POR TRÁS DA PORTA

Eles conquistaram milhões de fãs e reinventaram o jeito de fazer humor. Status escancarou o maior fenômeno da internet brasileira: o irreverente grupo Porta dos Fundos

 

Por Fabrícia Peixoto

 

Da esq. para a dir., os cinco criadores do porta dos fundos: João Vicente de Castro, Fábio Porchat, Gregório Duvivier, Ian SBF e Antônio Tabet

SERIA MAIS UMA NOITE DE “JOGATINA” entre os cinco amigos, com direito à tradicional brincadeira com mímicas, gargalhadas e algumas taças de vinho, não fosse por um sentimento no ar: todos ali estavam de saco cheio. Não com aquele clima de camaradagem, que fique claro, mas com seus rumos profissionais. Ian SBF, por exemplo, estava encerrando seu contrato com o canal Multishow, onde vinha trabalhando como diretor; Antônio Tabet (o Kibe Loco) e João Vicente de Castro, ambos roteiristas, estavam a ponto de chutar o balde e deixar a Rede Globo; já os atores e roteiristas Fábio Porchat e Gregório Duvivier queriam liberdade para trabalhar em um formato de humor que fugisse das amarras da tevê. Era janeiro de 2012 e, espalhados pela sala do apartamento de Fábio, no bairro das Laranjeiras, zona sul carioca, os cinco amigos selaram então uma sociedade. Ainda sem nome, o projeto vislumbrava a produção de esquetes humorísticos sem censura, mas com qualidade – tanto na atuação como na direção e no acabamento. E como queriam liberdade acima de tudo, o veículo para o programa não poderia ser outro senão a internet, especificamente o YouTube. Todos brindaram e, sete meses depois, em agosto, era lançado o primeiro vídeo do Porta dos Fundos, o canal que se tornou febre entre os internautas brasileiros e que, em menos de um ano, figura como o mais acessado do País, com mais de 3,4 milhões de inscritos. No ranking mundial, está em 53o lugar, à frente de canais como o das cantoras Katy Perry (54o) e Lady Gaga (78o), ambos há muito mais tempo no ar. E se depender das novas ações do grupo, o canal poderá subir ainda mais nesse ranking: todos os vídeos foram legendados em espanhol e em inglês, o que pode facilitar a popularização do Porta dos Fundos no Exterior. “Estamos vendo o que acontece. Grande parte do nosso humor é universal e, além disso, o anunciante lá fora paga muito mais”, disse Ian à Status.

Mas o que, afinal, explica o sucesso tão avassalador de um canal do YouTube que não tem nem 1 ano de vida? Porchat tem parte da explicação: “Acho que a gente está conseguindo fazer o brasileiro rir um pouco de si mesmo”, diz. Ao contrário do humor consagrado no Brasil, muitas vezes baseado no bullying gratuito, na chacota do outro e até no reforço de preconceitos, o Porta dos Fundos tem surpreendido com um conteúdo que faz o público gargalhar de suas próprias situações. Afinal, quem nunca se irritou ao tentar cancelar uma linha telefônica? Ou, ainda, levante a mão quem nunca falou com a namorada fazendo uma “vozinha” esquisita. O canal também traz um humor crítico à sociedade e aos costumes, bem ao estilo Monty Python, o grupo britânico que consagrou esse tipo de comédia nas décadas de 70 e 80. Exemplos dessa linha no repertório do Porta dos Fundos são os esquetes Sobre a Mesa, com seu famoso bordão “O que eu quero, Mário Alberto? O que eu quero é foder”, uma forma debochada de zoar com os casamentos acomodados, e Deus, que tira um sarro da humanidade ao apresentar ao mundo um deus polinésio como o verdadeiro criador. Isso sem mencionar os vídeos nonsense, como Entrevista de emprego e Fundo verde, e as sátiras indiretas a grandes empresas. “Muita gente nos pergunta quando vamos para a tevê, como se esse fosse sempre o ponto final, o clímax. Recebemos algumas sondagens, mas já estamos onde queremos estar”, diz Ian, diretor dos vídeos e responsável pela inglória tarefa de controlar as gargalhadas da equipe nas gravações, incluindo as dele mesmo. Inclusive, foi ele o protagonista no episódio que levou à escolha do nome do canal. Em uma das noites de jogatina, Ian precisava fazer a mímica da expressão “porta dos fundos” e acabou apontando para aquela parte do corpo. Todos rolaram de rir e nunca mais esqueceram aquele nome.

O estilo de humor, porém, explica apenas parte do sucesso. O Porta dos Fundos é também resultado de roteiros inteligentes, escritos e reescritos sem pudor. Os textos são apresentados uma vez por semana, em reuniões informais no apartamento de Porchat, muitas vezes tarde da noite. Nem tudo, claro, agrada de primeira. De cada seis ideias apresentadas, duas ou três recebem o OK da “junta de sacanas conscientes”, nas palavras de Kibe, e o restante é reescrito ou vai direto para o lixo. “Não tem essa de ficar magoado. Em cada um de nós existe um desapego total ao texto, todo mundo acata as sugestões. No fundo, o que todos nós queremos é um texto bom e engraçado”, diz Duvivier, que se equilibra entre as reuniões e gravações do canal com seus próprios projetos, como duas peças de teatro em cartaz. “Este ano já declinei de dois convites para o cinema. Minha prioridade é o Porta.” Ele não está sozinho: Fábio também já teve de abrir mão de algumas gravações para A grande família, onde costuma fazer uma participação especial, assim como Ian e Kibe têm deixado um pouco seus outros projetos de lado. “O Porta dos Fundos é nosso horário nobre”, resume Duvivier.

