FÉRIAS NA PRISÃO

Quem comete um crime grave na Noruega, incluindo aí assassinato, estupro e assalto a banco, tem grandes chances de ir parar em uma prisão com direito a quarto privativo, televisão, computador e alguns refrigerantes na geladeira

 

Um dos presos aproveita o dia ensolarado para um banho de sol, na varanda do chalé onde mora

E mais: durante grande parte do dia, o prisioneiro pode ainda estudar, pescar ou ligar para os filhos e a namorada. Isso é apenas parte das regalias da prisão de Bastoy, que fica na ilha de mesmo nome, ao sul de Oslo, capital da Noruega. Criado em 1982, o espaço é voltado para os detentos condenados a uma longa sentença, mas que estejam cumprindo os últimos cinco anos – além, é claro, de terem demonstrado um “alto potencial” de recuperação na penitenciária por onde passaram. “Sei que muita gente costuma se referir a Bastoy como uma colônia de férias. Mas nenhuma lei diz que a prisão precisa impor sofrimento. Nosso papel aqui é evitar que novos crimes sejam praticados”, diz Arne Nielsen, diretor da prisão.

Colônia de férias ou não, o fato é que as estatísticas confirmam a tese do diretor. Enquanto em toda a Europa o índice de reincidência criminal chega a 70%, na Noruega essa taxa é de apenas 30%. Considerando apenas a prisão de Bastoy, o número cai ainda mais, para 16%. Em 30 anos, houve apenas uma tentativa de fuga e sem sucesso: para sair dali, é preciso nadar, no mar gelado, até a margem mais próxima (4 km) ou, então, roubar um dos botes. Além disso, não há registros de incidentes entre os detentos – o que é no mínimo curioso, considerando que todos eles precisam preparar seu próprio almoço e, portanto, têm livre acesso a facas e outros objetos cortantes. Para completar, não há câmeras de vigilância, cercas de arame farpado e tampouco guardas armados. Todos os 115 detentos são obrigados a trabalhar, mas são remunerados com um salário equivalente a R$ 19 ao dia, dinheiro suficiente para adquirir alimentos e bebidas em um mercado instalado na ilha. Para ficar perfeito, faltava mesmo uma cervejinha, mas essa aí continua proibida.

Na prisão de Bastoy, todos os 115 detentos vivem em uma espécie de chalé, com capacidade para seis presos

Além de televisão nos quartos, a prisão oferece salas de estar amplas, para uso comum

Na prisão mais liberal da Noruega, os presos dormem em quartos com banheiro, tevê e computador

 

A VIDA EM BASTOY

• Todos são obrigados a trabalhar. Há vagas na lavanderia, na cozinha, no estábulo, na plantação, na biblioteca e por aí vai. Os presos recebem um salário equivalente a R$ 19 por dia

• O trabalho começa às 8h30 e vai até às 14h30. Todos almoçam e, partir daí, estão livres para estudar, praticar esportes, pescar ou mesmo pegar um sol à beira da praia. Às 23h os detentos são obrigados a voltar para seus aposentos

A administração de Bastoy serve apenas uma refeição por dia (o almoço). Café da manhã e jantar devem ser preparados pelos próprios detentos em seus chalés. Os mantimentos podem ser comprados no mercado da prisão

• Os prisioneiros de Bastoy são contados cinco vezes ao dia, uma tarefa desempenhada pelos 70 funcionários que trabalham na ilha

• Graças a seu regime de comunidade, incluindo plantação local e sistema de reciclagem (tudo sob responsabilidade dos presos, é bom lembrar), Bastoy tem um custo abaixo dos presídios tradicionais no país