O MAR QUER VOLTAR

Status esteve no Cazaquistão e conferiu a solução encontrada pelo governo local para minimizar os danos causados ao Mar de Aral, que quase secou

 

Por Nadia Shira Cohen, do Cazaquistão

 

VESTINDO SEU HIJAB DE CORES VIVAS, ela estava em pé entre as carcaças de barcos, numa larga faixa de terra desolada, no que há 40 anos foi o fundo do mar. Cobria-se apenas para rezar, prática proibida para a maioria dos cazaques durante os 70 anos em que o país esteve sob a tutela do regime soviético. Mira, 27 anos, pede ajuda aos céus pela saúde de sua filha de 5 anos, Inabat. Desde que a menina nasceu, a vida das duas resumira-se a intermináveis consultas a médicos e viagens à Rússia para dispendiosas operações nos olhos. Inabat sofre de um defeito congênito raro conhecido como síndrome de Marfan, uma doença que causa crescimento excessivo dos membros, como também má formação do coração e problemas de vista. Muitos nos vilarejos e cidades próximos ao Mar de Aral sofrem de problemas crônicos de saúde depois que um dos piores desastres ambientais do século 20 fez com que o quarto maior lago de água salgada do mundo, com 68 mil km² de superfície (o equivalente à dos Estados do Rio de Janeiro e Alagoas juntos) e 1,1 mil km³ de volume de água, encolhesse para 25% de seu tamanho original – hoje sobram apenas 10%. “É uma tragédia coletiva”, diz ela, atribuindo seus infortúnios ao sumiço da paisagem salgada. “Não consigo me lembrar da última vez que vi o mar. Talvez seja apenas um mito, algo pelo qual ansiamos, porém sem muita esperança de que algum dia ele volte. O incrível é que sinto o mar chamar por mim.”

O ponto de partida para a destruição do Mar de Aral, que em português significa Mar das Ilhas (eram mais de 1,5 mil), ocorreu a partir da implantação pelo governo da ex-União Soviética, nos anos 1960, do cultivo de extensas áreas de algodão, com aplicação de agrotóxico para desfolhar as plantas. Para irrigar as plantações, os rios Syr Darya e Amu Darya foram desviados. Privadas de seus dois principais afluentes, as margens do Aral, que se expandiam do norte do Cazaquistão até o Uzbequistão em sua extremidade sul, começaram a retroceder, levando com elas a indústria da pesca, assim como muito da agricultura sustentável de ambos os países. Os agrotóxicos poluíram 15% das águas, também castigadas pelos efeitos das barragens de 45 usinas hidrelétricas que deixaram para trás quilômetros de deserto. E o que restou do Aral foi transformado numa piscina hipersalinizada, cuja quantidade de sal na água saltou de dez gramas por litro para 45 gramas por litro e, em algumas partes do Aral Sul, chegou a espantosos 98 gramas por litro. Isso sufocou quase todos os peixes remanescentes e matou de sede a fauna e a flora nas imediações. A floresta que cercava suas margens praticamente acabou e cerca de 80% das espécies de animais desapareceram.

A salvação
Junto aos novos problemas de saúde enfrentados pela população local, o desemprego forçou multidões de habitantes a migrar para cidades e vilas vizinhas. Foi o que aconteceu com Tactubek, uma vila pesqueira outrora próspera, com mais de uma centena de casas próximas das margens, que há dez anos se encontrava a 12 quilômetros de distância do mar e com apenas 20 casas ocupadas, principalmente por famílias de ex-pescadores.

Em 2001, entretanto, após anos de tentativas frustradas por parte dos habitantes locais para construir uma represa artificial, o Banco Mundial, em conjunto com o governo cazaque, contribuiu com a barragem de Kokaral, de 13 quilômetros de extensão. O projeto de US$ 86 milhões, que ficou pronto em 2005, tinha como objetivo elevar o nível da água do norte do Mar de Aral pelo represamento do seu fluxo para a parte sul do mar, drasticamente diminuída. Espécies de peixes que haviam desaparecido foram reintroduzidas e uma ONG dinamarquesa doou redes de pesca para moradores locais. “Esse projeto levou 18 anos para ser realizado”, diz Sagi Aidarali, enquanto retirava as solhas, espécie de peixe que havia sumido da região, de sua rede. Seu pai foi pescador no Mar de Aral, mas, como muitos de sua época, foi mandado pelos soviéticos para pescar no Irgiz, outro grande lago no Cazaquistão. Ele revelava um discreto sorriso em seus lábios enquanto recordava em voz baixa os dias em que seu pai o levava numa motocicleta para pescar com um barco de madeira parecido com o seu próprio e usando o mesmo tipo de rede que ele agora segurava nas mãos.

