O BRASIL QUE PRODUZ LÁGRIMAS

O gás lacrimogêneo usado contra manifestantes do Brasil, da Turquia e de outros 40 países é feito no Rio de Janeiro. Conheça a história da fabricante Condor Tecnologias Não Letais e saiba como ela domina o mercado nacional

 

 Por Carlos Sambrana

 

Uma nuvem de gás faz a manifestante, em São Paulo, ficar atordoada

 O psicólogo turco Suat Özçagdas, 39 anos, tentava respirar, mas, cada vez que puxava o ar, a dor aumentava. “Era como se algo estivesse arranhando minha garganta”, diz à Status. Para evitar aquela terrível sensação, ele prendia a respiração, o que atenuava um pouco o sofrimento, mas não o suficiente. Logo os olhos começaram a arder e a visão foi se perdendo até que, atordoado, não conseguia mais identificar nada à sua frente em plena Praça Taksim, em Istambul, palco dos protestos contra o governo de Recep Erdogan. Dias depois daquela sangrenta batalha campal que abalara as estruturas políticas da Turquia, o médico paulistano Pedro Campana, 26 anos, se encontrava em frente ao Palácio dos Bandeirantes, sede do governo de São Paulo, tentando socorrer feridos em um confronto com a polícia, num dia que entrou para a história do Brasil por reunir mais de um milhão de pessoas protestando contra os aumentos nas tarifas de ônibus e a corrupção nas principais capitais do País.

Quando atendia uma menina desmaiada, uma bomba de gás lacrimogêneo estourou ao seu lado. “Fiquei fraco, meus olhos começaram a lacrimejar, a pele e a boca a arder. Passei a sentir náuseas até vomitar. Foi terrível”, diz Campana. Além dos excessos cometidos pelas polícias da Turquia e do Brasil, além de protestarem contra os malfeitos dos governos, além de sentirem os terríveis efeitos das bombas, outro ponto une esses dois manifestantes que vivem a mais de dez mil quilômetros de distância um do outro: a cidade de Nova Iguaçu. É ali que está instalada a Condor Tecnologias Não Letais, empresa que fabrica as bombas de gás lacrimogêneo usadas nos protestos no Brasil, na Turquia e em países que passaram por recentes conflitos, como Grécia e Bahrein, entre outros.

A fábrica da Condor em Nova Iguaçu

Stande da empresa em uma feira de armamentos em maio na Turquia

Instalada no bairro de Adrianópolis, a 17 quilômetros do centro de Nova Iguaçu, a fábrica ocupa uma área de um milhão de metros quadrados próxima à Reserva Ecológica do Tinguá, uma densa área de Mata Atlântica. Nem parece que naquele lugar tranquilo, circundado por ruas de terra, repousa uma empresa que fabrica produtos que fazem as ruas entrarem em erupção. No portão, apenas dois funcionários fazem a vigilância, mas nem por isso deixam o mistério de lado. Eles são orientados a dizer que se trata de uma empresa de “produtos químicos”, para “não chamar a atenção”, mas todo mundo na região sabe muito bem o que a Condor faz. “Ah, você tá falando da empresa de explosivos!”, disse uma moradora quando indagada sobre a empresa “química”. Naquele prédio trabalham cerca de 500 funcionários e fabricam-se 150 produtos que vão desde granadas explosivas, sprays de pimenta, armas de choque elétrico (conhecidas como tasers) até bombas de gás lacrimogêneo – um dos carros-chefes da companhia, vendidas para mais de 40 países. As exportações, aliás, são estratégicas para a empresa e estima-se que representem 30% de sua produção. É um negócio de gente grande. Em abril, por exemplo, a Condor vendeu US$ 12 milhões em armamentos somente para os Emirados Árabes. Isso sem contar os contratos firmados em solo nacional.

Copa do mundo
Dados do Portal da Transparência mostram que a Condor é uma das grandes fornecedoras do governo federal. Em 2009, a União comprou R$ 13 milhões em equipamentos. Em 2010, foram R$ 22,2 milhões; em 2011, mais R$ 24,7 milhões; e, em 2012, exatos R$ 18,1 milhões. Mais: o governo encomendou R$ 49,48 milhões em produtos a serem destinados aos Estados-sedes da Copa do Mundo de 2014. E, a julgar pelos protestos na Copa das Confederações, mais equipamentos deverão ser encomendados. Há relatos de que a fábrica está trabalhando em ritmo acelerado e os funcionários fazendo hora extra para atender à demanda. Diante de tantas manifestações no País – para se ter uma ideia, em mais de 500 cidades – e do uso exagerado das bombas de gás, o produto começou a faltar nos estoques das polícias militares brasileiras e o jeito foi encomendar bombas que seriam destinadas a outros países. Comenta- se que a PM fluminense estaria à espera de um carregamento de duas mil bombas que teriam como endereço Angola. O problema é que a concentração de gás dessa bomba é de 20%, duas vezes maior do que a usada no Brasil. Indagada sobre essa questão, a Condor disse, por meio de sua assessoria de imprensa, que “não informa detalhes de vendas, em função de cláusulas de confidencialidade”. E prossegue: “No mundo todo, essas concentrações variam entre 5% e 30% (alguns países usam até concentrações maiores).  No Brasil, o usual é 10%, mas, repetindo, isso não é regra, apenas um padrão adotado internamente, sem legislação específica a respeito”.

