À PROCURA DA BUNDINHA PERDIDA

A aventura de um velho fotógrafo que foi atrás de uma antiga namorada só para capturar a imagem que nunca saiu de sua memória.

 

Por Reinaldo Moraes

 

– Alô? Lenora?
– Fred! Que bom ouvir sua voz! A gente só se fala por e-mail agora, né?
– Pode crer. Falando nisso, viu meu último e-mail?
– Hahaha! Vi. Cê continua maluquinho, né, Fred?
– Com a graça do divino. Ó, daqui a pouco eu tô aí de Instamatic na mão, falô? A mesma da primeira vez. Lembra da minha Instamatic?
– Não.
– E das fotos, lembra?
– Claro! Você me deu depois um álbum com as melhores fotos. Faz o que, isso? Uns 50 anos? 60?
– Por aí.
– Era um álbum secreto. Meu marido achou. E o casamento acabou ali mesmo. Devo essa a você.
– Pelo menos ficou livre daquele fazendeirão tosco. Olha aqui, Lenora, vai ser jogo rápido, tá? Quero refazer só uma daquelas fotos. Uma só: você pelada, de pé, meio de costas, meio de lado pra câmera, mostrando um peitinho e olhando pela janela aberta. Como aquela que a gente fez na praia, em 52.
– Que praia, que nada, Fred! Não vou à praia nenhuma posar pelada pra você. Tem cabimento?! Nos meus quase oitentinha? E aquele “peitinho” já era faz tempo. Ficou numa sala de cirurgia. Junto com os peitos da Angelina Jolie.
– Jura? Então, não precisa ficar de lado. Fica só de costas. Não ri, porra! Quero uma foto da sua bundinha vintage.
– Minha bundinha não é vintage, meu amor. É póstuma.
– Que póstuma o quê! Você é eterna, Lenora. Posso passar aí, então? Com a Instamatic? Levo um vinho também.
– Passar aqui? Cê esqueceu onde eu tô, Fred?
– Numa casa de repouso em Jaguariúna. Em duas horas eu tô aí. Vamos fazer uma foto divina maravilhosa no seu quarto, você olhando pela janela, de bunda pra mim.
– Nem pensar, Fred. Não vou mais mostrar a bunda pra ninguém.
– Pô, Lenora. Meia dúzia de cliques, e eu vou embora. Prometo!
– Espera mais umas semanas. No máximo mais uns dois ou três meses. Aí você me fotografa quanto e como quiser. Eu, pelo menos, não vou reclamar, ali no caixão, quietinha.
– Que é isso, Lenora?
– Que é isso? Chama-se câncer. E já tava mais do que na hora. Não quero emplacar 90 fazendo xixi no fraldão e recitando batatinha quando nasce.
– Você é indestrutível, Lenora. Sangue de bandeirante com alemão. Osso duro de roer.
– Os vermes conhecem seu ofício, querido. Já roeram muito osso de bandeirante e de alemão. E de italiano, espanhol e português também. Aliás, com quantos anos você tá mesmo, Fred?
– Esquece, Lenora. Estamos falando de você. Eu só quero refazer a foto que a gente fez seis décadas atrás, só isso.
– Pra quê?
– É que eu sempre fotografei todas as minhas namoradas nuas. E agora, depois de velho, me deu na telha de fotografar todas elas de novo. As vivas, pelo menos.
– E vai fazer o que com as fotos?
– Sei lá. Uma exposição. Sem aparecer a cara das mulheres. Só as bundas, antes e depois.
– E como vai chamar a exposição? “À procura da bundinha perdida”?
– Puta ideia! Vou usar. Com a devida licença do Proust. E sua.
– Fred?
– Fala, meu amor.
– Você ainda tem aquela foto? A da bundinha?
– Claro. Tá pendurada aqui em casa. Que fruta deliciosa. Todo dia bato uma pra ela.
– Mentira!
– Te juro. Recomendação do meu urologista.
– O seu urologista lhe recomendou se masturbar olhando pra minha bundinha?
– Ele disse pra eu manter as gônadas e a próstata sempre vazias. E nada melhor que a sua bundinha pra me inspirar.
– E o que tanto você vê numa bunda, Fred?
– “A bunda, que engraçada. Está sempre sorrindo, nunca é trágica. Não lhe importa o que vai pela frente do corpo. A bunda basta-se. A bunda se diverte por conta própria. E ama. Na cama agita-se. Montanhas avolumam-se, descem. Ondas batendo numa praia infinita. Lá vai sorrindo a bunda. Vai feliz na carícia de ser e balançar, esferas harmoniosas sobre o caos. A bunda é a bunda, redunda.”
– Nossa! Que barato! Isso é seu?!
– Do Drummond. São trechos de um poema dele. Uma ode à bunda.
– O Drummond fez poema sobre bunda?!
– Vários.
– Inacreditável.
– Procê ver. Se até o Drummond era ligado em bunda, por que não eu, um pobre e anônimo fotógrafo amador?
– Amador de bundas.
– Isso aí, Lenora. Amador da sua bundinha perfeita, ideal, funcional.
– Que bundinha funcional, o quê, zé-mané! A única coisa que continua funcionando ali é o cu. Esse ainda não caiu, graças a Deus. E me presta bons serviços todo dia.
– Recomendações ao senhor seu cu. Mas o que eu quero ver e fotografar de novo é a sua bundinha, Lenora. Encare isso como uma homenagem ao nosso amor eterno.
– O amor não gosta dos velhos, Fred. Nem as bundinhas. Elas vão embora e deixam pra trás só um saco de osso e pelanca, mais nada.
– Lenora, tô passando aí, ok? Com a minha velha Instamatic, a primeira máquina que eu tive na vida. Com a qual eu fotografei a primeira bundinha que eu amei na vida: a sua.
– Cê tá falando sério, Fred?
– Tô, pô!
– Fred, vai bundar com o Frederico. E, ó, vou desligar, que eles já vão servir a canja. Bye!