X-9 ENGRAVATADO

Ele é tão ladrão quanto o político desonesto, a diferença é que um é ativo e o outro é passivo (não seja engraçadinho, não é isso que você está pensando). mas, enfim…

 

Por Monica Iozzi

 

Em 2012, produzindo uma matéria para o CQC, saí pelas ruas de São Paulo fazendo a seguinte pergunta aos transeuntes: “Qual escândalo de corrupção você classificaria como o pior da história do Brasil?”. Com exceção de um rapaz barbudo que citou o caso dos Anões do Orçamento e de uma velhinha horrorizada com as “macumbas” que o Collor fazia na Casa da Dinda, a maioria esmagadora dos entrevistados respondeu: “O MENSALÃO!”.

E agora somos apresentados a uma nova maracutaia. Desta vez, o cambalacho é do PSDB. Segundo matéria da revista IstoÉ, com base em documentos do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), houve superfaturamento de 30% em contratos da CPTM e do Metrô de São Paulo nas gestões dos tucanos Mário Covas, José Serra e Geraldo Alckmin. Por baixo, o esquema formado por empresas teria desviado R$ 425 milhões dos cofres públicos em 16 contratos de seis projetos analisados pela IstoÉ. Sim, mais um caso horrendo de corrupção. Novo assunto para a mesa do boteco, mais políticos para xingar no Facebook, mais uma desculpa para petistas e tucanos poderem se engalfinhar até a morte! Mas, e aí, minha gente? Vamos fazer o que com mais essa?

Temos números, manchetes, nomes, valores. Mas, sei lá… Vamos deixar essa parte coxinha dos acontecimentos um pouco de lado? Nós precisamos nos aproximar da corrupção. Tirar esse decoro, essa pompa. A corrupção não é almofadinha. É podre! Temos que mergulhar na corrupção! Vamos ter é que chafurdar nessa porcaria toda! Vamos libertar o Maluf que existe em cada um de nós! Vamos aos resultados! Vamos traduzir a corrupção. Vou me ater a este último acontecimento: PSDB, PROPINA E METRÔ. Mas, além dos homens nos cargos públicos, também existe outro tipo de marginal envolvido nesses crimes. É uma espécie mais refinada de criminoso, o delinquente alto executivo.
Presente na Siemens (como em tantas outras corporações, inclusive na qual você trabalha), essa espécie de indivíduo imoral consegue cometer suas atrocidades sem maiores obstáculos. Quando algo dá errado, ele se antecipa, denuncia os comparsas às autoridades em troca de imunidade e pronto. É o X-9 engravatado. Ele é tão ladrão quanto o político desonesto, a diferença é que um é ativo e o outro é passivo (não seja engraçadinho, não é isso que você está pensando). Mas, enfim…

Concluindo a minha tradução, esses homens nos roubaram, amigos. É por causa desse tipo de gente sem escrúpulos, desses incompetentes viciados em propina, que ficamos horas presos no trânsito, que as escolas não funcionam, que a telefonia e a internet são uma piada, que metade das casas de Belém do Pará não tem água nem esgoto encanados, que as pessoas se agridem pra conseguir entrar no trem, que doentes têm que mudar de Estado para conseguir tratamento, que o asfalto parece de areia, que a seca ainda faz vítimas no Nordeste, que Orlando Francisco Silva morreu numa rua do centro de Porto Alegre porque a ambulância não chegou.

Bom, vou finalizar por aqui porque não sei mais para onde estou indo. Esse tipo de acontecimento me deixa atordoada, sabe? Vou tentar uma conclusão… A corrupção tem que ser mais que manchete, tem que ser sentida, tem que ser gritada. Ficou exagerado, meio confuso e melodramático, né? Eu sei. É que o negócio todo também anda assim. Estamos precisando ser mais melodramáticos mesmo.
PS: Não vou contextualizar a seguinte citação. Apenas leia, ok?

“A fim de ver o mundo, temos de romper com nossa aceitação habitual a ele.” (Maurice Merleau-Ponty, filósofo francês, 1908 – 1961)