EVEREST DOS MARES

Mais desafiadora competição náutica ao redor do mundo, a Vendée Globe é uma regata em que os velejadores navegam sozinhos, em um barco a vela, sem assistência ou parada

 

Por Piti Vieira

 

UM HOMEM, UM BARCO A VELA, sem paradas, sem ajuda externa (qualquer avaria na embarcação precisa ser consertada pelo velejador, caso contrário, ele será desclassificado da corrida). Assim é a Vendée Globe, competição náutica realizada a cada quatro anos, um dos desafios mais difíceis, desoladores e perigosos no mundo esportivo. Uma rotina de solidão a bordo de um veleiro de 60 pés (pouco mais de 18 metros) com apenas seus pensamentos, um tablet, alimentos liofilizados e 38.700 quilômetros de mar inconstante como companhia. Por três meses, os cerca de 20 participantes usam um balde como banheiro e dormem pouco mais de quatro horas e meia – divididas em períodos de 90 minutos – por dia. A partir do momento da largada, a vida desses velejadores é guiada pelos ventos e pelas forças da natureza, uma situação na qual o conhecimento técnico e dos limites físicos do corpo, associado a um forte controle emocional e à sorte, é a única receita que pode levar esses esportistas a completar a jornada.

Diferentemente das outras regatas, a Vendée Globe não é dividida em pernas. A rota da prova sai do oeste em direção ao leste, passando pelos três grandes cabos do planeta: Boa Esperança (onde os oceanos Índico e Atlântico se encontram), Leeuwin (extremo sudoeste do continente australiano) e Horn (extremo sul da América do Sul), tendo por ponto de partida e de chegada a cidade de Les Sables d’Olonne, situada na província de Vendée, que dá nome à competição, no noroeste da França. Só para quem quer ou quem precisa.

O vencedor da prova, François Gabart

O desafio é tão grande que a vitória não é chegar em primeiro lugar ou bater recordes Contornar o planeta é o objetivo. Vencer é a cereja do bolo. Mas o mais importante é simplesmente completar a prova. Nas sete edições da corrida, que foi realizada pela primeira vez em 1989, apenas 58% dos concorrentes terminaram. Uma média pouco encorajadora. “Nessa corrida não é apenas a velocidade que conta”, diz o velejador francês François Gabart, 29 anos, vencedor da competição deste ano, terminada no fim de janeiro, com o tempo recorde de 78 dias, 2 horas e16 minutos. “Colocar o barco na rota certa, administrar situações corretamente e ser capaz de fazer, sozinho, reparos no barco, no que a minha formação ajuda, é o que realmente faz a diferença”, conta Gabart, formado em engenharia mecânica.

Perigo à vista
Das 139 pessoas que participaram da Vendée, três morreram ao fazê-lo (todos de afogamento): o americano Mike Plant e o britânico Nigel Burgess, em 1992, e o canadense Gerry Roufs, em 1997. A morte de Roufs fez os organizadores da corrida adotarem uma medida de segurança extra. Foram criados os “portões de gelo” nos mares do sul, cujo objetivo é obrigar a frota a navegar entre dois pontos especificados, longe da Antártida, para diminuir o risco de colisão com icebergs. Para dar uma ideia do perigo, segundo o monitoramento da regata deste ano, existiam 15 blocos de gelo que estavam se deslocando pela região.

O segundo colocado da prova, Armel Le Cléac’h

E não são somente blocos gigantes de gelo que vagam à deriva pelos oceanos. O velejador francês Jean-Pierre Dick, 47 anos, que tinha praticamente garantido o terceiro lugar no pódio desta edição da Vendée Globe, teve a quilha do seu veleiro, o Virbac Paprec 3, quebrada por um imenso tronco à deriva quando restavam três mil quilômetros para a chegada – a quilha pesa quatro toneladas (quase metade do peso do barco e é peça fundamental para a estabilidade). “Enchi os tanques de lastro de água para equilibrar melhor o barco e coloquei os dois lemes na água. Deu certo, apesar das dores que fiquei no corpo. Mas tive que desistir. Os ventos ficariam mais fortes perto da costa francesa e não queria colocar minha vida em risco”, disse ele, depois de velejar quase uma semana nessas condições. Com rajadas de vento de 90 km/h previstas na rota para Les Sables d’Olonne havia o risco de capotamento do veleiro.

