A GUERRA DOS DRONES

O ano de 2013 começou com uma escalada de ataques de aviões guiados por controle remoto

 

Por Clayton Melo

 

 

Uma das investidas a que sobreviveu foi um ataque à bomba realizado, em novembro de 2012, por uma facção taleban dissidente. O governo de Barack Obama queria sua cabeça, entre outras razões, por ele dar proteção à al-Qaeda. Além disso, Nazir enviava militantes ao Afeganistão para atacar tropas do Exército americano e da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). Depois de várias investidas fracassadas, a caçada a Nazir finalmente teve um desfecho. Na noite do dia 3 de janeiro, enquanto viajava ao Waziristão do Sul, uma região montanhosa a noroeste do Paquistão, na fronteira com o Afeganistão, o carro em que ele estava foi alvo de uma enxurrada de mísseis disparados por um avião da Força Aérea americana – um ataque tão letal que riscou do mapa Nazir e outros seus cinco companheiros.

A morte de um líder terrorista desse calibre já seria suficiente para virar notícia nos principais jornais do mundo. Mas um ingrediente em particular tornou o episódio ainda mais surpreendente: o ataque que liquidou Nazir partiu de um drone, um avião não tripulado cujo comando é feito remotamente, a milhares de quilômetros de distância. Foi o primeiro ataque do ano realizado por aeronaves desse tipo, mas não foi o único nem será o último. Na madrugada do dia seguinte – também no Paquistão, mas dessa vez no Waziristão do Norte –, outro drone americano eliminou membros do Taleban. Foram pelo menos três mortes.

De uma sala de comando a milhares de quilômetros do alvo, parte a ordem de atacar. Como em um videogame, basta apertar o botão e a destruição é acompanhada na tela

Esses dois bombardeios são apenas alguns exemplos da nova fronteira tecnológica aberta pela indústria da guerra. A utilização dos drones cresceu tanto na década passada que hoje eles são a principal arma dos EUA no combate ao terrorismo. Basta ver que, nos dez primeiros dias de janeiro, os americanos jogaram seus mísseis em dez alvos no Paquistão. E o número deve aumentar em breve, pois o governo dos EUA já se prontificou a enviar seus drones para auxiliar a França no combate a militantes islâmicos da al-Qaeda, no Máli, nova área de conflito no continente africano.

Embora não haja informações oficiais sobre o uso militar dessas máquinas, levantamentos feitos por entidades que acompanham o assunto dão uma dimensão da importância do fenômeno dos drones. Um estudo publicado pela Bureau Investigative Journalism, organização sem fins lucrativos ligada à City University, de Londres, registra que, desde 2004, os drones americanos mataram cerca de três mil pessoas no Paquistão. Desse total, entre 391 e 780 seriam civis, dos quais 175 crianças. O número de feridos, por sua vez, chega a 1.158. Os americanos, é verdade, estão na dianteira dessa tecnologia, mas não são os únicos a fazer uso dela. Israel e China, ainda que timidamente, também recorrem aos drones para fazer ataques e outros 70 países possuem seus robôs aéreos – incluindo o Brasil –, embora a maioria seja para monitoramento de fronteiras ou finalidades civis, como a agricultura.


Órgãos dilacerados
Para entender melhor o fenômeno dos drones, o primeiro passo é voltar a 11 de setembro de 2001. Com a derrubada das Torres Gêmeas do World Trade Center (WTC), em Nova York, o governo do então presidente George W. Bush empreendeu uma cruzada antiterrorista mundo afora. Foi a partir daí que os aviões não tripulados passaram a ser estratégicos do ponto de vista militar. Em 2001, eram 50 aeronaves desse tipo controladas pela defesa americana. Atualmente, são cerca de 800 unidades de ataque. Se a conta incluir máquinas menores, usadas apenas para ações de reconhecimento, o número sobe para 7,5 mil, ante 10,7 mil aviões convencionais. Esse contexto, claro, mudou o mercado da indústria aeroespacial. Aliás, grande parte dos investimentos direcionados a desenvolvimento tecnológico está direcionada aos drones. Dados da Força Aérea dos Estados Unidos mostram que, nos últimos dez anos, os aviões não tripulados movimentaram US$ 26 bilhões mundialmente e, até 2020, deverão responder por um faturamento anual de US$ 55 bilhões – os EUA serão responsáveis por 77% desse montante.

