É DIA DE APANHAR

Para os índios barés, levar uma surra de vara é obrigação. o fotógrafo pisco del gaiso só não imaginava que entraria na roda. entenda o ritual que corta a carne e, para a tribo, purifica a alma

 

Por Marianne Piemonte
Fotos Pisco Del Gaiso

 

TCHAPÁÁÁÁ! Ele recebeu o golpe e segurou o grito de dor naquela roda formada pelos índios barés. Não podia mostrar fraqueza e tampouco se negar a levar as chibatadas. Suportá-las é a prova de virilidade entre os homens dessa tribo que habita a Floresta Amazônica, no Alto Rio Negro, quase na fronteira com a Venezuela. Recusá-las é um atestado de covardia. O fotógrafo Pisco Del Gaiso, 46 anos, tinha, portanto, de se conformar. Naquele calor que passava dos 40oC, ele tirou a camisa, arqueou os ombros, levou as mãos até as pernas e esperou com aflição. Tchapáááá! O adabi, uma vara com cerca de dois metros de comprimento, trançada com fiapos de uma palmeira chamada tucum e pintada com urucum nas pontas, percorreu as suas costas sem piedade. “O estalo e o barulho do chicote são assustadores”, diz Pisco. A dor, idem. Ao receber o golpe, permaneceu curvado por algum tempo para se restabelecer. “Aquilo queima, dói muito, e eles tiram sarro da expressão de dor uns dos outros”, conta sobre o ponto alto do kariamã, o ritual de iniciação dos barés. Havia 20 dias que Pisco estava ali, acompanhando a rotina e as tradições dos índios, mas, nem de longe, imaginava que iria, literalmente, entrar na roda e levar uma surra de gente grande. “Foi uma surpresa e tanto. Não tinha para onde fugir ou dar qualquer desculpa. Até agora ouço o estalar daquele chicote.” A participação no ritual, porém, era mais do que necessária para entender os costumes da tribo.

O kariamã começa bem antes da derradeira surra de adabi. Os homens passam sete dias embrenhados na floresta caçando, pescando e adornando os objetos como o próprio adabi. Só depois disso são trazidos à tribo, mas ninguém os vê entrar. A comunidade permanece dentro das ocas e alguns tecidos chegam a ser colocados nas portas para impedir os olhares curiosos. Eles só saem de lá quando o zunido de um instrumento que lembra uma flauta aborígene ecoa pela floresta de modo a convocar todos para o ritual. Um grande círculo é formado. No centro, cerca de 20 varas enfileiradas, espetadas no chão de terra batida, aguardam seus donos.

Os índios formam o círculo e já escolhem quem levará as chibatadas

Gritos de dor
Os iniciantes da tribo apenas observam e seguem os mais experientes. Quando todos estão a postos, o pajé diz algumas palavras em nheengatu, a língua criada pelos jesuítas e usada pelos barés, e oferece pimenta para os homens que participam do kariamã. Eles comem e cospem no chão. Em seguida, o cacique empunha uma das varas e caminha em direção a um dos índios da tribo, já posicionado no centro do círculo com as mãos para o alto, como se estivesse algemado. Os fios de tucum cortam a carne de suas costas. Como reação ao golpe, ele se curva brevemente e parece engolir o grito. O que se ouve é um gemido seco. Sua pele ficará eternamente tatuada pela tintura do urucum, mas a marca funcionará como uma espécie de atestado de bravura diante da surra de adabi. Nos 30 minutos seguintes, o que se vê é uma incessante troca de golpes. De acordo com a tradição, quem bate deve apanhar. Na prática, é um toma lá dá cá de apenas um golpe: forte e certeiro. Todos que estão na roda são levados ao centro e não há distinção – homens, mulheres e crianças levam chibatadas sem dó. Gritos, gemidos e choros de dor e de medo atravessam a noite.

Durante sete dias, eles ficam na mata caçando, pescando e se preparando para o Kariamã

Os índios confeccionam a vara usada no ritual

Pisco não era exatamente virgem em programas de índio. Ele já havia retratado a vida de algumas comunidades indígenas como a tribo guajá, no Maranhão, em 1992, e outras, menores, próximas de Porto Velho, em Rondônia, em 2011, mas nunca tinha sentido a força da natureza selvagem na pele. Convidado pelo Sesc São Paulo para fotografar o projeto Baré Povo do Rio, Pisco e mais 12 pessoas – entre eles arqueólogos, cineastas e sonoplastas – formaram a equipe que registrou a surra de adabi. “A proposta do projeto é a revitalização cultural desse povo que perdeu a língua e quase todas as tradições por causa da invasão branca e, mais recentemente, a ocupação dos evangélicos”, explica Marina Herrero, coordenadora do programa Diversidade Cultural do Sesc. Um livro sobre essa incursão deve ficar pronto em outubro e um filme em maio de 2014, quando será montada uma grande exposição nos Sescs de São Paulo.

Flerte e chibatadas
O etnólogo e professor da Faculdade de Educação da UFMG, Paulo Maia, que também participa do projeto do Sesc e por quatro anos frequentou a comunidade, não fugiu de sua chibatada. Mas o interesse científico o impediu de sentir qualquer reação negativa. Na explicação antropológica, rituais amazônicos como este forjam pessoas fortes e saudáveis, caçadores, guerreiros, pais de família que vivem na floresta. No caso dos barés do Alto Rio Negro, a surra de adabi serve também para limpar o corpo de impurezas acumuladas no dia a dia. Eles costumam dizer que o corpo acumula uma substância chamada “saruãsa”, que pode causar doenças, preguiça generalizada, incapacidade de trabalhar, caçar e pescar. Assim, afirmam que as surras de adabi retiram o “saruãsa” do corpo das pessoas, tornando-as saudáveis e ativas.

O fotógrafo Pisco Del Gaiso antes e depois de levar a chibatada

No dia seguinte ao ritual, não há brigas ou questionamentos. O que se segue é uma série de piadinhas leves, normalmente sobre a feição de dor deste ou daquele. “Fica todo mundo numa boa, como se tivessem exorcizado tudo que havia de ruim”, conta Pisco. É verdade que uns apanham – e também batem – mais do que outros. “Os mais corajosos têm, sim, um papel de destaque na comunidade, sobretudo durante o ritual”, diz o etnólogo Maia. Entre os mais jovens, há até um clima de sedução na hora de escolher alguém para bater. Acerto de contas entre homens e entre casais também fica restrito ao tilintar do adabi, numa espécie de “terapia da porrada”. Maia faz questão de ressaltar que não há crueldade no ritual. Ele conta que as crianças participam de forma figurativa e, logo que recebem um leve golpe, são amparadas pelos pais. “Nunca vi nenhuma ser esculachada pelos familiares, elas são sempre acolhidas com muito amor”, explica. Pisco ficou, de fato, consternado ao ver os pequenos tomarem chibatadas, mesmo que figurativas. No entanto, a lição dos barés, em que ninguém foge ou é absolvido da surra que purifica, nunca mais sairá de sua mente. E de suas costas.

“Aquilo queima,dói muito, e eles tiram sarro da expressão de dor uns dos outros” Pisco Del Gaiso