DANILO GENTILI

Agitador nato, o apresentador do programa Agora é Tarde solta o verbo sobre seus concorrentes, humoristas desafetos, a polêmica com Roberto Justus e o assédio das fãs

 

Por Tom Cardoso
Fotos Roberto Setton

 

Até pouco tempo atrás, Danilo Gentili, 33 anos, era apenas um sujeito de classe média baixa vindo de Santo André que conseguira a proeza de se tornar um “ex-evangélico”. Católico por formação, protestante por necessidade (em 1997/1998, num espaço de um ano, ele perdeu o pai, vítima de enfarte, e a irmã mais velha, morta num acidente de carro), Danilo achou o caminho da salvação: desistiu de ser pastor e foi viver de humor. Bateu cabeça até ser selecionado para um teste no programa Custe o que custar, o CQC, da TV Bandeirantes. Fez tanto sucesso, afrontando políticos e celebridades, que ganhou seu próprio programa, o Agora é tarde, no ar desde junho de 2011. O primeiro desafio era manter o talk show o máximo de tempo possível no ar – seus colegas de bancada do CQC, Marcelo Tas, Rafinha Bastos e Marco Luque colecionavam fracassos de audiência em seus respectivos programas solos.

Com apenas um mês de vida, o Agora é tarde, então com duas exibições semanais, passou a ser diário, alavancando a audiência da emissora no horário (de 0,8 pontos para uma média de quatro pontos no Ibope, um crescimento de 200%) e incomodando a concorrência – já não é possível contar nos dedos as vezes em que o jurássico Programa do Jô, da TV Globo, foi batido pelo escrachado programa de entrevistas de Danilo Gentili. Apesar do sucesso, o ex-CQC não se vê como um sucessor de Jô Soares ou do ídolo Fausto Silva. “Eu na TV Globo? Só se for para vender Biscoito Globo, no semáforo do Rio de Janeiro.”

– Você está para uma versão escrachada do Jô Soares ou mais para Fausto Silva no começo da carreira?
– Olha, pra mim tanto faz. O que importa é que estou sendo comparado com dois caras de sucesso, que ficaram bilionários fazendo o que fazem. Se eu conseguir chegar à metade do que os dois chegaram está muito bom pra mim. Quem deve ficar puto com essa história é o Jô e o Faustão, comparados a um bosta como eu.

– Já conseguiu bater o Jô alguma vez?
– Várias vezes. No final da Libertadores, entramos logo após o título do Corinthians. O Neto pagou uma promessa, ficou de cueca. Ficamos em primeiro lugar por alguns minutos. Por causa da cueca do Neto.

– Como fã do Perdidos na noite (programa de humor e variedades da TV Bandeirantes que revelou Fausto Silva) você não acha que o Faustão perdeu boa parte da irreverência ao ir para a Globo? Se esse também fosse o seu destino, você continuaria sendo o Danilo Gentili do Agora é tarde?
– Eu não acho que o Faustão perdeu a irreverência, não. Outro dia mesmo ele estava puto da vida por causa de uma falha de áudio. Foi andando pelos corredores da Globo, ironizando o padrão de qualidade da emissora. Ele faz um programa na Globo, domingo à tarde, para determinado público, fala com a massa e ainda assim, depois de tantos anos no ar, consegue ser ousado. Ele é muito mais irreverente do que a geração “jovem” de apresentadores.

– A sua geração…
– Pois é. A juventude está muito coxinha! Ninguém tem opinião, ninguém reclama, ninguém fala merda, ninguém erra. Todo mundo engomadinho falando o que todo mundo quer ouvir e o que não compromete ninguém. Falta mais rock and roll. Só tem mela-cueca. Puta saco!

– Quem o diverte na tevê?
– O Silvio Santos. Ele é muito mais ousado em suas brincadeiras e declarações do que muito apresentador jovem por aí. O Faustão também. Acho injusto dizer que ele se vendeu. Ele continua o mesmo na Globo.

