INGRID GUIMARÃES

Uma das atrizes de maior sucesso no cinema nacional, ela fala sobre o início de sua carreira, sobre tabus e sexo e que gostaria de rodar a versão feminina do filme E aí, Comeu?

 

Por Marcos Petrucelli

 

Ingrid Guimarães conversava com a reportagem de Status quando seu telefone tocou. Do outro lado da linha estava Mariza Leão, produtora do filme De pernas pro ar 2, comédia estrelada pela atriz que levou quase cinco milhões de pessoas para as salas de cinema do Brasil. Mariza foi direto ao ponto, queria saber se Ingrid toparia rodar a terceira parte da história. “Só se ele evoluir. Se for só para fazer uma comédia igual, eu prefiro fazer outra história”, disse Ingrid. Hoje ela não só pode se dar o luxo de recusar esses papéis como também escolhe muito bem quando, como e onde atuar. Afinal, no auge de seus 40 anos de idade, virou campeã de bilheteria e tornou-se uma das atrizes mais populares do País. Está no teatro, em São Paulo, até o dia 14 de julho, com a peça Razões para ser bonita, com texto do premiado autor norte-americano Neil LaBute. Voltou à televisão na novela Sangue bom, da Rede Globo, fazendo a personagem Tina Leão; e nos cinemas, a partir do dia 21 de junho, será vista em Minha mãe é uma peça – o filme, adaptação para as telas da peça de teatro de sucesso. É difícil imaginar que aquela garotinha frágil que surgiu em Confissões de adolescente, seriado da TV Cultura que fez sucesso na década de 1990, tenha se transformado numa mulher que se agiganta nos palcos, nas telas dos cinemas e na criação de roteiros cômicos. Mas, sim, ela se transformou.

Nascida em Goiânia, filha do jornalista William Guimarães, ex-dono de uma emissora de tevê, com a advogada Sônia Agel, ex-procuradora da Agência Nacional de Petróleo (ANP), Ingrid sempre quis ser artista. Aos 5 anos de idade, preferia fazer teatrinho a brincar com as irmãs ou amiguinhos. Aos 13 anos, foi morar no Rio de Janeiro, onde tudo começou a convergir para o caminho que ela perseguia. Entrou para o mundo do teatro ao mesmo tempo que começava a descobrir sua sexualidade. “Eu perdi minha virgindade com 18 anos. E com o primeiro namorado, uma coisa linda e romântica.” Isso tudo parece muito sério tratando-se de uma das maiores atrizes cômicas da atualidade. “Para fazer humor, tem que ter muita seriedade”, explica. Ingrid, porém, é capaz de fazer graça de tudo, inclusive da tragédia. Afirma ser uma pessoa observadora e curiosa. Tão curiosa que, assim como a personagem Alice dos dois De pernas pro ar, a atriz não esconde que já usou aqueles brinquedinhos eróticos encontrados nas casas de sex-shop. Além de saber muito bem como fazer rir, ela conhece a arte do prazer.

Ingrid no começo da carreira em Confissões de Adolescente

– Você iniciou a carreira escrevendo peça de teatro. E, hoje, ainda escreve?
– Parece que todo esse sucesso que eu fiz nos últimos anos me afastou um pouco da escrita. E é louco você falar isso, porque na verdade eu nunca parei de escrever. Confissões de Adolescente foi minha primeira peça profissional, na qual tinha um texto meu chamado Meu primeiro baseado.

– A série veio depois?
– A peça é de onde saiu tudo: a série, o livro. Eu ia fazer um curso com o (diretor) Domingos de Oliveira e ele falou que precisava de uma parte para falar sobre drogas na adolescência. Escrevi uma história que tinha acontecido comigo, que eu saí na rua com uma toalha enrolada na cabeça quando tinha 15 anos de idade. Escrevi que fumei maconha, saí na rua com a toalha, as pessoas ficavam me olhando e o porteiro não falou nada. O Domingos disse: “Do jeito que está aqui, vai para o palco.” E depois eu escrevi a peça Cócegas.”

– E como foi?
– Quando apareci pela primeira vez na tevê, no programa do Chico Anysio, passei no teste justamente com a personagem da Pastora, que estava no Cócegas. Acho que sempre tive esse dom de escrever. Eu era péssima aluna em tudo, mas redação era a única coisa que me salvava para não bombar. Tudo que eu escrevia era um ato de sobrevivência.

– Sobrevivência mais como questão artística e intelectual, não é? O seu pai sempre te bancou.
– É, eu não tenho aquela história da menina pobre para contar.

