A BELA ADORMECIDA

Lucas* tem namorada, mas quer realizar um fetiche com outra: entrar no apartamento da gata e acordá-la com sexo. Conhece Isabela e tudo dá certo. Ou quase…

 

Em depoimento a Alice M.
Ilustração Mariogogh

 

DESDE QUE A MINHA NAMORADA CAROLINA veio morar comigo, ela reclama dos meus amigos, acha todos nerds, mesmo os que não são. Reclama que falamos demais de programação, de coisas que ela não entende. Eu amo a Carol. Ela é bem bonita. Quando a gente se conheceu, ela nadava, malhava, fazia ioga. Agora, relaxou. Mas me trata bem, é inteligente, tem a vida dela, não me dá trabalho. E transa bem, fazemos o básico, mas é gostoso.

Conseguimos manter um hábito delicioso desde que começamos a dividir o mesmo teto – e as contas. Quando eu chego do trabalho às sextas-feiras, temos um ritual quase sagrado: tomamos um banho juntos e transamos antes mesmo de pensar no que jantar ou no que fazer.
Ela segura nas torneiras, fica nas pontas dos pés e eu encaixo por trás, indo e vindo lentamente. A água morna, escorrendo no corpo todo, vai levando o estresse embora e aumentando o meu tesão. A Carol tem um bumbum gostoso. Bela fonte de inspiração. E de transpiração. Acelero o movimento e escuto os gemidos dela. Aí não aguento. Seguro os peitos dela, aperto bem os bicos e deliro quando ela goza quase ao mesmo tempo que eu.

Mas falta alguma coisa quando estou com a Carol. Nosso roteiro sexual é muito previsível e fico constrangido de pedir coisas mais apimentadas. Comentei isso com um amigo do trabalho, o Zeca, e ele me deu uma mãozinha. Quer dizer, uma gata inteira. Conheci Isabela – artista plástica novinha e linda demais – em uma festa da empresa em que a Carol se recusou a ir. “Só vai ter nerds, não tô a fim.” Mal sabe ela o presentão que me deu ficando em casa.

Zeca me disse que Isabela é bem liberal, porque esse pessoal das artes tem a cabeça mais aberta. Festa da firma geralmente é um saco. Mas aquela foi bem melhor do que a média. Fizemos a nossa rodinha, tomamos cerveja gelada e em meia hora eu já estava apaixonado por Isabela. E ela me deu bola!

Morena, um pouco mais baixa do que eu, de cabelos longos e lisos. Uma boca carnuda, daquelas que dá vontade de beijar a noite inteira. Um sorriso meio tímido, mas um jeito de olhar sacana, convidativo. Vestido florido, curto, bem curto. Artista que frequenta a Vila Madalena, um dos bairros boêmios de São Paulo. Enquanto a minha namorada, a Carolina, fazia o tipo “executiva da Vila Olímpia”. Para me matar de tesão, a Isabela estava sem sutiã. Seios duros, empinados, tamanho ideal. Logo pensei: “Cabe aqui na minha mão”.

Sempre tive um fetiche. Uma coisa simples, mas que envolve certa logística. Não tem jantarzinho antes, nem ligação no dia seguinte. É “one shot”! Bem estilo cowboy mesmo. Eu queria entrar no apartamento de uma mulher com a cópia da chave que ela deixasse na portaria – sem nunca ter visitado aquele lugar antes. Descobrir o quarto em que ela estivesse dormindo. E acordá-la com sexo. Sim, comer a Bela Adormecida. Nada a ver com estupro, apenas um incrível sexo matinal. Mas sem bla-bla-blá. Direto e reto. Entre o animal puro e o homem mais carinhoso do mundo.

Carolina jamais entenderia, mas Isabela achou o máximo, topou após a gente trocar meia dúzia de mensagens pelo Facebook no dia seguinte à festa da empresa. Foi ela quem sugeriu a data. Parecia empolgada. Marcamos para uma semana depois. Disse à Carol que ia viajar a trabalho, o que fazia com frequência. Isabela me deu o endereço e garantiu que deixaria uma cópia da chave na portaria. Eu chegaria em torno das 9h da manhã. Era um sábado nublado. Desde a sexta, só pensava nela, se estaria de camisola, shortinho ou nua.

Minha ansiedade poderia atrapalhar a ereção. Mas que nada. Cheguei ao apartamento em ponto de bala. Na portaria, me entregaram a chave e a autorização para subir. Um frio na barriga como há anos eu não sentia. Abro com cuidado a porta e sinto o cheiro dela pela casa desconhecida. Busco Isabela até encontrar uma porta fechada. Entro sem fazer barulho, nem acender a luz. Embrenhome pelos lençóis e encontro-a com uma camisola de seda preta. Percorro todo o corpo dela com as mãos suadas de tesão.

Ela abre as pernas para mim, toda molhadinha. Faço uma investigação com os dedos e depois caio de boca em um sexo oral caprichado. Isabela apenas ronrona, como uma gata de verdade, porque sabe que temos um trato. Ela goza e rapidamente vem para cima de mim. Isabela me chupa com sua boca mágica e vigorosa. Não tem muita técnica, mas isso não importa. Estou tão louco por realizar a minha maior fantasia sexual, que se ela encostar no dedão do meu pé é capaz de me arrancar um orgasmo.

Nem preciso pedir e ela já se posiciona: de bruços para mim, empina o bumbum e abre um pouco as pernas. Entro com tudo e já vou descendo a ladeira, porque meu objetivo não é parar por ali.

No meio de uma das melhores trepadas da minha vida, ouço uma porta abrindo.

Isabela levanta feito um raio. Quase dobra meu pinto no meio. Uivei de dor. Ela tenta calar a minha boca. Não entendo nada. A porta do quarto se abriu e outra gata – mais bonita ainda do que Isa – apareceu. E eu, pelado, alucinado de tesão. Cobri o que deu puxando o lençol. A moça começou a rir e Isabela, a mentir.

Até que a Isa desabou a chorar e abriu o jogo: “Lucas, essa casa não é minha, é da Fabi. Moro com meus pais. Na verdade, tenho 20 anos, ainda estou estudando, tentando terminar o ensino médio. Eu sei pintar, mas não sou assim uma artista plástica de verdade. Achei que se eu realizasse sua fantasia, talvez você quisesse namorar comigo…”.

Minha ereção desabou. Fiquei com mais pena do que ódio da garota. Levei Isabela para tomar um café na padaria da esquina e voltei para casa. OK, meu fetiche foi realizado. Comi a Bela Adormecida. Mas achava que meu conto de fadas teria um final feliz…