GOLFE DE RUA

O esporte da elite muda de cara para invadir terrenos baldios, estações de trem, estacionamentos e outros espaços urbanos

 

Por Henrique Fruet

 

O grupo alemão natural Born Golfers foi criado, em 1992, com 20 praticantes. Hoje, conta com 250 mil pessoas cadastradas

O SUJEITO OLHA BEM O ALVO, segura o taco com firmeza e ensaia uma tacada. Olha novamente para onde quer mandar a bola, se posiciona e bate com força. A semelhança com o golfe convencional para por aí. O projétil lançado pelo homem, que usa camisa regata, jeans rasgado e um tênis surrado, voa por cima de algumas caçambas de entulho, bate num cano de esgoto abandonado e rola até repousar entre algumas latinhas de cerveja vazias. É dali que ele dará a próxima tacada. Silêncio como num campo de golfe? Nem pensar. A poucos metros do lugar, uma banda de punk rock não economiza nos decibéis, as pessoas andam num frenético vaivém e os carros transitam sem parar. O único verde que há por perto vem de algumas poucas árvores e do anúncio de uma cerveja em um outdoor desbotado. Aliás, ninguém sabe onde fica o campo de golfe mais próximo. E nem é preciso, pois é no terreno baldio da periferia de Hamburgo, na Alemanha, onde ocorre a partida do esporte que vem ganhando espaço nas grandes cidades: o golfe urbano.

Também conhecido como cross golf, a prática tem como seus maiores expoentes o grupo alemão Natural Born Golfers (NBG), nascido em 1992 do tédio do designer Torsten Schilling, 49 anos. Na época, ele trabalhava na construção de sets de gravação para uma emissora alemã e passava a maior parte do tempo viajando pela Europa. Uma noite, cansado de ficar pulando de hotel em hotel, pegou um taco de golfe que estava esquecido entre os objetos da produção e organizou um pequeno torneio com seus colegas em pleno corredor. Foi paixão à primeira tacada. Depois de pagarem os danos que causaram a algumas paredes do hotel, fundaram o NBG, primeiro grupo organizado do mundo de golfe urbano, cuja sede fica em Hamburgo, na Alemanha. “Eu nunca tinha pensado antes em praticar esse esporte. Quando via o golfe normal na tevê, pensava que aquela porra era muito chata, até começar a jogar o urban golf”, conta Schilling à Status. Ele largou o emprego de produtor de tevê para se dedicar exclusivamente ao Natural Born Golfers. Ele não revela quanto ganha com o grupo, mas garante que a atividade “é lucrativa”.

O fundador do natural Born Golfers Torsten Schilling (à esq.) promove eventos regados a cerveja e shows de rock

O grupo começou pequeno, com menos de 20 jogadores por evento, mas a coisa começou a crescer. E, de tanto ter problemas com a polícia e os seguranças privados devido ao estilo arruaceiro, a entidade foi obrigada a se legalizar e a preparar eventos mais bem organizados. Tanto é que eles já não se consideram mais um movimento 100% underground, pois agora aceitam patrocínios de empresas como Microsoft, Deutsche Telecom, Volkswagen e marcas de cerveja e bebidas diversas. Hoje o NBG conta com mais de 250 mil fãs cadastrados. Boa parte dos jogadores ativos é formada por jovens músicos, atores e publicitários. “Mas não se resume a isso. Nosso grupo é muito eclético. Há pessoas de várias tribos e idades”, diz Schilling. Nem todos esses admiradores do urban golf comparecem aos eventos e há quem vá apenas para ouvir as bandas de rock alternativo ou para tomar uma cerveja. Mas não se espante se vir um camarada todo tatuado, com cabelo moicano e piercing no nariz passar ao seu lado todo feliz comentando a grande tacada de golfe.

Qualquer lugar serve para a prática, desde que não haja risco de machucar as pessoas próximas

Mesmo com música, bebidas e muita festa, a grande atração e razão de ser dos eventos do Natural Born Golfers é mesmo o urban golf. O ponto alto do NBG são as edições do Rock’n’Hole, festivais de música alternativa (e muito rock pesado) que rolam junto com as partidas de golfe urbano. Nessa ocasião, Torsten gosta de exibir com orgulho o carrinho elétrico de golfe que criou para rodar as cidades com grupos de música alternativa e DJs para promover o seu evento, no que chama de “o menor palco do mundo”. Nos últimos 20 anos, o grupo realizou eventos em países como Alemanha, França, EUA, Malásia, Inglaterra, Áustria, Tailândia, Suécia, Vietnã, China e Dinamarca, sempre em espaços alternativos como estacionamentos, construções, estações de trem, pontos, terrenos baldios e qualquer floresta urbana que possa virar um campo de golfe improvisado. Torsten, inclusive, chegou a jogar de uma varanda no 55º andar de um prédio em Manhattan no meio da madrugada.

Em outra ocasião, o ponto de onde o grupo dava a tacada inicial era um barco ancorado no porto de Hamburgo. O alvo era uma sala que montaram no cais com móveis abandonados recolhidos de um lixão. Vencia quem acertasse o aparelho de televisão, que permaneceu intacto durante horas, tacadas e litros de cerveja – no urban golf, em vez de mirar num buraco, os alvos escolhidos são latões de lixo, postes, caçambas e outros pontos. Torsten garante que até hoje ninguém se machucou em eventos do grupo – vale observar que definitivamente bebedeira e ressaca não contam como injúria nesse caso. Uma vez, uma câmera de tevê foi danificada por uma bola, mas o cinegrafista saiu ileso. A primeira regra do grupo é justamente garantir a segurança dos participantes, convidados e qualquer um que passe por perto. Para isso, os membros isolam a área onde as tacadas são dadas para que ninguém seja atingido. A segunda, nem sempre cumprida, é tentar não quebrar nada. Já a regra final nunca é quebrada: se divertir muito.

 

COMO JOGAR

• Escolha um alvo por vez, como hidrantes, telefones públicos, caminhões, caixas de correio, contêineres, etc. Dê quantas tacadas forem necessárias até acertá-lo e anote esse número. Passe para o próximo alvo.

• Se você perder a bola, bata outra do ponto de onde deu a última tacada e acrescente três pontos de penalidade ao seu escore.

• O jogador pode mover a bola a uma distância equivalente ao comprimento de até três tacos caso sua bola esteja perto de um carro, dentro de um
jardim ou próximo de qualquer outro local que possa ser danificado.

• O ganhador é aquele que somar o menor número de tacadas.

 

AS MÁXIMAS DO GOLFE URBANO

• A segurança (sua e dos outros) sempre vem em primeiro lugar
• Respeite a propriedade alheia
• Escolha áreas vazias para treinar e jogar
• Se a polícia mandar você sair de um determinado local, obedeça
• Vandalismo não faz parte do golfe urbano
• Quanto pior você jogar, mais diversão terá
• Golfe urbano é diversão, e não competição
• Todas as decisões são tomadas em conjunto pelos golfistas urbanos

 

EQUIPAMENTOS

O que você precisa para praticar

Tacos Qualquer taco de golfe usado serve para jogar golfe urbano. É comum jogadores compartilharem o equipamento.

Bolas Há bolas de golfe especiais para o golfe urbano, que são mais leves e não machucam ninguém. Outra opção é usar bolas de tênis, que são mais macias. Bolas de golfe convencionais podem ser usadas, mas há o perigo de quebrar algo ou machucar alguém.

Tapete Pode ser usado para apoiar a bola antes de cada tacada, a fim de preservar o taco do contato com o asfalto ou chão duro.

Lanternas Viabilizam o jogo noturno