Um garoto segura uma bomba de gás lacrimogêneo “made in Brazil” que foi lançada pela polícia da Turquia

Guerra do Vietnã
O gás fabricado no Brasil é composto de 2-clorobenzelideno malonitrilo, mais conhecido como CS. Na Guerra do Vietnã, foi muito usado pelos militares americanos para fazer com que os vietcongues saíssem de seus esconderijos. Hoje, serve mais para dispersar multidões. “E é utilizado em todos os países. Desconheço outro método de contenção”, diz Ronaldo Leão Correa, especialista em segurança pública. Inclusive, muitos analistas acreditam que o uso do gás seja o jeito mais seguro de conter manifestações. Antes de ser jogado às ruas, entretanto, ele tem de passar pelo crivo das Forças Armadas. “O Exército controla todas as etapas, passando pela fabricação, utilização, importação, exportação, desembaraço alfandegário, tráfego e comércio”, diz o Exército brasileiro. Mas os dados de fabricação e seus destinos são guardados sob sete chaves.

Um manifestante no Bahrein tenta se proteger do gás

Apesar de receber a nomenclatura de “não letal”, o gás pode, sim, matar. “Mas, geralmente, se a pessoa que inala tem outros problemas, como cardíacos, alérgicos ou asmáticos”, diz Anthony Wong, chefe do Centro de Assistência Toxicológica do Hospital das Clínicas de São Paulo. “Ele causa uma tosse intensa e uma pessoa com problemas cardíacos pode ter infarto”, diz. “Dependendo do modo como é usado, pode causar cegueira permanente e também convulsões.” A Condor explica que fornece treinamento para todas as corporações que compram seus equipamentos. “A empresa conta com um campo de testes e, se necessário, manda instrutores para as polícias.” Mas, no calor das manifestações, muitos oficiais parecem ter “esquecido” as regras básicas de uso. Uma das imagens mais reproduzidas no YouTube foi a de um policial atirando uma bomba de gás lacrimogêneo dentro de um apartamento em São Paulo. “Em local fechado, mata”, diz Wong.

De acordo com a ativista Zainab al Khawaja, um bebê de cinco dias teria morrido dormindo ao inalar o gás brasileiro, durante as manifestações no Bahrein, em 2011. “Seu nome era Sajida, morava na aldeia de Bilad-Kadim, onde há casas pobres, com rachaduras (na parede) por onde o gás lacrimogêneo entra facilmente”, declarou à época ao jornal O Globo. A Condor nega que tenha vendido suas bombas de gás ao governo do Bahrein, mas não descarta que seus produtos tenham entrado no país por meio de tropas aliadas do Bahrein, clientes da empresa. O fato é que, nos últimos anos, sobretudo recentemente, com as ondas de protestos que tomaram conta do Oriente Médio, o gás lacrimogêneo virou o alvo de organizações não governamentais, como a Cruz Vermelha e a Anistia Internacional. Mesmo assim, nunca se consumiu tanto gás lacrimogêneo como nos dias de hoje. E isso deriva de uma conjunção de fatores que passam pela instabilidade política no Oriente Médio e pela crise econômica na zona do Euro.

Manifestantes gregos se dispersam em meio à fumaça

A pesquisadora Anna Feigenbaum, da Universidade de Bournemouth, na Grã-Bretanha, rastreou os países onde o lacrimogêneo foi usado desde janeiro deste ano (veja mapa na pág. ao lado) e o que se percebe é que o seu uso é proporcional à situação política, econômica e social de cada país. “Com a austeridade houve uma intensificação dos protestos e do uso do gás”, disse Anna à inglesa BBC. O resultado dessa equação é assustador. O governo espanhol, por exemplo, cortou todos os seus gastos, mas aumentou a compra de gás lacrimogêneo e outros produtos para conter distúrbios: passou de 173 mil euros em 2012 para 3 milhões de euros neste ano. O mesmo deverá acontecer por aqui. As lágrimas, por mais dolorosas que sejam, parecem fazer alguém feliz. E a felicidade, pelo menos nesse caso, mora em Nova Iguaçu.

 

O mapa dos conflitos

Os países onde o gás lacrimogêneo foi usado desde janeiro de 2013*

Com reportagem de Fabrícia Peixoto e Juliane Bittencourt