A MAIOR LUTA DE MAGUILA

Diagnosticado com doença de Alzheimer e sofrendo de demência pugilística, o boxeador mais folclórico do Brasil tenta se reerguer

 

Por Tom Cardoso

 

“EU QUERIA MANDAR UM ABRAÇO para a minha mãe, para a minha mulher, para o meu mecânico, Amarildo, para o Zé lá do açougue, para o Jaime que cuida das minhas cabritas, para o Oswaldo da padaria, para o Serjão e o Pedro lá da Vila Ré, para o Kiko, para o Luciano, para o Adriano, o Márcio, o Kleiton, a Gorete, o Mariano, o Ronaldo…” A lista de agradecimentos no fim das lutas era interminável e denunciava de imediato as duas grandes qualidades de Adilson “Maguila” Rodrigues: o talento para o boxe (77 vitórias – 61 por nocautes – em 85 lutas) e a memória prodigiosa. Ele já não as tem mais. Diagnosticado com doença de Alzheimer há três anos e sofrendo de demência pugilística, trauma no cérebro muito comum entre ex-boxeadores, Maguila luta para não ir à lona. Se no ringue ele ficou famoso pelo “queixo de vidro”, por nem sempre conseguir assimilar os diretos dos adversários, o mesmo não se pode dizer de sua luta para sobreviver. Ao deixar o esporte, em 2000, Maguila aceitou os mais variados – e esdrúxulos – convites. Nem Jô Soares, metido a pintor, escritor e tocador de bongô, conseguiu ser tão versátil. Num espaço de dez anos, o ex-boxeador, que já havia feito bicos como comentarista econômico no extinto programa Aqui e agora do SBT e assumido a secretaria de esportes da cidade de Itaquaquecetuba (SP), aventurou-se como candidato a vereador de São Paulo, ator, cantor de pagode, treinador e comediante.

As três semanas de internação no setor psiquiátrico do Hospital das Clínicas em São Paulo (ele recebeu alta na primeira semana de fevereiro) foram duras para Maguila e os familiares. O quadro de demência, agravado por um longo período de insônia, o deixou agressivo, o que para um ex-boxeador com mais de 100 quilos, e conhecido pela potente direita, se tornou um perigo para os médicos e para os outros pacientes. “O boxe sempre foi o meio de defesa dele. Só conseguimos acalmá-lo aumentando a dose de medicamentos”, diz Irani Pinheiro, sua mulher. Até sucumbir, Maguila, 54 anos, militava numa causa solitária: fazer o boxe brasileiro recuperar o prestígio perdido após a ascensão do vale tudo. O ex-pugilista era um dos mais ferrenhos críticos da modalidade difundida pela família Gracie. “Para mim, o vale tudo não passa de uma briga de rua. O boxe, a nobre arte, vai voltar, precisa apenas revelar bons pugilistas”, declarou em entrevista. Maguila fazia sua parte, treinando jovens carentes no Projeto Amanhã Melhor, ONG criada por sua mulher, Irani Pinheiro. Não tinha paciência para lidar com os descasos do poder público e com a notória predileção da garotada pelo esporte de Anderson Silva. O sujeito boa-praça, brincalhão, das grandes tiradas, do humor autodepreciativo, se transformou aos poucos num homem amargurado, agressivo, sintomas que vieram à tona com o agravamento da doença degenerativa e se misturaram à frustração pela decadência do boxe.

Por ironia do destino, o esporte que lhe deu tudo também lhe tirou. Irani, sua mulher, não tem dúvidas em apontar a prática do boxe como a principal responsável pelo atual quadro de demência de Maguila. “Ele recebeu pancadas de 100, 200 quilos na cabeça. Difícil imaginar que isso não tenha nenhuma relação com a doença dele”, diz Irani. Há, porém, quem enxergue o problema de Maguila de outra maneira. “Isso é uma grande bobagem. O papa João Paulo II tinha Parkinson e que eu saiba nunca lutou boxe. Os problemas de demência do Maguila são hereditários. É um mal congênito. Ele mesmo disse que sua mãe também teve doença de Alzheimer (o ex-boxeador, espirituoso, disse que se tratava de “mal de azar”)”, diz Newton Campos, 88 anos, decano do boxe brasileiro, comentarista, atual presidente da Federação Paulista de Boxe (PPG) e vicepresidente do Conselho Mundial de Boxe (CMB). “E quem afirma que Maguila desenvolveu a doença por causa do boxe desconhece completamente suas características como pugilista. Ele nunca foi de tomar seguidas porradas na cabeça, pois geralmente era derrubado no primeiro golpe”, diz Campos. A tese de Campos não é corroborada por especialistas. O neurocirurgião Fernando Gomes Pinto acredita que uma pancada na cabeça de um peso-pesado, que pode ultrapassar facilmente os 100 quilos, é o suficiente para causar danos irreversíveis. “Acho difícil alguém levar um direto de George Foreman e não sofrer lá na frente”, diz.

