DE BREGA A CULT

Rei das trilhas sonoras das novelas dos anos 70 e 80, Guilherme Arantes ressurge com disco novo, muitos fãs entre os novos talentos da MPB e uma inusitada amizade com Mano Brown

 

Por Lígia Nogueira
Foto Pedro Matallo

 

AEROPORTO DE SALVADOR, meados de 2011. Guilherme Arantes é abordado por um homem de voz grave entoando “Marina no ar”, sucesso dos anos 1980:

“Marina ilumina
Meu silêncio, minhas noites vãs
Minhas manhãs desertas de paixão
Meu coração sem sol
Meu sonho de amor”

Era Mano Brown, acompanhado dos outros integrantes dos Racionais MC’s, demonstrando o quanto é fã do cantor. “Eu sou um cara que gosta mesmo, ouço até hoje. Fui até ele e falei: ‘Pô, Guilherme Arantes!’ Todo mundo olhou. Ficamos tumultuando na dele: ‘Estava ouvindo seu som agora no quarto!’”, recorda Brown à Status.

Arantes, que não conhecia o grupo de rap pessoalmente, conta que aí nasceu uma amizade. “Eu estava saindo de Porto Seguro e no caminho tinha um menino vendendo cocada. Fiquei com pena e comprei o lote inteiro. Estava com umas 20 cocadas na mala. Desci em Salvador e vi o Mano Brown com a banda. Pensei: ‘Não acredito, adoro esses caras!’. Nos abraçamos e dei as cocadas para eles.”

Vila Madalena, São Paulo, início de 2013. Os dois artistas estão, coincidentemente, gravando em salas vizinhas no estúdio YB. “Ele chegou para fazer o som dele, a gente se cumprimentou, trocou ideia. Aí chamamos o Guilherme para ouvir o que a gente estava fazendo”, conta Mano Brown. “Ele gostou, ficou entusiasmado e disse: ‘Pô, se precisar de alguma coisa estou aí’. Na hora em que ele acenou com a possibilidade de tocar, nós fizemos de tudo. Aí já era, ele tocou e arrebentou. Deu show no piano”, relata o rapper. “Ouvia as músicas dele no rádio direto. Tinha um clima de solidão nas grandes cidades. Me lembro do vídeo de ‘Amanhã’ [tema da personagem de Sonia Braga na novela “Dancing days”, de 1978], gravado na Casa de Detenção de São Paulo. Naquela época, fazer um clipe na prisão era vanguarda”, diz. “Gravei lá muitos anos depois.”

O compositor em 1978 (acima),nos primeiros anos da carreira

O encontro com os Racionais é um dos episódios que marcam uma espécie de “ressurgimento” de Guilherme Arantes – um hitmaker que chegou a emplacar 25 músicas em trilhas de novelas da Globo entre os anos 70 e 80 e que, talvez por isso, acabou ficando estigmatizado. Agora, num momento em que a pecha de brega vai ficando para trás, o artista é saudado como um ídolo cult pela nova geração. No mesmo estúdio em que tocou com Mano Brown, Guilherme – que completa 60 anos no dia 28 de julho – reuniu novos talentos brasileiros, a maioria deles com a metade da sua idade, para participar de seu recém-lançado disco, “Condição humana (sobre o tempo)”, primeiro trabalho de composições inéditas desde 2007, quando saiu o álbum “Lótus”.

Durante uma tarde e uma parte da noite, 15 cantores, compositores e instrumentistas gravaram um coro para a faixa “Onde estava você”. “Fiquei emocionada quando o telefone tocou”, diz Tulipa Ruiz, uma das convidadas a participar do projeto. “Guilherme Arantes estava ligando no meu celular, me convidando pra gravar um coro no seu disco novo! Fiquei muito feliz com o convite. Afinal, sou fã”, conta a cantora. “No dia da gravação no YB, o clima era de confraternização. Guilherme juntou pessoas que se curtem na vida e na música. Pessoas que o têm como inspiração. Estávamos transbordando de felicidade por gravar com um artista tão representativo em nossas vidas.”

O cantor, compositor e multi-instrumentista Curumin, com três discos lançados e baterista convidado em discos e turnês de estrelas como Céu, Vanessa da Mata e Arnaldo Antunes, também confirmou presença assim que recebeu o convite do anfitrião em pessoa. “Quando eu era criança, a gente escutava o que tocava no rádio, e Guilherme Arantes tocava bastante. Era uma música fácil de gostar, bem melódica, tinha um jeito de cantar bem claro, o sotaque paulista. Quem é da minha geração escutou muito”, diz. “Gosto de ver esses caras de outras gerações fazendo música. Ainda não sei por que, mas realmente soa diferente. Eles têm alguma coisa no jeito de tocar.”

Guilherme Arantes comemorando com o sambista Almir Guineto e a cantora e atriz Lucinha Lins o Prêmio Shell de Música de 1981

No coro, Tulipa e Curumin se juntaram a Edgard Scandurra, Kassin, Mariana Aydar, Thiago Pethit, Tiê, Marcelo Jeneci e Adriano Cintra (ex-Cansei de ser sexy), entre outros. Além de terem crescido ao som de “Lindo balão azul”, muitos já conheciam Guilherme por meio da filha mais velha do músico, Marietta Vittal, 32 anos, cantora à frente do projeto Massarock. Outros foram chegando naturalmente.

Rock progressivo
“Acho que existe uma identificação”, diz Curumin. “O que ele foi, a música que ele fez, seria mais ou menos o que nós somos hoje. Só que ele vendeu muitos discos, fez muito sucesso. Também estamos em busca disso”, continua. “Chegamos num ponto em que é preciso quebrar os rótulos. Até porque a ideia de ‘brega’, que usamos para definir uma música muito popular e fácil, hoje se banalizou. Se for comparar com o que é a música brega hoje, Guilherme Arantes é Mozart.”

