DAVID GUETTA NA LINHA DE TIRO

O DJ francês, um dos mais famosos do mundo, foi acusado de tocar playback e vive uma das piores fases de sua carreira. Ele sairá dessa?

 

por Carlos Messias

 

Eram 180 mil pessoas espalhadas por um gigantesco terreno descampado, na cidade de Boom, na Bélgica. Gente do mundo inteiro pulando, sem parar, ao som de mais de 400 DJs conhecidos internacionalmente, músicos do porte do holandês Tiësto, do sueco Avicii e do escocês Calvin Harris. Mas as atenções do público presente no Tomorrowland, o maior festival de música eletrônica do mundo, estavam voltadas para David Guetta, 45 anos, o mais estelar dentre todos os DJs do planeta. Ele subiu ao palco e, para o êxtase da multidão, pôs para tocar hits como “When Love Takes Over”, “I Gotta Feeling” e “Sexy Bitch”, além de remixes de faixas de outros artistas, como “Somebody that I Used to Know”, do belga Gotye. O som fervia e uma enxurrada de luzes e efeitos visuais contagiava ainda mais a plateia que cantava em uníssono. A própria figura do francês Guetta era contagiante. Como um popstar, dançava às batidas das músicas e tentava levantar o mar de gente erguendo os braços (mais do que qualquer outro DJ do festival). A cena se passou há um ano e, desde então, se tornou um fardo para o astro. Não é para menos: ele foi acusado por seus pares e pela crítica especializada de usar o bom e velho playback. Charlatão, desonesto, impostor, farsante foram alguns dos adjetivos jocosos que passaram a persegui-lo. E, no próximo dia 13, quando subir ao principal palco do Rock in Rio, ele terá de provar o contrário. Desmistificar essa imagem não será uma tarefa fácil.

Ninguém duvida do talento de Guetta, que, de acordo com a revista americana Forbes, é o terceiro DJ mais bem pago do mundo, com um faturamento anual de US$ 32 milhões em 2012. Mas, a julgar pelas suas últimas apresentações (ele faz, em média, dez por mês), ele se acomodou e, para o público que paga caro para ver suas performances, isso é inaceitável. Pior ainda é acompanhar o seu silêncio ensurdecedor diante das acusações. Alguns dos produtores musicais consultados por Status e que assistiram à lamentável apresentação de Guetta afirmam categoricamente que é impossível fazer algumas das viradas e mixagens que saem dos alto-falantes com as mãos fora da mesa de som por tanto tempo. Dá, inclusive, para ver todos os controles de volume abaixados, o que leva a crer que ele não tocava suas faixas ao vivo. O próprio festival Tomorrowland se pronunciou em defesa de Guetta quando surgiu essa controvérsia, alegando que aquilo tinha sido planejado com antecedência por causa dos shows pirotécnicos. No entanto, quando Sander Landsaat, empresário de Guetta, foi indagado sobre o ocorrido, a resposta foi outra. “A razão pela qual todos os faders (controles) estavam abaixados foi uma queda de energia.” O estranho é que ninguém mais viu isso.

A polêmica apresentação do DJ no festival Tomorrowland.

Com os botões de volume abaixados, o que mostra que ele estava usando playback

O fato é que essa promete ser a passagem menos prestigiosa do produtor pelo Brasil, já que virou saco de pancada entre as autoridades do meio. “Essa notícia não me surpreendeu. Vários produtores com esse perfil usam playback e agradam a quem curte a balada e não o DJ”, diz à Status o DJ paulistano de techno e house Mau Mau. Já o lendário DJ de house e disco Frankie Knuckles publicou a seguinte opinião na página da rádio americana Coco.FM: “Passei 40 anos desenvolvendo o ofício de DJ. Toda vez em que vou tocar, fico com medo. Mas nunca deixei isso levar o meu melhor a ponto de forjar uma farsa perante o público. Ele (David Guetta) é um popstar do calibre de Milli Vanilli (uma das maiores fraudes da história da música pop)”.