– O que seu pai fazia?
– O meu pai (William Guimarães, já falecido) era jornalista. Ele se formou no Rio de Janeiro, na Getúlio Vargas. Trabalhou no Jornal Última Hora, com Nelson Rodrigues, Samuel Wainer, e depois voltou para Goiânia e montou uma rádio. Depois abriu uma emissora de tevê (era uma retransmissora da Rede Globo). Ele ganhou muito dinheiro e decidiu mandar os filhos para estudar no Rio. E eu, aos 13 anos de idade, para ser atriz. Eu nunca falei isso para ninguém, mas eu morava na Vieira Souto.

– Sua infância era representar?
– Eu era fissurada por isso. Em Goiânia estudei num colégio de freiras muito tradicional e as pecinhas do colégio eu que fazia. Então meu pai falou: “Essa menina tem talento.” Por isso, fui morar no Rio. Mas eu era a menina do interior que falava “porrrta, porrrteira” (imitando o sotaque caipira). Tinha 13 anos, fisicamente disforme, porque era muito, muito magra. Hoje eu agradeço.

– Por quê?
– Quem é muito magra e feia na adolescência, depois, vai ter um corpo ótimo. Repara nas modelos. Tenho uma genética muito boa, mas era muito magra. Eu não tinha nenhum padrão. Era muito tímida, mas vivi de fazer teatro até os 29 anos. Só fiz uma novela na Globo, ganhando muito mal. Eu fazia uma empregada. Só me chamavam para fazer sempre o mesmo tipo de coisa: empregada, secretária, Didi Mocó (referindo-se ao programa Os trapalhões, com Renato Aragão). Didi era o ídolo da minha infância, mas eu queria outra coisa. Nunca gostei desse estereótipo da mulher comediante.

Ingrid no programa do Chico Anysio

– É difícil sair do estereótipo?
– Sim, mas, hoje em dia, a própria colocação da mulher no humor é mais inteligente, muito mais moderna. As mulheres comandam um programa. Elas falam de sexualidade, de amor. Hoje eu sou a mocinha de um filme. Na minha época era muito separado: ou era a gostosa de biquíni ou a feia fazendo a “Calada” (bordão usado pelo personagem Nazareno, de Chico Anysio).

– Como o humor surgiu na sua carreira?
– Acho que naturalmente. O humor é um olhar diferenciado.

– Teve um momento em que você se deu conta de que sabia fazer graça?
– Não, foi natural. Nem me lembro quando foi a primeira vez que riram de mim.

– E você se acha engraçada?
– (Refletindo) Cara, na vida real… Teve uma babá que trabalhou comigo que um dia falou: “Nossa, a senhora é tão séria.” Em casa eu sou muito séria, porque é muito chata essa obrigação de ser engraçada o tempo todo. E, para fazer humor, tem que ter muita seriedade. O humor é uma observação da vida real.

– Mudando de assunto. Você se acha sexy?
– Sim.

– Como é ser sexy e engraçada?
– Eu acho ser engraçada muito sexy. Eu me interesso por homens que tenham senso de humor. Não o protótipo do palhacinho, mas me dá tesão um homem que me faz gargalhar. A própria Alice, do De pernas pro ar, é uma mulher interessante, atraente e engraçada.

– E no seu caso?
– Essa coisa de sexy e engraçada é uma característica minha. Eu sempre gostei de exercitar minha sexualidade. Então, por que eu não posso colocar isso nos meus personagens?

No filme De Pernas pro Ar 2

– Hoje você é uma mulher casada. Seus personagens continuam tendo um pouco de você?
– Quase todas têm um pouquinho de mim. As que eu crio, com certeza, ou têm alguma coisa de mim ou têm alguma questão no mundo. Vou te dar um exemplo: Cachorras, um quadro no Cócegas. Eu nunca fui cachorra. Sempre fui uma mulher que namorou muito.

– Namorar muito significa que você namorou muitos homens ou muito tempo cada um?
– Muito tempo cada um. Meu primeiro namorado, o David Moraes, eu namorei dos 16 aos 21 anos. Mas uma vez estava numa boate e fui para o banheiro, quando ouvi duas mulheres conversando. Eram cachorras mesmo. Eu entrei no banheiro, peguei um guardanapo e fiquei ali sentada anotando tudo o que elas falavam e criei o Cachorras (rindo!!!).

– Você completou 40 anos recentemente. O que mudou?
– Quando tinha 30 eu falava: meu Deus, imagina ter 40. E eu nunca me senti tão bem como mulher, assim bonita, sexy, de bem com meu corpo, como me sinto hoje. Esteticamente e fisicamente sou muito mais bonita hoje.

