DANIEL DE OLIVEIRA

O ator deixa de lado seu estilo discreto para falar sobre seu novo filme Latitudes, a perseguição dos paparazzi, política, drogas, a atual fase solteira e por que não liga para o status de galã global

 

por Bruno Weis

fotos Kiko Ferrite

 

Aos 37 anos, Daniel de Oliveira está naquela fase em que todo ator almeja chegar: fazer o que quer, com quem, onde e quando quiser. Não foi de outra forma que o mineiro, famoso por ter encarnado Cazuza no cinema, realizou o antigo desejo de trabalhar com a amiga Alice Braga. A dupla de atores se associou para produzir o projeto Latitudes, uma série de oito episódios filmada para diversas plataformas de mídia e que estreia na internet e na tevê à cabo neste segundo semestre de 2013. Os filmes, curtos, dão conta dos encontros e desencontros amorosos de um homem (o fotógrafo José, vivido por Oliveira) e uma mulher (a editora de moda Olívia, vivida por Alice) em hotéis de luxo de diversas capitais do planeta. “Meu empresário é o mesmo da Alice e eu queria viajar, conhecer novos lugares, aliando trabalho e diversão”, conta Oliveira à Status sobre o início do projeto. Na entrevista a seguir, realizada em São Paulo durante breve passagem pela cidade – e poucos dias antes de o ator rumar ao interior do Pará para filmar Órfãos de Eldorado, de Guilherme Coelho –, Oliveira também fala sobre recusar papéis em novelas da Globo e não se encaixar no perfil de galã da emissora (na qual começou na série Malhação e depois atuou em seis novelas), sobre a atual fase solteira (após oito anos casado com a atriz Vanessa Giácomo), sua relação com os filhos (é pai de Raul e Moisés, frutos da união com Vanessa) e com as drogas, um misterioso “Homem Lama” e como sente saudade de um cara que nunca conheceu: Cazuza.

  

 – Você rodou o mundo para filmar Latitudes e agora está prestes a pegar a estrada para filmar no interior do Pará. Viajar é seu grande barato?

– Eu gosto de encarar o que me aparece e tentar conhecer sempre novos lugares. Quero ir para todos os lugares, do interior do Brasil a Tóquio! É sempre muito bom conhecer sons e temperos, pessoas e músicas novas. Gosto muito de viajar de carro, já fui duas vezes para Buenos Aires assim. Na estrada, entro em várias viagens externas e internas, me abro para o mundo. E vou sem mapa, paro em qualquer lugar. Nessa viagem para o Pará, já vou com o figurino do personagem, me acostumando a ele, que tem uma história incestuosa.

com o diretor do projeto Latitudes, Felipe Braga, e a atriz Alice Braga, sua parceira na produção

– Não é a primeira vez que você vive um personagem incestuoso, né?

– Pois é, eu fiz um filme do Lírio (Ferreira) com Carol Abras (Sangue azul, ainda não lançado) no qual somos irmãos incestuosos e fiz A festa da menina morta, do Matheus (Nachtergaele), que era incesto entre pai e filho, ainda mais chocante. Foi uma coincidência, mas eu não evito temas polêmicos, gosto de uma visão crítica, principalmente pelo humor. O mundo não está tão feliz assim, o bicho está pegando, mas eu sou otimista por insistência, porque realmente a gente vê cada coisa por aí.

– Como é criar dois filhos neste mundo?

– Tem que ter fé para acreditar que vai viver legal, ser feliz e não fazer mal a ninguém. Passo todo amor para os meus filhos, que vão crescer e entender o mundo cada um a seu modo. Mesmo com a separação, mantenho minha relação com meus filhos muito forte. Para mim, é impossível deixar minhas crias. A relação com a Vanessa é tão boa, está tudo certo e claro que é só amor, então estou em paz. Quando apita o coração aqui, a Vanessa dá a maior força, ela sabe que a presença paterna é fundamental.

– Você já disse não para algumas novelas. Para um ator jovem como você, é uma grande conquista poder escolher em quais papéis quer atuar?

– Eu não sou contratado da Globo, então posso ver o que o coração manda, o que está na veia. Nesse sentido, isso pode ser considerado um luxo. Meu acordo com a Globo é por projeto, é um papo mais real. Quando tem um convite, eu analiso e vamos jogando com isso. Tenho uma relação muito boa com eles, graças a Deus, mas o cinema é o que atualmente mais vem acontecendo. Na tevê, as minisséries são melhores, pois o tempo é mais curto e permite outros projetos em paralelo. Às vezes, até dá vontade de fazer novela também, mas falta tempo.