– E você, se fosse contratado pela Globo, continuaria o mesmo ou não?
– Só se for para vender Biscoito Globo no semáforo do Rio de Janeiro. Eu duvido que a Globo um dia me convide para trabalhar lá. Se eles não me deixam participar como convidado dos programas deles, imagina como apresentador.

– Depois de provocar a revolta da colônia judaica, com uma piada sobre o metrô de Higienópolis, você agora provoca a colônia portuguesa ao escrever, no Twitter, que é “fácil sobreviver ao furacão Sandy. Quero ver sobreviver à colonização portuguesa…”
– Você está se esquecendo das piadas que eu fiz com a colônia afrodescendente, com a colônia nordestina, com a colônia homossexual, com a colônia psdbebista. Acho que a coisa mais pé no saco que existe para um comediante é ter de explicar a diferença de uma declaração e de uma piada. Jornalista e representante de ONGs, de comunidades, fazem isso direto. De forma cínica e canalha fingem que não entenderam que aquilo foi uma piada para poder arrancar uma frase e vender aquilo como polêmica, como declaração racista.

– Mas ao fazer a piada com os judeus você não teve só problemas com jornalistas e representantes de comunidades. O Roberto Justus o chamou de irresponsável, racista e infeliz no programa dele…
– Eu saí de casa para prestigiar o convite dele. Coloquei minha melhor roupa, meu melhor sapato, tomei banho, me penteei e estive aberto e disposto a colaborar com ele e com o programa dele da melhor forma possível. Tentei ser educado, coerente e tratá-lo com respeito. Ele levantou o tom de voz, foi indelicado. Geralmente não recebo meus convidados dessa maneira, mas, se ele achou que aquilo era bom pra ele e para o programa, eu mantive minha intenção de prestigiá-lo e colaborar com a proposta até o final.

– Você ficou acuado…
– Naquele momento que ele começou a gritar comigo, eu pensei: “Tem um cara gritando e expelindo perdigotos, com veias saltando em seu rosto para mostrar ao mundo como uma piada pode ser deselegante. Uau, o cara é um gênio da publicidade!” O que é mais grave? Uma piada idiota ou uma atitude como essa? Nunca quis impedir ninguém de frequentar meu bairro ou ser preconceituoso com qualquer pessoa. Meu intuito sempre foi apenas um: causar o riso. O que posso dizer sobre esse episódio é que procurei ser coerente com meu pensamento e com a postura que acho que deveria ter, principalmente quando sou apenas um convidado na casa dos outros. E até hoje me parabenizam na rua pela entrevista.

– Você disse que o filme baseado no seu livro Como se tornar o pior aluno da escola vai incomodar muita gente. Por quê?
– Porque pretendemos fazer um pouco de rock and roll. A comédia de massa brasileira de hoje usa só o dedo polegar levantado pra cima. Falta aparecer alguma coisa que use mais o dedo do meio.

– E aí… comeu?, com o seu “amigo” Bruno Mazzeo (os dois andaram trocando farpas via twitter), fez muito sucesso e não é necessariamente uma comédia com o dedo do meio levantado. Você viu?
– Não, não vi. O Bruno Mazzeo é um ótimo produtor de cinema. Ele tem acertado em cheio nas bilheterias. E eu preciso admitir que isso é positivo para o cinema nacional. Se as comédias brasileiras têm levado muita gente ao cinema o que o mercado vai pedir? Mais comédias nacionais. É bom para todo mundo.

– De onde vem essa antipatia entre você e o Bruno Mazzeo? É briga de humorista carioca com paulista?
– Aí você tem que perguntar pra ele. Eu não posso culpar ninguém por me odiar. Eu mesmo se pudesse seria outra pessoa desde o dia que nasci.

– O Claudio Manoel, do Casseta e planeta, criticou a turma do stand up, dizendo que vocês se acham foda, que se dizem ousados, revolucionários, mas que no fundo querem é vender DVD na Fnac.
– Essa declaração é um absurdo. Um absurdo! Eu não quero vender DVD na Fnac. Quero vender na Saraiva e na Siciliano também.