Se George W. Bush colocou os drones no mapa da guerra, foi seu sucessor, Barack Obama, quem os elevou à condição de protagonistas na caçada ao terrorismo. Uma das razões para isso é que, com os aviões não tripulados, evitam-se perdas de pilotos. Afinal, a pressão pela queda no número de mortes de militares é forte nos EUA. Obama precisava, portanto, encontrar uma maneira de continuar com as investidas sem que isso representasse mais baixas. Os drones eram a solução e, sob seu comando, os ataques aumentaram. Das 309 ofensivas realizadas por aviões não tripulados ao Paquistão desde 2004, a maioria (257) foi feita em sua gestão – ou uma a cada quatro dias. E não há sinais de que diminuirão. Pelo contrário. O Pentágono acaba de solicitar ao Congresso um orçamento de US$ 5 bilhões para desenvolver novos drones. De acordo com a Teal Group, consultoria internacional especializada no mercado aeroespacial, isso é quase a metade dos US$ 12,1 bilhões que o país investiu em pesquisas nesse tipo de aeronave nos últimos dez anos.

A justificativa do governo americano para intensificar o uso desses aviões não tripulados mora, principalmente, no sucesso de ações que trouxeram êxito para Obama. Os drones foram importantes, por exemplo, na procura por Osama Bin Laden, que estava escondido em uma casa no Paquistão. Durante meses, a residência do terrorista mais procurado do mundo, morto em maio de 2011 pelas forças especiais do Exército americano, foi vigiada por uma máquina controlada remotamente. O ditador líbio Muamar Kadafi foi outro que sucumbiu devido aos drones. Em outubro de 2011, quando fugia da cidade de Sirte em um comboio de carros, foi atacado por um míssil Hellfire disparado por um modelo Predator, um dos mais usados no mundo.

Depois dos ataques aos prédios do World Trade Center (WTC), em setembro de 2001, o governo do então presidente americano George W. Bush passou a investir bilhões de dólares em drones. Seu uso, entretanto, foi intensificado na era Barack Obama

São vários os fatores que explicam por que essas aeronaves se tornaram estratégicas para ações militares. Em primeiro lugar, elas são mais leves que os aviões comuns e extremamente eficientes para espionar o inimigo. Elas também podem, mesmo sobrevoando a altitudes de 18 mil metros, identificar pessoas e veículos, no chão, em questão de segundos. “As inovações dos sistemas de comunicação e sensores estão entre os motivos que impulsionaram o uso militar dos drones”, afirma Sérgio Cavalcante, CEO do Centro de Estudos e Sistemas Avançados do Recife (C.E.S.A.R), que desenvolve projetos com drones no Brasil. Além disso, sua capacidade de destruição é impressionante. Os mísseis disparados por um drone matam por incineração, estilhaços e dilaceramento dos órgãos internos, em virtude das ondas de calor liberadas pela explosão. E seu poder de fogo parece não ter fim. O protótipo americano X-47B, em fase de desenvolvimento, poderá carregar até duas toneladas de bombas.

Videogame
A disseminação dos drones, no entanto, está envolta em grandes polêmicas e questionamentos éticos. Ativistas de ONGs internacionais e a população dos países atacados afirmam que essas aeronaves banalizam a guerra e, consequentemente, colocam a vida de civis em risco. Um dos argumentos é que, distanciados do calor do combate e controlando os drones por uma espécie de joystick – sim, isso mesmo, joystick –, os pilotos perdem a noção da realidade. “O problema dos drones é que tudo se parece com um videogame. O piloto fica numa sala e, com um joystick nas mãos, dispara um míssil”, afirma Kalinka Castelo Branco, professora do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da USP em São Carlos. “Por estar distante do conflito, ele pode não ter a dimensão do que está em jogo. Ele não vê sangue, mas está matando pessoas, que podem ser civis.”