Pescador tenta capturar algum peixe no que restou de água na parte sul do Mar de Aral

Carcaça de uma das dezenas de barcos presos na areia que um dia foi o fundo do mar

Os pescadores de Tactubek são um testemunho do desejo humano de corrigir os erros do passado. O primo de Mira, Texiran, que começou a pescar enquanto cursava o ensino médio, tocou o mar pela primeira vez aos 13 anos. A família dele era de Tactubek, porém mudou-se para o vilarejo vizinho de Saksaylsk quando o mar “fechou”, como dizem os locais. A mãe de Texiran vendia mercadorias nos trens intermunicipais para gerar renda enquanto o pai estava desempregado, mas Texiran levou a família de volta a Tactubek quando começou a pescar. De pé, antes do nascer do sol, homens como Texiran surgem de seus bangalôs escavados artesanalmente na areia. Com ligação elétrica e claraboias improvisadas, essas habitações não são mais que montes de areia pontuando a praia com suas chaminés em forma de antena. Os pescadores misturam chai (bebida típica à base de chá, leite e especiarias) com vodca russa e partem na esperança de boa pescaria e ganhos substanciais dos compradores de peixe enviados de Aralsk, principal cidade da região.

Outrora uma cidade portuária estratégica, na extremidade norte do Mar de Aral, Aralsk prosperou graças ao comércio de commodities entre a Rússia e a Ásia Central. Apesar de a represa ter trazido a margem para 25 quilômetros do que no passado fora o Porto de Aralsk, esse efeito ainda não pode ser percebido.

O que restou da vila de Tactubek

Jovem na principal rua de Aralsk

“Ouvimos dizer que o mar está voltando”, diz Bakitgul Korenova, uma pensionista, recostando-se em seu sofá-cama do lado de fora de sua casa no bairro Doshniazov. “Esperamos que seja verdade”, afirma ela, que não deve lembrar que o local é um conglomerado de moradias subsidiadas pelo governo e construído no começo dos anos 1980 onde costumava ser o mar. Os filhos de Bakitgul, salvo um que é deficiente mental, mudaram-se para cidades maiores do Cazaquistão em busca de melhores oportunidades. Muitos dos jovens de Aralsk que tiveram sorte de encontrar emprego trabalham nas empresas petrolíferas de Kyzlorda. “Mas eles prefeririam ser pescadores”, diz Bakitgul. “Só que os pescadores daqui precisam ter seus próprios barcos e redes, bem como um carro para chegar até o mar.”

Os níveis de pesca na parte norte do Mar de Aral ainda estão muito baixos, mas, sete anos após a construção do dique, a biomassa de peixes na parte cazaque do Aral saltou de 3,5 mil toneladas para 18 mil toneladas (antes do desastre era de 25 mil toneladas anuais), segundo dados do diretor local de pesca Zaualkhan Yermakhanov. “Os pescadores estão transportando seis mil toneladas por ano usando apenas redes. Aldeias da região possuem novas casas e escolas, e uma fábrica de transformação de peixe em Aralsk criou 41 postos de trabalho”, diz ele. Outra boa notícia é que a média atual de sal na água gira em torno de 20 gramas por litro. Dois planos estão sendo considerados para melhorar ainda mais a situação. No primeiro, o dique Kokaral seria levantado assim que o mar alcançasse mais seis metros, expandindo a superfície norte do Aral de 5.503 km² para mais de oito mil km². O outro plano envolveria cavar um canal para o norte que desviaria a água do rio Syr Darya. Isso traria mais água para Aralsk, que voltaria a ter seu porto, e vida nova para a população.

A barragem de Kokaral, responsável pelo ressurgimento da parte norte do mar

 

O TAMANHO DO DESASTRE

• Das 178 espécies de animais que existiam, sobraram apenas 38
• A atividade pesqueira, que produzia cerca de 25 mil toneladas anuais, hoje não ultrapassa as 18 mil toneladas
• O Aral recebe anualmente 60 milhões de toneladas de sal carregadas pelos rios da região. A média atual de sal na água gira em torno de 20 gramas por litro, mas já chegou a 98 g/l
• US$ 86 milhões foi o investimento do Banco Mundial, em conjunto com o governo cazaque, para construir o Dique Kokaral, que está fazendo
com que o nível do Mar de Aral suba