QUEM CHEGAR POR ÚLTIMO É MULHER DO PADRE

Esqueça esquiadores rebeldes, roupas tecnológicas ou manobras radicais. No campeonato italiano “Que o senhor esquie convosco”, os esportistas usam batina, terço e rezam muito, antes e depois da prova

 

Texto e fotos Alessandro Gandolfi*

 

Há anos os frades Emilianos Davide Coriani (à esq.) e Ivano Cavazzuti (centro) esquiam pelas montanhas da Itália, sempre vestidos com suas batinas marrons

“TODOS ELES VÊM DE DEUS”, diz uma senhora, em tom de brincadeira, prostrada em frente à barreira que separa a área dos torcedores da pista de esqui. Na parte reservada aos competidores, o estilo deixa a desejar e os trajes não seguem as tendências da última moda, mas a dedicação e o empenho são garantidos. Dom Stefano não diz, mas esquia com o evangelho debaixo do casaco. Dom Franco tem quase 50 anos, é magro como um maratonista e invariavelmente chega em primeiro lugar. Dom Ivano, que na realidade é um frade, quando jovem era DJ e tinha muitas namoradas; hoje gasta a sua energia na neve dos Apeninos. O mais sábio de todos, porém, é Dom Paolo de Maranello, nem que seja apenas pela idade: aos 82 anos, é o mais idoso do grupo e explica diplomaticamente que “para nós padres, é um dever estarmos presentes em todos os âmbitos da vida social, inclusive no esportivo”. Já Dom Paolo Ghidini começou a esquiar no início dos anos 1940 “com esquis feitos de madeira de freixo” e hoje, aqui em Sestola (província de Modena, no centro-norte da Itália), ele é o decano, um dos poucos que não perdeu nenhuma das 12 edições do “Que o Senhor Esquie Convosco”, campeonato italiano de esqui para sacerdotes (também para missionários, frades e seminaristas), evento organizado pelo Centro Esportivo Italiano e inventado por Dom Aronne Magni. “Começamos por brincadeira no ano 2000. Éramos aproximadamente 20 e, cansados do futebol de sempre, quisemos coroar o padre mais veloz da Itália”, conta Dom Aronne, pároco de Formigine e professor de matemática do ensino superior. “Mas, depois, muitos apaixonados começaram a nos telefonar, e vieram padres de toda a Itália. Um milagre!”

 

 

Entre centenas de missas, bênçãos e enterros que ocorrem nas diversas paróquias italianas todos os dias, reunir quase 70 padres para dois dias de provas é uma missão complexa. A maioria dos sacerdotes vem das regiões montanhosas, mas para a mais recente edição vieram religiosos da Romagna (como Dom Marco Foschi, de Rimini, que já foi aficionado por futebol de botão e basquete, e este ano levou seus dois irmãos, Riccardo e Federico, para esquiar), da Ligúria, da Toscana, de Cagliari e até mesmo de Salerno (como Dom Francesco Massa e Dom Pietro Resigno, párocos dessa cidade da Campanha, dispostos a viajar juntos de carro durante 20 horas para participar da competição).

Mais próxima de Sestola fica a grande comunidade valtellinese, que chegou num micro-ônibus dirigido por Dom Stefano Bianchi. Quando menino, ele deslizava na neve junto com o lendário Giorgio Rocca, esquiador italiano que venceu mais de cinco Copas do Mundo da modalidade. “Amo a natureza, mas, acima de tudo, amo viver o empenho do esporte e o cansaço como crescimento pessoal”, diz o padre de Dubino, melhor tempo na categoria “abaixo de 55 anos”. O sacrifício esportivo é uma regra cotidiana para Dom Franco Torresani, pároco de quatro pequenos povoados em Val di Non, no norte do país, e primeiro classificado na corrida de fundo. Dom Franco é conhecido por todos como o “padre voador”, pois é campeão italiano e europeu Master de descida de encostas e já foi prata no Mundial.

Todas as manhãs, após a missa, Dom Franco corre durante uma hora e meia, mas, quando pode, pratica esqui alpino, sua verdadeira paixão (para a corrida de slalom foi o único a renunciar ao skilift [teleférico] e a subir ao topo carregando os esquis e peles de foca). “Todos os padres jovens deveriam praticar algum esporte”, declara Dom Franco. “A competição ajuda a lutar de acordo com as regras, e isso se torna quase uma missão”. Os únicos a levar ao pé da letra as palavras de Dom Franco são dois frades emilianos, Dom Ivano Cavazzuti e Dom Davide Coriani, que há anos participam de corridas descendo pelas pistas vestidos com suas batinas marrons. “Até os esquis são medievais”, brinca Dom Davide. “Comprei esquis usados algum tempo atrás. Imagine só, os anteriores um dia se partiram ao meio enquanto eu esquiava e não sofri sequer um arranhão: uma graça!”

Contemporâneos e amigos desde a infância, Dom Ivano e Dom Davide partilharam tudo. Foram reprovados no ginásio, curtiram baladas noturnas, e até mesmo a conversão que “ocorreu para ambos num dia em 1994”, explica Dom Ivano, hoje no convento San Nicolò di Carpi. “Na época eu era marceneiro”, continua o frade, “adorava motocross e esqui, e à noite trabalhava como DJ na discoteca Corallo di Scandiano. Tive também quatro ou cinco namoradas naquela época…”. No último campeonato, Dom Davide e Dom Ivano dividiram até a classificação: respectivamente último e penúltimo na categoria “abaixo de 45 anos”. O primeiro de todos, entretanto (13 centésimos antes de Dom Stefano Bianchi, que ficou em segundo lugar), foi Dom Stanislao Troianoscki, 41 anos, vindo de Sypniewo, a 100 quilômetros de Varsóvia. O padre vencedor é polonês e pároco de Sestola desde 2003, ano em que aprendeu a esquiar. “No vilarejo onde nasci não existem montanhas”, diz ele.

O padre Stanislao recebe a taça de Dom Aronne e depois responde a uma pergunta feita por Dom Romeo (71 anos, que foi quem o apresentou ao esqui): “Stanislao, quando você virá? A próxima lua só será daqui a um mês…”. Aos jornalistas, ele explica: “Esquio somente de vez em quando. Tenho quatro paróquias para cuidar, não dá tempo.” E o que o senhor mais gostou com essa conquista? “Foi a aposta que ganhei de Giorgio Pelloni, sacristão de Sestola. O meu tempo no Slalom é 12 segundos menor que o dele. O nosso acordo era de quatro missas para quem ficasse em segundo lugar, portanto, este ano Giorgio terá que me ajudar 48 vezes!”

 

*agência Parallelozero