Recentemente, ainda aproveitando a polêmica, o site Wunderground, especializado em satirizar personagens do meio eletrônico, publicou uma brincadeira que traria uma justificativa médica para a grave falha do produtor. Segundo a página, “Guetta teria saído nada à francesa de uma apresentação em Paris no final de junho, depois de, acidentalmente, ter tocado um CD de autoajuda em vez de mais uma faixa pré-gravada do seu set. O motivo de ele portar um áudio desse teor, dizia a matéria, era que o DJ sofreria de corofobia (medo irracional de dançar e de ver os outros dançando). Por isso, ele estaria usando playback, pois o trabalho atrás das picapes seria das atividades mais angustiantes possíveis para ele.” Em resposta, o DJ francês ameaçou em seu Twitter processar o Wunderground. A reportagem de Status solicitou uma entrevista com o artista, por meio da gravadora Warner Music, que o representa no Brasil, porém não obteve retorno dele até o fechamento desta edição. Até agora, Guetta continua de boca fechada sobre as acusações. “Acho ótimo o público ficar sabendo que um DJ que ganha milhões sobe no palco só para levantar os braços e tirar fotos”, ironiza o mineiro Anderson Noise, responsável por trazer o techno para o Brasil.

 

Guetta com o cantor de R&B Usher

Com a cantora Fergie, do Black Eyed Peas

Com a rapper Nick Minaj

Recebendo o Grammy em 2010

 

Dominação Mundial

Nascido em Paris, Pierre David Guetta começou a tocar aos 13 anos na garagem da casa dos seus pais. No final dos anos 80, com pouco mais de 20 anos de idade, sem nunca ter tido um “emprego de verdade”, ele já se apresentava em pequenos clubes de Paris, como Rex e Folies Pigalle. Na época, ainda usava discos de vinil. “Minhas costas doíam, era terrível. Depois eu mudei para CDs”, disse Guetta ao jornal inglês The Independent. Hoje, carrega nada mais do que um pen drive de 32 gigabytes. Ainda no início da carreira, em meio a suas andanças pela noite parisiense, Guetta conheceu sua atual mulher, Cathy, uma bonita hostess e garçonete do Folies Pigalle. Começou aí uma parceria que extrapolou o campo pessoal. Em 1996, o casal, pais de Tim Elvis Eric, 9 anos, e Angie Guetta, 6,  lançou a festa F*** Me I’m Famous, uma das mais famosas e disputadas de Ibiza, a meca das baladas na Espanha. Até hoje ela acontece semanalmente durante o verão europeu e se tornou uma marca, com produtos licenciados que vão de camisetas a CDs.

Sua primeira grande oportunidade como produtor musical, entretanto, surgiu em 2001, quando gravou a faixa “Just a Little More Love”, com o americano Cris Willis nos vocais. A parceria rendeu um álbum de mesmo nome que revelou o DJ para o mundo e vendeu mais de 300 mil cópias. Mas o sucesso comercial viria por completo em 2009, quando Guetta trabalhou com a banda Black Eyed Peas. Naquele ano, o francês produziu duas faixas para The E.N.D., disco  do grupo americano. Lançada como segundo single, I gotta a feeling se tornou a música mais baixada da história dos Estados Unidos, com 7,5 milhões de downloads pagos, e atingiu o topo das paradas em 17 países. O hit também o levou a abrir os shows daquela turnê do Black Eyed Peas.

Aproveitando o embalo, Guetta lançou na sequência seu quarto álbum, One love (2009). O francês aceitou que will.i.am e apl.de.ap, do Black Eyed Peas, retribuíssem o favor participando da faixa On the dance floor, e contou com uma constelação de convidados como Akon, Kid Cudi, Ne-Yo, Dirty South e Kelly Rowland, que cantou no single e hit instantâneo When love takes over. Já fazendo uma linha bem mais pop, o disco foi indicado ao Grammy de melhor álbum de eletrônico e dance music, ficou entre os Top 20 em 24 países, vendendo mais de três milhões de cópias, e colocou o DJ para tocar em arenas lotadas mundo afora. O desempenho do seu lançamento seguinte, o ambicioso Nothing but the beat (2011), ficou aquém. Tratou-se de álbum duplo, com um disco contendo apenas faixas instrumentais e outro cheio de canções pop, com gente do calibre de rappers como Lil Wayne, Taio Cruz, Snoop Dog, Chris Brown, Flo Rida, User, Timbaland, entre muitos outros. Ainda assim, não ultrapassou dois milhões de cópias vendidas. Naquele ano, Guetta ficou em primeiro lugar na lista da DJ Mag, a bíblia da música eletrônica, que, em votação aberta na internet, elege os DJs mais populares do mundo. No ano seguinte, depois dos incidentes com o playback, caiu para a quarta posição. E neste ano Guetta passou a pedir para seus fãs votarem nele, via Twitter e site oficial – coisa que nunca precisou fazer. Agora, resta saber se ter a conta bancária recheada e ser o primeiro da lista serão o suficiente para apagar o constrangimento que tem passado.