ATENTADO AO “PARAÍSO”

Recente alvo de ataques à bomba, ele está no centro de uma disputa entre as máfias que comandam a prostituição na Espanha. Esse é o Paradise Club, um dos maiores prostíbulos do velho continente, localizado em La Jonquera. Status esteve lá e conta o que rola dentro desse obscuro complexo do prazer com 2,7 mil metros quadrados

 

Por Daniel Setti, de La Jonquera

 

Fria sexta-feira, 11 de janeiro de 2013. Plantados em duas viaturas na rotatória de acesso ao colossal Club Paradise, autointitulado “o maior bordel da Europa”, em La Jonquera, fronteira da Espanha com a França, quatro integrantes da polícia desconfiam da abordagem da reportagem de Status. Um deles enquadra o jornalista: “Por que o senhor quer esse tipo de informação? Documentos, por favor, cavalheiro.”

Sucedem-se uma revista na mochila e a verificação dos papeles do forasteiro e, enquanto um segundo guarda confirma que a ficha do “elemento” é limpa, um terceiro e mais falante explica que “desde o ocorrido, estamos aqui todos os dias. Recomendo não ficar do lado de fora.” O guarda tem os seus motivos para desconfiar. O “ocorrido” remete à noite de domingo, 23 de dezembro de 2012, quando, às 20h30, a poucos metros do ponto onde agora a patrulha é diária e intensa, cinco homens encapuzados, armados com aparentes metralhadoras, abandonaram na frente do Paradise um Opel Astra roubado. Antes de fugir em um Porsche Cayenne, um dos bandidos avisou ao segurança do puticlub (expressão espanhola para casas de prostituição) que o veículo deixado ali explodiria. Chamados às pressas, os policiais ordenaram a saída das cerca de 300 pessoas que se encontravam no club e gastaram as cinco horas seguintes desarmando, com direito a robô antibombas, um artefato explosivo composto por um quilo de TNT e dinamite, além de dois bujões de gás. Haviam passado apenas 11 dias desde que dois passageiros de uma moto atiraram uma granada no recinto, atingindo os banheiros do armazém (sem deixar feridos); para completar, na noite de Réveillon, outro aviso “bombástico” – desta vez falso – ocasionaria nova evacuação.

Estaria La Jonquera sendo acometida por uma onda de ataques de puritanos radicais, ofendidos pela presença deste megaprostíbulo com 80 quartos (ver quadro à pág. 72)? É bastante provável que não. Antes de chegar ao Paradise, Status consultou os policiais de Girona (município a 65 km de La Jonquera), encarregados da investigação dos três episódios recentes e de outras ocorrências envolvendo a casa, como a morte de um jovem francês em abril de 2012 após confronto com os seguranças. “Ainda não conseguimos nada, é uma situação delicada, mas estamos lidando com algumas hipóteses”, diz a policial, que apenas identificou-se como Núria.

No entanto, todos os que vivenciam a noite do club, das meretrizes iniciantes ao veterano barman, passando pelo quarteto de tiras da vigília noturna, sabem que a principal suspeita recai sobre máfias ligadas a donos dos outros bordéis vizinhos. Há pelo menos três de destaque – o também imenso Lady Dallas, com 60 quartos, e mais o Madam’s e o Desire –, e corre à boca miúda que tanto o público quanto as próprias profissionais da cama têm migrado à concorrência após tantas tretas no puteiro de fama internacional. A estratégia aparente por trás dos atentados seria esvaziar o Paradise.

Nessa crônica policial, diga-se de passagem, a casa não se favorece em nada com o currículo de seu proprietário, o espanhol José Moreno. Com uma extensa ficha corrida por exploração de mulheres, em maio do ano passado ele foi condenado a três anos de prisão por envolvimento com uma rede de tráfico de pessoas… brasileiras, capturadas para atuar em outros de seus antros, o Éden e o Eclipse, de Girona. Contatado várias vezes por Status para falar a respeito da onda de violência no Paradise, Moreno, que ainda está em liberdade, mandou seus interlocutores dizerem que “não atende a ninguém”. Na semana anterior à visita da reportagem ao estabelecimento, foram barrados dois enviados do jornal El País, de Madri. Atitude parecida teve um funcionário do point rival, Lady Dallas, que não quis se identificar ou se pronunciar: “Ninguém aqui está podendo falar disso.”