A afirmação de Kalinka faz coro à de integrantes de organizações internacionais, como James Cavallaro, diretor da Clínica de Direitos Humanos e Resolução de Conflitos da Escola de Direito de Stanford. Ele conduziu um estudo (Living under drones) que analisa os efeitos provocados por esses aviões. “Existem documentos que comprovam que os drones não matam apenas terroristas, mas também muitos civis, incluindo mulheres e crianças”, afirma em um vídeo veiculado no site www.livingunderdrones.org. Ao longo de nove meses, os pesquisadores entrevistaram 130 paquistaneses. “Encontramos grandes comunidades localizadas em áreas nas quais os drones sobrevoam 24 horas por dia, sete dias por semana. Essas pessoas não sabem quando e quem vai ser atacado”, afirma Cavallaro. O resultado dessa tensão permanente, diz o pesquisador, é que boa parte da população passa a apresentar problemas de saúde. “Entre os efeitos estão desordem psicológica e diversos traumas.” Vários depoimentos de paquistaneses colhidos pelo estudo reforçam o argumento. “Todos nós sofremos uma grande pressão psicológica. Por isso, frequentemente precisamos ir ao médico”, diz um dos entrevistados paquistaneses.

Essa é uma questão delicada para Barack Obama. Afinal, se de um lado ele obtém apoio interno ao poupar vidas de pilotos, os ataques matam civis inocentes. Por conta disso, o presidente americano é sempre questionado sobre possíveis excessos nas ações. Uma das justificativas que ele dá para o uso de drones é que os terroristas da al-Qaeda se escondem em áreas de difícil acesso. “Para nós, capturá-los de outra maneira exigiria uma ação militar muito mais invasiva”, disse Obama em uma recente entrevista. “Os drones são uma das ferramentas que usamos, e o fazemos a partir de critérios muito justos e rigorosos”, afirmou. Há, porém, uma grande discussão. Quem controla esse poderio militar? Tanto o Exército como a Central de Inteligência Americana (CIA) usam os drones descaradamente e, nos EUA, já há uma grande pressão para regulamentar o controle do robô aéreo.

Os drones brasileiros
Enquanto os EUA recorrem aos drones para atacar inimigos, o Brasil adota esse tipo de aeronave, que no País é chamado de vant (Veículo Aéreo Não Tripulado), em um conjunto de ações destinadas à defesa. O vant nada mais é que é um drone, mas recebe esse nome por ser uma máquina de menor porte e mais simples. “Atualmente, o maior uso do vant no mundo é na missão de reconhecimento”, afirma o coronel Geraldo Diniz Branco, gerente de projetos do Ministério da Defesa (MD). “O trabalho de reconhecimento também é o principal emprego do vant pelo MD”, diz. Segundo o ministério, o Exército brasileiro recorre a esses veículos em missões de nível tático, em auxílio às operações terrestres. O monitoramento da Amazônia, por exemplo, conta com a ajuda dos vants. A Polícia Federal, por sua vez, os utiliza em operações contra o tráfico de drogas na fronteira com a Argentina e a Colômbia. Saindo do âmbito dos projetos ligados ao Estado, os veículos não tripulados também são usados na agricultura. “Eles são muito úteis para o estudo sobre o desenvolvimento de plantações, pois permitem monitorar grandes extensões de terra”, afirma Kalinka, da USP São Carlos.

Esta é a imagem de um alvo antes de ser atacado. Da sala de comando, os controladores conseguem ver todos os detalhes

Como se vê, o avanço dos drones se dá de um modo tão rápido que eles se espalharam por uma ampla gama de atividades, da caça a terroristas do al-Qaeda ao uso pelo setor agropecuário. Com um desenvolvimento tão acelerado, é possível imaginar que o céu é o limite para as aeronaves não tripuladas. “A área de transportes não tripulados pode ser a próxima fronteira dos drones”, diz Daniel Thiago, engenheiro de sistemas embarcados do C.E.S.A.R. “Observando o ritmo de desenvolvimento dessa tecnologia, por que não pensar que, em algum dia, seja possível realizar entregas superexpressas de mercadorias por meio de drones?”, pergunta. “Mas esse tipo de uso, por enquanto, ainda está no campo da imaginação.” Por enquanto.