– Como é ter um sócio como o Rafinha Bastos (os dois são proprietários do Comedians, clube de stand up paulistano)?
– Minha relação com o Rafinha é como uma relação de qualquer marido e mulher. Eu quero o divórcio todos os dias.

– Você já ganhou muito dinheiro com o humor? Como estão os negócios?
– Estão bem, mas eu sempre acho que vai dar alguma merda e vai tudo ficar ruim de repente. Você saberá que isso aconteceu quando me vir em A fazenda (reality show).

– Os “mano” de Santo André são convidados para os shows no Comedians? Como é o relacionamento com a turma do ABC?
– Eu não tenho mais praticado sequestro com eles, mas nos vemos sempre que dá (risos). São meus amigos ainda, como eram antes, mas por causa do trabalho nos vemos menos.

– Por que você ironizou a campanha antidrogas do governo?
– Eu acho uma bosta campanha do governo com celebridade. Eu sou do meio e conheço esse tipo de conversa. É sempre um cheirador de pó falando para você não usar drogas. Eu vejo a propaganda e fico com vontade de me drogar para passar o asco.

– Já usou drogas?
– Nunca usei drogas, nem pretendo usar. Nem cigarro eu fumei. Eu cresci com minha família sendo destruída de forma muito pesada por causa das drogas. Muito tio, prima, amigo próximo da rua. O registro que criei na minha cabeça é que isso é algo péssimo, que não vou nem provar. E, além do mais, eu estou muito velho para começar com essas molecagens, me sentiria ridículo fazendo isso.

– E pra fazer sexo, está velho demais também? O assédio, com certeza, aumentou nos últimos anos…
– Não é que estou velho. Estou cansado. Quando saio com alguém tento aproveitar, mas quem acaba não aproveitando nada é a minha companhia…

– E o assédio…
– Aumentou, claro que aumentou. Com todo mundo é assim. Antes de a Gisele Bündchen ficar famosa tinha quatro caras querendo comer ela. Hoje tem 100 milhões.

– Qual tipo de mulher lhe agrada?
– As que não enchem o saco.

– O Bola, do Pânico, seu colega de TV Bandeirantes, comeu a Shakira, quando ela não era ainda a Shakira.
– Sério? Ele é meu herói, velho. Se bem que gosto de mulher normal. Sempre preferi as normais. Claro que, se uma mulher gostosa quiser dar para mim, eu vou comer.

– Nos tempos de ABC era difícil comer mulher?
– A gente dava um jeito. Eu comia no Celso Daniel.

– Celso Daniel?
– Era o nome do parque, que se chamava Duque de Caxias e passou a se chamar Celso Daniel (prefeito de Santo André, assassinado em 2002). Eu estacionava meu Corsa velho ali e passava a madrugada trepando. A gente chamava o parque de “Celso Drive-in Nel”, porque você chegava ali à noite e só tinha carro balançando.

– Você, nascido e criado em Santo André, tem alguma opinião formada sobre o assassinato de Celso Daniel?
– Aquilo foi crime político. Eu era funcionário público naquela época. Todo mundo sabia que as motivações eram políticas. Só no Brasil um prefeito é morto, assassinado, e fica por isso mesmo.

– Você vota em Santo André?
– Sim, não transferi o título para São Paulo até porque desisti de votar há muito tempo. Que se foda! O problema não é a grana para pagar a multa, o problema é encarar a fila do Banco do Brasil pra pagá-la. Eu sou ateu político, acho que o meu voto não faz a mínima diferença, assim como qualquer político eleito não vai fazer diferença.

– Por causa da falta de tempo, e do cansaço das gravações, você continua se virando sozinho como nos velhos tempos? Você disse que gosta de se masturbar vendo concurso de miss, um “punheteiro de requinte”…
– Ninguém cuida melhor do porco que o dono, não é mesmo? Eu conheço o meu pinto com a palma da minha mão. Punheta forever.