QUANDO O PERIGO MORA AO LADO

Felipe nunca desejou a mulher do próximo. Mas quando o amigo com quem dividia o apartamento apareceu em casa com uma inglesinha bem gostosa, ele acabou ficando de quatro por ela. Literalmente.

 

Ilustração Eduardo Schaal

 

 

Não sou um cara invejoso, eu juro. Tudo bem, dou lá minhas “checadas” nas novas namoradas dos amigos, mas nada que passe do ponto de um olhar bem sutil. Uma curiosidade natural. Mas isso foi até o Ivan aparecer com uma namoradinha inglesa. Morávamos havia seis meses em Londres, onde dividíamos um daqueles flats minúsculos, encravado no subsolo de uma loja de revistas. Tudo bem, estávamos ali pra cursar o tão sonhado mestrado em direito e também, claro, para viver a tal experiência de morar no Exterior. Os pubs estavam sempre na rotina, algumas baladinhas aqui e ali, mas pegar mulher mesmo, em quantidade, esquece. Se você acha a mulher brasileira difícil, devia passar uns dias em Londres, para nunca mais reclamar.

Talvez por isso tenha estranhado tanto quando o Ivan surgiu com uma namorada, a Eve. Pele branquinha, cabelo preto, tinha umas tatuagens que subiam pelas pernas. Era mignon, mas so what? O quadril mais largo e as coxas grossinhas deixavam a garota com um ar juvenil, bem gostosinha. Ela até que foi simpática comigo nas apresentações, mas não passamos muito da formalidade.

Naquela mesma noite, deu pra ouvir bem a voz dela. Primeiro foram risadas, fininhas e altas, como as de uma menina sapeca. Depois vieram os gemidos: Eve ofegava como um mulherão, num som abafado, mas que entrava no meu quarto como se ela estivesse bem ali, comigo. Como alguém constrói paredes tão finas? Eu perguntava a mim mesmo, na tentativa de pensar em outra coisa. Mas não adiantava. A secura dos três meses sem trepar falava mais alto e tudo que eu queria era ouvir cada detalhe do quarto ao lado. Louco de tesão, só imaginava o que Eve poderia estar aprontando. Pelas batidas secas da cama e pelos gritinhos de prazer misturados com dor, ela deveria estar cavalgando. Será? Perdi o juízo e fui bisbilhotar pela fechadura do quarto, daquelas bem antigas. A chave estava no lugar, mas o buraco era tão velho e arregaçado que ainda assim eu conseguia ver uns flashs, a bunda da Eve subindo e descendo, enquanto ela gritava. Consegui me posicionar de tal forma pelo buraco da fechadura que apenas a imagem dela aparecia pra mim. Depois de alguns segundos (ou seriam minutos?) ali, ela saiu de cima do Ivan e começou a lamber meu amigo, beeeem devagar, tipo saboreando. Dava pra ver bem a carinha dela, fazendo o trabalho de olhos bem abertos.

Foram dias e dias assim, pelo menos umas três vezes por semana. Um martírio. Além dos suspiros e gritos de Eve, eu ainda ouvia a garota fazendo brincadeiras, pedindo pra ser chamada de puta, enfim, coisas que só me deixavam ainda mais atormentado. Mas o sofrimento durou até aquele sábado de manhã. Acordei num mal humor acima da média. Fui pra cozinha fazer um café e dou de cara com os dois, conversando animadamente em voz alta, enquanto fritavam ovos. “Morning”, disse Eve. Não consegui responder. Ivan perguntou se estava tudo bem. Tudo, disse eu, cortando qualquer tentativa de small talk. Durante a conversa, porém, acabei falando merda. A Eve tinha feito algum comentário inofensivo sobre o “machismo latino” e reagi como um ogro. Disse algo sobre a falta de conhecimento dela. praticamente chamando-a de ignorante. E completei com algo nonsense, do tipo “Quem gosta de brincar de puta não tem moral pra falar nada”. Eve ficou alguns segundos congelada, até que pegou a bolsa e saiu, batendo a porta. Ivan saiu atrás dela e acho que só não tomei umas porradas dele na volta porque o cara, pra minha sorte, não sabia nem socar um bife.

Pedi desculpas ao Ivan, disse que estava estressado demais com os estudos. Sem muita saída, ele aceitou. Eve reapareceu lá em casa uma semana depois. E, para minha surpresa, estava até mais simpática comigo, cheia de sorrisinhos. Graças à minha grosseria, ela tinha parado de dormir lá, mas sempre aparecia durante o dia. E continuava bem gente boa comigo, puxando conversa sobre todo tipo de amenidades, música, cinema, comida… Enfim, passamos a ter uma conexão.

Uma tarde, cheguei em casa e peguei a garota só de calcinha e camiseta, saindo do banheiro. Ela parou na porta e, tranquilamente, me disse que o namorado estava na faculdade e que iria demorar. Eu disse algo como “all right” e ficamos ali, congelados, olho no olho.Ela perguntou se eu estava ocupado, que ela queria me mostrar alguma bandinha nova de britpop. Antes mesmo de eu responder, ela já estava dentro do meu quarto, colocando o CD no laptop. A música era mesmo boa e Eve começou a dançar. Entrei no clima e ficamos ali, ao som da música. Cacete, a mina tá me dando mole, não tenho culpa! Tipo cavalo dado não se olha os dentes, achado não é roubado, essas coisas. Segurei Eve com toda a força, apertando o corpo dela contra o meu, com um beijo animalesco. Fui com a mão na calcinha dela, mas ela segurou, sugerindo que a gente fosse devagar. Ela ria, parecia estar se divertindo com o perigo e com o inusitado da situação. Pediu para eu sentar na cama, enquanto ela continuou dançando aquele rockzinho gostoso, me deixando louco.

Quando finalmente virei ela de frente, Eve disse que preferia brincar mais e perguntou se eu topava. Àquela altura, eu topava até brincar de rainha da Inglaterra. Foi então que ela pediu para cavalgar em mim. Opa, só se for agora. Mas o que a mina queria mesmo era literalmente cavalgar em mim, comigo de quatro. Ela foi me beijando e me puxando para o chão e a gente se atracava de tal forma que eu perdi a condição de pensar em qualquer coisa, só obedecia. A ponto de bala, tive que me segurar. Era um tesão reprimido por muito tempo, eu estava disposto a tudo. Fiquei de quatro por ela, literalmente.

Foi então que ela começou a rir de forma descontrolada. Uma gargalhada, na verdade. Saiu de cima de mim rapidamente e, de pé na minha frente, disse: “A ignorante aqui tem um ótimo senso de humor. Não é não, otário?” Levei alguns segundos até acusar o golpe. Quando finalmente me dei conta da vingança maligna, fiquei sentado ali no quarto, de pau ainda duro, e com cara de… otário.