Bizarro playground francês
Situada a apenas seis quilômetros da divisa com a França, na montanhosa região da Catalunha conhecida como Empordà, La Jonquera tornou-se um ponto estratégico de prazeres proibidos pelo simples fato de que, desde 2011, existe uma lei na França que pune como criminoso quem paga por sexo. Na Espanha, apenas a prostituição em vias públicas não é permitida. De nada adiantou a prefeitura tentar vetar a abertura do Paradise em outubro de 2010 – o Tribunal Superior de Justiça da Catalunha liberou. Não é nenhuma surpresa, portanto, escutar os funcionários do Paradise – incluindo as meninas – saudando com um bonsoir os frequentadores, ou as moçoilas que se aventuram pelos restaurantes próximos em busca de um programa, balbuciando à distância um “ça va?” aos comensais. “Noventa e nove por cento dos nossos hóspedes são franceses”, informa Ahmed, o recepcionista marroquino do Hotel La Jonquera, a 100 metros do Paradise.

O contingente masculino oriundo do país vizinho em busca de sexo com escolta policial em La “Jonquerrá” é bastante reforçado por outra tchurma francófona: os casais de meia-idade, alguns acompanhados de filhos, que vêm para desfrutar de outra atração regional, os bingos, igualmente alvos de uma série de restrições na França. De fato, Status comprova ali uma efervescência da jogatina comparável à do Paradise. E não só de coroas, mas também de pelo menos quatro prostitutas. “Elas vêm gastar seu dinheiro f-f-f-fácil aqui”, garante Jean, o garçom gago francês do bar anexo a um dos bingos.

Espécie de encontro entre uma sub-under-Las Vegas e o Chuí, La Jonquera possui a triste e decadente impessoalidade das zonas fronteiriças. Os peculiares atributos da economia local resultaram em bizarros conjuntos arquitetônicos de paralelepípedos monstruosos de beira de estrada, semelhantes a um arranjo de peças Lego gigantes e iluminados com péssimo gosto. Não apenas o Paradise ostenta esse formato, mas também o “super sex shop” fincado na mesma rua e o tenebroso edifício que comporta o Hotel La Jonquera (território da puta loca que conversa com as paredes), um bingo, dois restaurantes e um supermercado.

Dentro do Paraíso
Se a intenção dos ataques era micar o suposto maior puteiro do Velho Continente, o plano começou a gerar frutos. Sim, janeiro é o mês de férias da maioria das garotas e, sim, a crise espanhola também castiga – por que não? – a verba do cidadão médio europeu destinada à prostituição. Mas quando Status chega ao Paradise, por volta de 23 horas, não deixa de ser uma surpresa a ausência de fila na porta. Superado o detector de metais e pago o ingresso de 15 euros – que dá direito a um drinque –, é hora de penetrar no primeiro dos dois grandes salões principais do club, onde há um grande balcão de bar, posicionado sob uma passarela onde rolam shows sexy mornos. Como a clientela está mesmo fraca, a primeira impressão – e a segunda, quando se passa ao outro salão – é ainda mais impactante. Há cerca de seis mulheres para cada homem, todas trajam lingerie ou vestidos praticamente imperceptíveis e muitas estão acima da média nos quesitos beleza e gostosura. Em noites cheias, a fauna deve ser mais democrática, mas hoje aparenta um desfile de putas diante de machos perplexos e o par de seguranças, que circula em constantes rondas internas.
E elas vêm para cima, uma a uma ou duas a duas, revezando-se educadamente no approach – iniciado sempre em francês –, no qual impera a silenciosa ética do “eu vi primeiro”. Distribuídas em vários tipos étnicos, tamanhos, idades (a mais coroa já se aproxima dos 50) e, principalmente, procedências, esse mulherio multitudo confere ao Paradise um ar de Babilônia do sexo pago. A enxurrada de fêmeas e a clara iluminação, pouco convencional para um bordel, intimidam os clientes, que em sua maioria se refugiam no bar. A claridade também ajuda o mulherio a identificar cada novo visitante e pedir-lhe com certa insistência uma bebida (um terço dos 15 euros que custam os destilados, ou dos 12 pedidos pelas cervejas, vão para elas). Uma vez acordadas as condições, as raparigas pegam os clientes pela mão e os levam até uma espécie de anterrecepção próxima à porta de entrada. Ali os usuários desembolsam 10 euros pela chave do quarto e uma simpática maleta com gels e camisinhas, que as escolhidas carregam até o andar superior juntamente com uma toalha.