Apesar de todo o barulho em torno do Porta dos Fundos, essa não é a primeira vez que um canal de humor faz sucesso na internet brasileira. O Parafernalha, por exemplo, criado pelo vlogueiro (blogueiro de vídeos) e ator Felipe Neto e que também traz esquetes de humor sobre situações cotidianas, tem 2,5 milhões de inscritos e é o segundo canal brasileiro mais visto no YouTube, atrás do Porta. Alguém que nunca assistiu nenhum dos dois canais pode se perguntar qual seria, afinal, a grande diferença entre eles. De fato, somente assistindo aos dois canais para entender o abismo que os separam. Ainda que tenha alguns méritos, o Parafernalha é feito com atores jovens, muitos sem experiência, e com um roteiro que deixa a desejar. Já o Porta dos Fundos conta com um elenco de primeiro escalão, gente com bagagem de teatro e cinema, como os próprios Porchat e Duvivier, além de Clarice Falcão, Rafael Infante e Julia Rabello, que fazem parte da equipe fixa. Até a atriz Maitê Proença já participou do programa. “Essas esquetes de humor circulam há muito tempo na internet, mas era um material mais simples, até tosco. O Porta dos Fundos se parece com um programa de tevê e acabou sendo o primeiro a trazer essa qualidade ao YouTube brasileiro”, diz o especialista em marketing digital Samuel Leite, CEO da agência Digitale.XY2.

Imagens dos vídeos Deus e na lata. Com tanta popularidade, o canal consegue se pagar apenas com os anúncios via YouTube

Gargalhada
O carioca Antônio Moreira Leite, diretor de marketing da rede de fast-food Spoleto, estava em uma reunião com franqueados, em Recife, quando seu celular apitou. “É urgente. Você precisa ver esse vídeo”, dizia a mensagem de texto enviada por sua equipe de monitoramento virtual. Preocupado, Antônio imediatamente pediu licença e saiu da sala. “Comecei a rir. Era claramente uma sátira ao atendimento do Spoleto. Deveria ser um problema para nós, mas o vídeo era bom demais”, conta o executivo, que interrompeu a reunião para mostrar a esquete aos franqueados, que também caíram na gargalhada. “Eu só me perguntava: quem são esses caras?” Em dois dias, ele e outros dois executivos do Spoleto já estavam sentados em um bar, junto com Ian, Kibe e João Vicente, discutindo a possibilidade de um segundo vídeo, desta vez patrocinado pela empresa, que usasse o humor ácido do Porta dos Fundos para divulgar o SAC da companhia. O resultado caiu no gosto do público, deixou a empresa bem na fita e, de quebra, deu um belo gás ao caixa do canal: depois de nove meses investindo dinheiro do próprio bolso no projeto, os cinco sócios do Porta dos Fundos puderam finalmente tomar uma cerveja para celebrar. O canal começava a andar com as próprias pernas.

Em um mercado ávido por formas alternativas de publicidade, sobretudo as que pareçam naturais, como os virais de internet, ações como a do Spoleto soam como música aos ouvidos das empresas. Não à toa o Porta dos Fundos caiu nas graças de agências de publicidade e, desde então, já fez vídeos institucionais para marcas como Fiat, Yogo Bis e Visa, além de um minidocumentário sobre o canal com patrocínio da LG. Mas esse formato pode estar com os dias contados. “Temos algumas propostas de empresas, mas vamos reduzir esse tipo de parceria”, conta Ian, que diz preferir parcerias de “product replacement”, como a da Itaipava, que pagou ao canal para ser a cerveja oficial em todos os vídeos em que esse tipo de bebida aparecer. “A vantagem é que não interfere no nosso produto”, diz o diretor.

Com tanta popularidade, a operação já se paga com os anúncios – principalmente com aqueles vídeos que antecedem as esquetes. A forma como canais do YouTube ganham dinheiro varia bastante de caso a caso e o assunto se torna ainda mais nebuloso na medida em que o Google proíbe seus parceiros de comentarem os números. Mas, considerando a estimativa de que o YouTube paga de US$ 1 a US$ 3 para cada 1.000 visualizações, o Porta dos Fundos estaria faturando entre US$ 56 mil e US$ 170 mil por mês. Como o canal é o mais visto do País e também um grande parceiro do YouTube, é muito provável que o Porta esteja faturando mais do que o piso de US$ 1, ou seja, algo mais próximo do teto estimado. “A gente não revela quanto ganha, mas uma coisa você pode apostar: fora o salário, não tiramos nada. Investimos tudo de volta na empresa”, diz Ian. Com 30 funcionários e um prédio de três andares que acaba de ser alugado, o Porta dos Fundos em breve irá diversificar sua fonte de receita para além dos esquetes, incluindo licenciamentos de produtos com a marca, um livro, um programa para a internet em formato de série e até mesmo um longa-metragem – este para a telona tradicional. Até lá, é melhor a junta dos sacanas conscientes ir se acostumando com uma fama digna de celebridades de tevê. “Estou em férias em Nova York e não há um dia que não me chamem de Mário Alberto e não me peçam uma foto”, conta Kibe. A quem interessar: o vídeo preferido da turma é Parabéns.

 

VOCÊ RI, ELES GANHAM

3,4 milhões de inscritos no canal

20,8 mil pessoas se inscrevem por dia

1º lugar no ranking brasileiro do YouTube

53º no ranking mundial

297,7 milhões é o número total de visualizações

94 vídeos publicados