– Você gosta do status de galã global?

– Para falar a real, nem penso nisso. Há tantos galãs que deixo isso para eles, vou no meu caminho mesmo. Tem gente que me acha bonito, mas tem gente que não me acha. Não penso nisso mesmo. Até porque as mulheres estão aí, e não somos nós que as escolhemos, elas é que nos escolhem. Elas estão anos-luz a nossa frente. Quando estamos indo, elas já estão voltando. E não estou nessa pegada de conquista, estou de coração aberto para tudo na vida. Às vezes, entro numa parada, que tem um jogo, aí vamos jogar também. De todo modo, tem que ter cuidado, afinal são relações vivas acontecendo.

– Você já sofreu muito por amor?

– Acho que como todo mundo; depois dos 30, quem não sofreu tem alguma coisa de errado, né?

– Você diz que é um cara de coração aberto. Por quantas mulheres já se apaixonou?

– Ih, esse papo está ficando muito íntimo, vamos falar mais do profissional. Já me apaixonei muitas vezes…

– Você acredita no casamento?

– Totalmente, fiquei oito anos casado. Enquanto estiver boa, a união é ótima. Tem gente há muito tempo junto. Tem gente que casa no religioso, no civil, mas o casamento é o dia a dia. Eu agora quero minha individualidade, buscar um espaço onde estou comigo mesmo. Isso dá uma boa maturidade.

Com a ex-mulher Vanessa Giácomo

– Falando de política, quais são suas bandeiras?

– Minhas bandeiras e as coisas nas quais acredito eu carrego na minha profissão. Minha parte está ligada à arte. Tem muita coisa que me revolta na vida, quando envolve criança então, muito mais. O mundo está todo interligado, tudo se passa em escala planetária. Hoje em dia, os movimentos estão aí, o trabalhador podia ganhar melhor, o transporte podia ser melhor e acho que muita coisa tem de ser revista. Eu votei na Dilma, mas acho que é difícil governar o Brasil. Ultimamente, perdemos a mão, com a inflação voltando, quem viveu a época da maquininha (de remarcação de preço) fica meio cabreiro com isso. Mas acho que tem um lado positivo, o Brasil teve uma série de conquistas.

– Você é a favor da descriminalização da maconha?

– Eu acho que alguma experiência nesse sentido deve ser feita. Agora tem o crack devastando grandes e pequenas cidades, onde lavradores trabalham o dia todo apenas para poder comprar a droga. Então tem que ver a postura em relação à droga, porque ela sempre vai existir e tem gente doente que precisa ser tratada. Mas não coloco tudo no mesmo saco não. Acho que a maconha deveria ter o lugar dela, assim como o álcool e o tabaco, drogas que considero equivalentes.

– Como você se relaciona com as drogas?

– Me relaciono bem (risos). Eu parei de fumar, mas às vezes não tem jeito, o personagem fuma e eu fumo junto. Agora mesmo, nessa viagem ao Pará, vou na estrada fumando. Mas minha saúde vem em primeiro lugar. Faço krav magá e jiu-jítsu. Então eu tenho que estar beleza, senão neguinho me atropela.

Daniel na troca de faixa do krav magá, a arte marcial criada pelos israelenses.

– E álcool?

– Graças a Deus não tenho essa aptidão. Tem gente que não pode beber um gole, mas não é o meu caso. De vez em quando, uma bebida faz bem. A cachaça mineira tem seu lugar, e gosto demais de vinho. Um vinho bom é uma bebida dos deuses, algo para ser apreciado. Eu acho que o caminho é tratar com respeito todas as drogas. Não sou maconheiro, já fumei, claro, mas o que me interessa é a coisa do ritual. No meu dia a dia, gosto de estar limpo, em um estado não alterado. Assim, entro mais em contato comigo mesmo e mantenho o foco. Mas, porra, sou ator e tenho vários amigos que usam (maconha) todo dia e tocam a vida perfeitamente, sem o menor problema.

– Você teve alguma fase da vida na qual buscou expandir a consciência com as drogas?