Atrás de Dick vinha o inglês Alex Thomson, 38 anos, que se recusava a ultrapassá-lo antes de ter certeza de que o companheiro, adversário e, principalmente, amigo estivesse em condições seguras de alcançar a costa europeia. Caso alguma coisa de ruim acontecesse com o barco do francês, ele jogaria fora a possibilidade de ser o primeiro britânico a terminar a Vendée. “Uma frente fria passou sobre nós com rajadas de vento de 30 nós (55 km/h) e grandes ondas. Queria estar perto de Jean-Pierre, caso ele necessitasse de ajuda”, disse o capitão do barco, Hugo Boss.

Um mês antes, no fim de dezembro, o suíço Bernard Stamm disputava com Thomson quando fortes ventos e as ondas gigantescas do Pacífico Sul o obrigaram a se proteger em uma pequena e gelada ilha ao sul da Nova Zelândia para reparar os hidrogeradores (responsáveis por toda a energia gerada na embarcação). Cansado, depois de quatro dias de batalha contra o defeito do barco, o vento e o mar, dormiu. Sem que ele visse, um navio de pesquisas russo escolheu o mesmo porto para se defender do mau tempo. Acordou com barulho no convés e sobre seu barco estava um marinheiro do navio lutando para evitar que o veleiro se chocasse contra o barco recém-chegado. A Comissão de Protestos da regata entendeu que a atitude foi auxílio externo e desclassificou Stamm. Nesse momento, o suíço ocupava a sétima posição, e, infelizmente, o encontro noturno com um objeto flutuante não identificado retirou-o definitivamente da regata. Antes de receber auxílio, já no Atlântico, manteve-se por cinco dias e cinco noites no leme, sem dormir, pois sem os hidrogeradores não havia mais como recarregar as baterias do barco para mover o piloto automático, a quilha, os aparelhos eletrônicos. “Cruzei o Horn na mão antes de receber óleo diesel para os geradores e informar meu terceiro abandono em três participações na Vendée”, disse ele.

O velejador Jean-Pierre Dick enfrenta dificuldades com seu barco

Outro competidor que também teve problemas foi o franco-italiano Alessandro Di Benedetto, 41 anos, último colocado na competição. Depois de subir ao mastro para consertar uma avaria nas velas, ele enfrentou outro percalço quando a proa do veleiro Team Plastique afundou em uma série de ondas e o velejador foi atirado ao convés e um cabo apanhou-o em cheio. O resultado foi uma costela partida e um corte no rosto, perto da região do nariz. Dos 20 velejadores que largaram no dia 10 de novembro de 2012, apenas 11 retornaram ao ponto de partida.

No entanto, apesar das duras condições do mar, dos icebergs e do frio, a solidão foi o principal desafio dos competidores. “Foi difícil ficar sozinho tanto tempo, mas é impossível ficar entediado porque há sempre algo a fazer para o barco velejar mais rápido e, por causa do tempo, não há dois dias iguais”, diz Gabart. “Foi a coisa mais incrível e mais assustadora que já fiz. No meio da competição eu pensei: ‘Você está louco, por que está fazendo isso?’ Mas aprendemos a sentir o barco, a ouvi-lo e a considerá-lo uma máquina fiel que nos protege.”

A largada da competição

 

A VENDÉE GLOBE

• Regata de volta ao mundo non stop que acontece a cada 4 anos
• A largada e a chegada são na França
• Percorre 38.700 quilômetros
• Das 139 pessoas que já competiram, apenas 81 terminaram
• A edição de 2012-2013 teve 20 participantes de cinco países (apenas 11 cruzaram
a linha de chegada)
• O recorde da corrida foi quebrado nesta edição: 78 dias (seis dias a menos do que o anterior)
• O vencedor ganha US$ 215 mil
• O valor de produção de cada regata é de US$ 12 milhões (20% bancados pela cidade-sede, 40% pelo governo da França e 40% pelo patrocinador)
• Cada veleiro custa em torno de US$ 4,7 milhões