Acima, cena da novela “Dancing days” (1978), uma das 25 produções da Rede Globo nas quais Guilherme Arantes emplacou canção na trilha sonora

O paulistano criado no bairro da Bela Vista aprendeu a tocar piano aos seis anos de idade. Antes, aos quatro, já dedilhava o cavaquinho que ganhara do pai, o médico Gelson Arantes (morto há 12 anos), com quem costumava tocar na sala de casa. Na adolescência, fez parte do grupo Os Polissonantes, cujo baixista era o ator Kadu Moliterno. Chegou a entrar na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU), em São Paulo, mas abandonou o curso para se dedicar à música. Iniciou sua carreira profissional em 1969, na banda de rock progressivo Moto Perpétuo, com a qual gravou um LP em 1974. Anos depois, o grupo encerrou as atividades e Arantes seguiu carreira solo.

Seu autointitulado disco de estreia, lançado em 1976, abriu caminho para o surgimento do hitmaker Guilherme Arantes. A música “Meu mundo e nada mais” estourou quando foi parar na trilha sonora da novela “Anjo mau”, da Globo, no mesmo ano. A partir daí, o artista ficaria conhecido como “o menino da Globo”. “Isso nunca me atrapalhou, pelo contrário. É gloriosa a minha história com as novelas, porque marquei a vida de diretores, autores e atores. Imagina o Raul Cortez dizer que ‘Deixa chover’ (tema de “Baila comigo”, de 1981) era a música da vida dele? Tenho uma gratidão enorme por isso e faria de novo. Eu quero muito voltar”, diz.

Na década de 80, com a explosão do pop rock nacional, o som de Guilherme Arantes ficou no meio do caminho. “Minha música nunca se encaixou muito”, diz. “Fiquei deslocado por causa da minha linguagem mais feminina. Eu cantava para a mulher, eu cantava o mundo feminino”, conta o artista, totalmente influenciado por Roberto Carlos, Chico Buarque, Vinicius de Moraes e Tom Jobim. “Quem me deu esse toque foi a Elis Regina (para quem ele compôs o sucesso “Aprendendo a jogar” e com quem teve um namoro de oito meses). Ela me incentivou a prosseguir na minha visão feminista do mundo. Dizia: ‘Um dia você vai erguer a mão para o céu por ter essa alma feminina, porque a chave do futuro é a mulher’”, lembra o cantor, que, no auge de sua fase de galã, também conquistou o coração de Rita Lee, outra musa sagrada da MPB com quem teve um breve affair nos anos 1990.

“Ouvia as músicas dele no rádio direto. Tinha um clima de solidão nas grandes cidades” Mano Brown

O som de Guilherme Arantes também foi afetado pelo uso – muitas vezes excessivo – dos sequenciadores. E, nas palavras dele, “se desfigurou”. “Isso aconteceu nos anos 80 com todos que tocavam piano, até com o Elton John, que é da mesma escola que eu, um piano mais espalhafatoso. O meu natural era minha mão, a pegada do piano. Se você começar a jogar no computador, ela some”, diz. Foi justamente o resgate dessa “pegada” que norteou a criação do novo trabalho de Guilherme Arantes em um momento de crise. “Até hoje faço shows pelo Brasil inteiro com os meus sucessos dos anos 80. Mas percebi que eu estava me tornando um dinossauro. Eu me sentia um fóssil.”

As coisas começaram a mudar depois que Guilherme teve uma visão – literalmente. “Em 2012, eu fiz uma operação espetacular de catarata”, conta. “Essa cirurgia foi uma revelação para mim. Eu me vi na mesa de operação, sedado, olhando o mundo, era um fiozinho de luz que representava a minha esperança. Dali eu podia ficar cego, mas saí maravilhoso. Passei a enxergar tudo diferente: minha carreira, minha situação no mundo, minha alegria de viver, minha gratidão por tudo. Percebi que você está velho quando foge da morte, quando bota o pé no freio e não quer morrer. Quando você quer viver, mesmo que seja curto, você quer viver logo. Eu tenho de viver o agora.”

Arantes no estúdio com o guitarrista Edgard Scandurra e os 14 representantes da atual cena da música brasileira que colaboraram em seu novo disco

De volta para casa, em Barra do Jacuípe (no município de Camaçari, na Bahia), para onde se mudou em 2000 – “em busca de um clima mais tranquilo e de uma estrutura que as gravadoras não oferecem mais” –, Guilherme começou a compor as faixas de “Condição humana (sobre o tempo)” em seu estúdio. Batizado de Coaxo do Sapo, o espaço, equipado com instrumentos que coleciona “desde que era menino”, foi projetado por ele mesmo em sua residência, junto com uma pousada onde se hospedam os artistas que vão até lá para gravar. Além de curtir a praia e cuidar de samambaias e frutíferas – um de seus hobbies –, Guilherme aproveita a companhia de músicos que aparecem para tocar ou bater papo, e curte a mulher e três de seus cinco filhos.

“Passei a enxergar em toda essa turma da nova geração uma coragem incrível, um idealismo, uma fibra de não se vender a esse mundo truculento”, diz. “Vivemos uma época em que o mundo todo, de forma geral, se tornou pragmático, tudo precisa ter uma utilidade. E essa geração nova, esse pessoal mais antenado, não está muito encaixado nesse sistema utilitário. Vivemos em um mundo predatório. Como a gente quer que a música seja diferente? Você olha para os campos do interior e só vê boi e cana. Para onde foi o Brasil? Para onde foi o Brasil da pitanga, da moda de viola?”.