Foreman, uma das lendas do boxe mundial, nocauteou Maguila em 1990 – um ano antes, o brasileiro também sucumbiu diante de outro mito do esporte, Evander Holyfield. Na época, parte da imprensa acusou um dos empresários de Maguila, o locutor Luciano do Valle, de exagerar nos elogios ao pugilista e colocá-lo num patamar técnico que ele jamais alcançou. Newton Campos, que já fazia parte do Conselho Mundial de Boxe e conseguiu colocar o brasileiro num lugar de destaque no ranking, o que o levou a enfrentar estrelas como Foreman e Holyfield, diz que Maguila ascendeu pelos seus próprios méritos e não pela astúcia de seus empresários. “Ele era um grande boxeador, o melhor peso-pesado da América do Sul na época. Tinhas suas limitações, principalmente para fechar a guarda, e o famoso ‘queixo de vidro’. Mas tinha pegada, tanto que derrotou (por pontos, em 1987) James ‘Quebra Ossos’ Smith, que havia acabado de endurecer uma luta com ninguém menos do que Mike Tyson”, lembra Campos. Éder Jofre, considerado o mais completo pugilista brasileiro da história, faz coro: “Nunca vi um pugilista com tanta empatia com o público como o Maguila. Mas carisma não enche a barriga de ninguém. Ele chegou lá, sobretudo, pelo seu talento.”

Ao contrário do que se imagina, Maguila, o sergipano dono de uma biografia que se confunde com a de muitos migrantes nordestinos, não tinha nada de ingênuo ao negociar os contratos de suas lutas. Ele conseguiu, por exemplo, aumentar sua bolsa para enfrentar Quebra-Ossos de
US$ 200 mil para US$ 400 mil. “Conseguiu dobrar a bolsa só na conversa. Nunca vi ninguém tão bom de lábia”, diz Newton Campos. Quando Maguila aposentou-se, em 2000, ele se valeu do carisma para conseguir um emprego como comediante no humorístico de Tom Cavalcante (Show do Tom), na TV Record. Foi lá que o apresentador Raul Gil, velho descobridor de talentos da música brasileira, cismou que o ex-boxeador levava jeito para cantar sambas, apesar do timbre anasalado e a notória falta de ritmo. Maguila acabou nas mãos de Rauzinho, filho do apresentador, que tentou vendê-lo como uma espécie de versão sergipana de Bezerra da Silva, ídolo do boxeador. Tinha tudo para dar errado. O disco “Vida de campeão” foi um fracasso de vendas e resultou no rompimento definitivo de Maguila com o seu novo empresário.

“Parecia dopado”
Depois da frustrada experiência como dublê de cantor, Maguila decidiu voltar ao boxe, mas como treinador do Projeto Amanhã Melhor, ONG que atende crianças de baixa renda nas dependências da Vila Olímpica Mário Covas, localizada na zona oeste de São Paulo. O momento de grande satisfação profissional – ensinar boxe para a garotada – coincidiu, infelizmente, com os primeiros sintomas de demência. Em 2010, quando dirigentes do Partido Trabalhista Nacional (PTN) o convenceram a sair candidato a vereador por São Paulo, numa frente que teria também nomes como a Mulher Pera, o clone de Enéas Carneiro, Luciano Enéas, e a atriz pornô Cameron Brasil, Maguila foi aconselhado por amigos e parentes a não aceitar o convite, mas de novo pagou para ver. Na verdade recebeu: um cheque de R$ 50 mil para sair candidato.

O PTN trabalhou duro para elegêlo. Ele seria o contraponto à candidatura de Tiririca. O slogan estava pronto: “Política é coisa séria, chega de palhaçada.” “A gente montou uma maquete enorme de Brasília. A ideia era colocá-la numa rua movimentada de São Paulo e filmar o Maguila, com a música do Rocky, o lutador ao fundo, destruindo a maquete na porrada. Mas ele estava estranho, parecia dopado ou algo do tipo”, diz Kennedy Rodrigues, presidente municipal do PTN. Já debilitado e fragilizado pelos medicamentos, Maguila só gravou os programas eleitorais no estúdio. Não fez muito corpo a corpo com os eleitores. Nem poderia. Na época, justificou: “O primeiro que me chamar de ladrão, eu encho de porrada.” Fazia sentido. Hoje, Maguila luta para superar o último adversário de sua vida: uma doença degenerativa que dá poucas chances aos oponentes. Irani o blindou do assédio da imprensa, segundo ela um pedido do próprio boxeador, que descansa na casa de um amigo no interior de São Paulo. Ela acha que é muito cedo para decretar o “nocaute” de Maguila. Com os medicamentos, ele ficou um pouco sonolento, mas, por outro lado, os períodos de confusão mental e esquecimento diminuíram. Que ele, com a raça de sempre, espante os demônios e não jogue a toalha tão cedo.

 

AS VÁRIAS FACES DE MAGUILA

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LUTA ANIMAL

O médico americano Harrison Martland (acima) foi o primeiro, em 1928, a estudar sintomas de perda de memória, mudanças de personalidade e alterações motoras semelhantes à doença de Parkinson em ex-boxeadores. Batizada inicialmente de “demência pugilística”, ganhou outro termo a partir da década de 60: encefalopatia traumática crônica (ETC). Estudos apontam que 17% dos boxeadores aposentados apresentam sintomas de ETC. O caso mais emblemático é o de Muhammad Ali (abaixo), considerado um dos maiores pugilistas da história e que desde o início da década de 80 convive com a doença de Parkinson.