– Cara, eu não sei para onde vai essa entrevista, pois eu sou sincero e falo as coisas. E isso sempre dá pano pra manga: eu falo uma coisa para uma revista e apenas uma pequena frase é replicada nos sites totalmente fora do contexto. Isso dá a maior dor de cabeça. Então, prefiro deixar quieto, não quero sarna para me coçar.

– Você medita?

– Eu deveria, mas não. Mas criei um personagem chamado “Homem Lama”, que me levou para um estado parecido ao da meditação. Ele surgiu durante as filmagens de A festa da menina morta, do Matheus (Nachtergaele). Um dia fiz uma improvisação, fiquei em um cantinho tomando banho, e comecei a colocar lama no corpo todo, fiquei viajando, com panos e espelhos. Os anos se passaram e comecei a investigar esse personagem. Daí fomos, eu e mais dois amigos, para a Amazônia por cinco dias para filmar o “Homem Lama” lá. Achamos uma árvore enorme, e comecei a entrar na história, a me produzir. Tinha um cajado, uma saia. E tinha essa árvore enorme, uma castanheira, que tinha uma força de mãe. Eu ficava ali sentado, com a galera filmando, em posição de lótus. Aí entrei numa meditação que não consigo aqui,ao contrário de outros que atingem esse estado por trabalho e disciplina. Depois veio um momento de improvisação por um bom tempo.

– Como você lida com sua agressividade? Tem horas que explode?

– Dificilmente. Eu treino duas lutas, então gasto tudo ali (risos). Eu quero continuar fazendo essas atividades até morrer. Também gostei muito de saltar de paraquedas, o que fiz pela primeira vez outro dia. Fiz o curso teórico e saltei sozinho, com caras me acompanhando. Mas só quando puxei a cordinha é que realmente me senti sozinho. Foi uma maravilha, me senti um pouco pássaro. Eu continuo querendo experimentar a vida. É logico que às vezes pode ser perigoso. Eu mesmo, que tenho uma moto, uma BMW, fico bem esperto. Para cair é um pulo.

– Você se considera um cara rico?

– De jeito nenhum, sigo batalhando nessa vida. Não me amarra dinheiro, não, já passei por tanta dificuldade que não levo para esse lado. Acho que, se quisesse estar rico, eu até estaria, colocando a cara nas revistas, fazendo todos os programas de tevê que me chamam, entre outras paradas. Mas meu caminho é outro.

 – Ser lembrado como o cara que fez Cazuza é algo que o envaidece ou já começa a incomodar?

– Sem dúvida me envaidece. Tive muitas lições e aprendizados dessa experiência, de conhecer esse cara; hoje, às vezes me pego tendo saudade do Cazuza, sem sequer tê-lo conhecido pessoalmente. Eu gosto de ouvir suas músicas, vou gostar de ver meus filhos ouvindo esse cara. Ele enfrentou tudo de cara lavada, foi um poeta que teve uma vida digna de um poeta.

– Você é muito mais discreto do que Cazuza foi. Como lida com a fama, com a perseguição dos paparazzi?

– Às vezes, é muito indelicado, já discuti com repórter que aborda em momento totalmente inadequado. Aí sou pé no peito mesmo. Então, nesse nicho sensacionalista do jornalismo, é o que temos. E isso rende, tem quem compre e quem fomente esse tipo de droga. Nessa hora, eu procuro esquecer e compreender os tempos que estamos vivendo. Até porque, quando acontece com o outro, parece menor, quando acontece com você, parece maior. Então relaxa, é o que temos. Vou fazer minha parte, os paparazzi que façam a deles, de preferência rapidamente (risos).

Daniel em uma cena do filme,como Cazuza

– Você sofreu preconceito no teatro ou no cinema por ter feito Malhação?

– Não, graças a Deus nunca. Claro, preconceito sempre vai ter em todas as carreiras e tem gente que olha torto para quem faz televisão, mas é gente que não está enxergando o todo e precisa burilar a percepção para ver que a tevê é uma possibilidade boa também. Cada um tem suas escolhas, é preciso respeitar todas elas.

Daniel em uma cena do filme A festa da menina morta.

 – O que é um dia feliz para Daniel de Oliveira?

– Não precisa de muito, não (risos). O sorriso dos meus filhos é o suficiente. Eles são nosso futuro. No mais, quero valorizar as coisas que faço, todos os momentos, como essa entrevista que estamos produzindo aqui.