– Você saiu de uma cidade como Goiânia e chegou a uma cidade como o Rio, com outra realidade, mais liberal. Você teve algum tipo de tabu?
– Com certeza, eu descobri muito mais tarde o que todas as meninas do Rio já sabiam. Eu perdi minha virgindade com 18 anos. E com o primeiro namorado, uma coisa linda e romântica. Então eu faço Confissões de Adolescente, em que os textos falavam de maconha, de sexo e de aborto. A peça foi muito importante para minha formação sexual, porque tudo o que eu falava nela eu vivia ao mesmo tempo.

– Sem nenhuma experiência anterior.
– Não, inclusive tinham algumas meninas que perderam a virgindade fazendo a peça, durante a temporada da peça. E a minha mãe sempre foi muito moderna. Quando começou essa história do Confissões, a primeira coisa que ela disse foi: “Quer fazer, faz aqui em casa.” Então namorado, era lá.

– Você perdeu a virgindade em casa?
– Não, no apartamento dele. Mas eu contei para a minha mãe.

– Naquele dia você foi para a casa dele já sabendo o que iria acontecer?
– Sim, a gente programou o dia da transa. As minhas amigas todas se reuniram, me deram calcinha de presente. Todas elas já tinham perdido a virgindade. Menos eu.

– Suas amigas te deram dicas?
– Dicas eu não me lembro. Minhas amigas falavam coisas para mim, assim como os amigos dele falavam para ele. Acho que isso ajudou muito a qualidade da minha vida sexual, em vez de ter quantidade. Eu acredito muito nessa coisa da relação sexual ligada a uma relação afetiva. Teve uma época em que eu e minhas amigas instituímos a regra do pau amigo. É que nós todas éramos solteiras e tínhamos nossos amigos, com quem a gente saía e transava. Mas isso porque eram nossos amigos. Sexo para mim é muito ligado à relação de carinho e de amor.

– As mulheres questionam muito a ideia de nunca transar no primeiro encontro. O que você acha?
– Acho essa regra muito boba. O problema não é ser no primeiro encontro, o problema é você ter alguma relação de confiança com aquela pessoa. Eu acho que o amor não tem regra. O problemático é a garota transar só porque o cara quer.

– Voltando aos filmes De pernas pro ar. No primeiro, você aprende a ter um orgasmo; no segundo, você é quem ensina as mulheres a gozar.
– Mas isso, para a personagem, já virou um trabalho.

– Gozar ainda é a principal preocupação feminina?
– Eu sempre brinquei com aquelas cenas de sexo dos filmes, quando a pessoa chega, pega a mulher, joga ela num canto, em cima da mesa, transa (Ingrid gesticulando, falando oh, oh, jogando os cabelos)… e a mulher goza. Gente, é difícil gozar tão rápido assim. É mentira aquilo ali.

– Como você descobriu o orgasmo?
– Cara, como eu namorei muito tempo, sempre com a mesma pessoa, acho que foi uma coisa aos poucos. Acho que a intimidade faz com que você descubra aquilo que é bom. E o homem também sabendo, ajuda. Homem bom de cama é aquele que também pensa no prazer da mulher.

– E você usa “brinquedinhos”?
– Usei, claro! Nunca foi uma coisa em que eu fui viciada. Foi mais uma curiosidade.

– Mas esses “brinquedinhos” são muito exagerados.
– Sempre.

– Tamanho é documento?
– Para mim, não. Tem muitas outras coisas que fazem uma noite de sexo ser legal. Mas eu nunca me liguei no vibrador, aquela coisa grande. Talvez a gente tenha dado uma romantizada no vibrador. As meninas do Sex and the city (famoso seriado de tevê americano) já falavam desse coelho muito antes de mim (referindo-se ao coelho da personagem Alice, um objeto sexual que no caso do filme tem a função de vibrador). Esse coelho não é uma novidade. A novidade no filme é que se trata de uma mulher comum que não sabia gozar. Eu gostaria até de poder falar mais.

– Num De pernas pro ar 3?
– Se eu conseguir que a Mariza aceite (Mariza Leão, produtora dos dois primeiros filmes), gostaria de sentar e fazer um papo de mulher. O E aí, comeu? não teve um papo de homem? Mulher também tem, tá? E o nível é ali, ó!!!! Só que não é daquele jeito tão grosseiro.

– O que mais se discute numa mesa de bar entre as mulheres?
– Sexo, muito… Essa relação de marido, mulher, filho e trabalho. Sexo versus maternidade. A falta de libido. Vaidade, se cuidar, envelhecer. São questões muito complexas. Eu gostaria de poder, num filme, falar do papo de mulher. Mas aí entra o mundo machista. O (ator) Bruno Mazzeo pode falar o que ele quiser. Eu, Ingrid, não posso.

– Este é o seu melhor momento?
– Sim, é o melhor. Eu me sinto com liberdade para fazer o que quiser. O sucesso te dá liberdade de escolha.