A concorrência aperta em tempos difíceis, e por isso bastam 15 minutos para perceber que os preços estão variando. Emma, uma negra parruda de lábios grossos proveniente do Benim e de espanhol precário, por exemplo, pede logo de cara 60 euros por meia hora de transa, enquanto impõe uma massagem express nas costas do repórter. O preço equivale ao valor pechinchado de outras, como a romena Lana, pele tostada e silicones de sobra, que estipula em 75 euros os seus serviços enquanto lamenta os episódios das bombas (“foi muito feio aquilo”). A média, entretanto, fica nos 70 euros, exata diária exigida às damas por moradia e alimentação em uma das 80 suítes, simples, mas higienizadas, alternadas em um longo corredor no segundo andar. Os quartos de dormir das trabalhadoras são os mesmos empregados no “abate”. Em outras palavras, o Paradise funciona como escritório e hotel delas e, em princípio, elas estão livres para ir e vir. Luciana, uma sérvia cujo ar melancólico combina de forma exótica com os atributos físicos – pele clara, cabelos castanhos, seios e glúteos volumosos e rígidos – é das que preferem morar ali. “Economizo bastante, e assim consigo ir bastante ao meu país”, diz a jovem que, por volta da meia-noite, admite já ter transado com pelo menos um homem nesta sexta-feira, cobrando 60 euros.

Após esperar o “ataque” de uma voluptuosa e provocadora colombiana cuja artificial comissão de frente parece prestes a saltar do sutiã a qualquer momento, a feinha simpática Valentina apresenta suas propostas à reportagem. De riso fácil, ela conta que provém da Moldávia, um dos países mais pobres do continente europeu, e prefere a vida em Figueres, município a 21 quilômetros de La Jonquera, ao lado da mãe e do filho. A morena Valentina é das poucas que, nos últimos tempos, fez o caminho inverso, trocando o Lady Dallas, onde operou por cinco anos e no qual se paga uma média de 50 euros por transa, pelo atual ponto de trabalho. Não parece se incomodar especialmente com o que sua companheira romena Sonia, sentada ao lado no balcão, aponta como problema: a concorrência. “São como cobras”, dispara, meio rindo, meio séria, essa branquela de olhos claros e traços delicados.

“Sou brasileira”
Para os exemplares femininos do material humano tupiniquim atuantes na boemia jonquerense, a frase é um cartão de visita essencial, que deve ser proferido antes mesmo do nome de guerra, ou da pergunta inevitável: “É caminhoneiro?”. Pelo menos funciona assim nos diálogos travados entre a reportagem e as duas brasileiras do Paradise. No debate mais rentável, a bela mulata Gabriela, de Belo Horizonte, garante que só venderá o corpo por três meses, considerando-o uma solução financeira temporária, já que é portadora de diploma universitário, fala quatro idiomas e tem outra profissão, a de cabeleireira. Orgulhosa tanto do aplique de cabelos negros, lisos e compridos – “a única coisa que não é natural em mim” –, quanto dos fartos seios e da bunda redonda, ela quer voltar à cidade onde reside, Milão.

Do Brasil, vem também um animado quarteto de caminhoneiros, Álvaro, Adriano, Adílson e Max. Velhos conhecidos de La Jonquera como parada nas longas rotas europeias que percorrem a partir do norte da Espanha e de Portugal, onde vivem, eles trombam com a reportagem no bar do bingo. A madrugada avançou e Status faz pit stop no balcão do francês gago após concluir que o movimento no Paradise já se reduz a vídeos de kickboxing no telão e Roxette no autofalante. O catarinense Álvaro e o paulistano Adriano acabam de ter a entrada vetada no Paradise sob alegação de estarem muito bêbados.

Empolgados como dois adolescentes, lamentam não poder “zoar o plantão” novamente no puticlub de estimação e, em princípio, não aparentam estar tão alcoolizados. Uma impressão que cairá por terra dentro de minutos, quando, subitamente ofendido pelo cacarejar embriagado de um baixinho de rabo de cavalo com jaqueta do Atlético de Madri, Adriano acerta-lhe uma cabeçada. O sujeito cambaleia, mas, anestesiado pelo goró, só encontrará o galo da testa durante a ressaca de sábado. Jean, o gago, tenta apartar a briga, assustado. Vidrados no painel eletrônico do bingo, idosos franceses e putas multinacionais nem percebem. É hora de bater em retirada.

 

POR DENTRO DO PARADISE

Como é o maior prostíbulo da Espanha

O club foi inaugurado em 2010, depois de investimentos da ordem de 3 milhões de euros. Ele fica na cidade de La Jonquera, que está a apenas seis quilômetros da França – por isso cerca de 95% dos clientes são franceses – e ocupa uma área de 2,7 mil metros quadrados, com boate, bar e 80 quartos. Nas noites mais cheias, ele chega a receber 500 pessoas e 200 garotas de programa.