seu Jorge ou Martinália.

W – Um dos orgulhos da minha vida foi ter feito a aproximação sua com o Jorge Ben.
Lulu – É, e também não adiantou nada [ri], ele é tão autoexistente, “oi, oi”, fim de papo. Encontrei o Jorge no encerramento do Festival de Garanhuns, no aeroporto. Ficamos disputando, o grupo dele e o meu, qual era o último a entrar no avião. Na porta, o cara da companhia pediu: “Identidade”. E o Jorge: “Pô, pô, identidade?” E olha a cena: lá vai o Jorge Ben abrir a carteira e produzir um RG pra poder embarcar.