A LOLITA DE ACAJU

Armandinho se viu divorciado, sem companhia e louco para fazer o que nunca tinha feito durante os seus 20 anos de casamento. A saída foi buscar um site de relacionamento cheio de gatinhas (e gatonas!)

 

por Tom Cardoso

ilustração Charles Oak

 

Eu me divorciei há alguns meses, depois de 20 anos de casamento, três filhos e centenas de discussões de relação, as chatíssimas DRs. Assim que saí de casa, levando apenas a escova de dentes – o duplex no bairro de Moema, em São Paulo, ficou com a ex –, fiz o que todo homem recém-separado, na casa dos 40, deve fazer: cair na farra. O João, um amigo solteiro convicto, que mora num flat nos Jardins – e para onde eu também me mudei –, disse que eu não deveria perder tempo assediando mulheres mais jovens em barezinhos da Vila Madalena e da Vila Olímpia. Se eu quisesse mesmo recuperar o atraso, compensar as duas décadas em que me vi privado de transar com quem eu quisesse, incluindo minha cunhada e as amigas da minha mulher, que me cadastrasse logo num novo site de relacionamento.

O Lolitapontocom era o endereço onde encontraria mulheres classe A, esculpidas em sessões diárias de drenagem linfática e em bisturis manuseados pelos melhores cirurgiões da cidade. O meu amigo garantiu que 90% das mulheres do Lolita tinham barriga “negativa” e 85% tinham silicone no bumbum e nos seios. A chance de deparar com uma baranga era praticamente nula. E todas estavam ali para dar sem culpa – e no primeiro encontro. O João até brincou: “Você vai ficar tão enjoado de trepar que, em seis meses, vai sentir até falta do casamento.”

E lá fui eu fazer o cadastro. Primeiro, preenchi a minha ficha. Moreno claro, 42 anos 1,82 m, 78 kg. Tinha passado dos 80, mas até o primeiro encontro daria um jeito de perder três ou quatro quilos. Meu amigo havia passado todos os passos da dieta detox, o regime da moda, e garantira que em 20 dias, à base de sopa de arroz integral e açafrão, eu ficaria com o corpo do Paulo Zulu (sempre achei esse meu amigo, apesar de mulherengo, meio veado). Coloquei também minhas preferências – os filmes, os restaurantes, os livros, as viagens inesquecíveis – e escolhi a frase que estaria abaixo da minha foto (eu, de sunga, me preparando para um mergulho em Fernando de Noronha): “Carpe Diem”. A frase batida quer dizer, em latim, algo como “Viva o Momento”. Um eufemismo para “Dá logo pra mim”.

Depois de colocar os meus dados, foi a vez de escolher com que tipo de mulher eu gostaria de me relacionar. Tentei ser o mais abrangente possível, com poucas restrições. Apenas na idade eu fiz questão de deixar claro que preferia mulheres acima de 30 anos. De 30 a 40. O meu amigo achou que eu havia começado mal. “Porra, com tanta gatinha nova dando sopa você vai escolher as balzaquianas?” Eu sempre preferi mulheres mais velhas. Perdi minha virgindade aos 16 anos, com a minha professora particular de inglês. Ela tinha 35. Foi com ela que eu aprendi tudo.

Depois de quatro dias conversando com cerca de 30 mulheres, escolhi a minha primeira presa. Maria Lúcia, 39 anos, analista de sistemas, separada e com um filho de 20. Uma morena linda. Fiquei apaixonado logo na primeira foto. Ela aparecia em Miami, de biquíni. Um tesão. Disse que havia sido abençoada pela natureza, por ter cintura fina e bunda grande, mas que mesmo assim se cuidava: além da academia diária, fazia pilates, lutava boxe três vezes por semana e, toda vez que percebia que estava engordando um pouquinho, apelava para a tal dieta detox. Conversamos sobre o quanto era duro comer sopa de arroz integral, mas que no final valia a pena. Éramos dois sarados, não aparentávamos a nossa idade. E nem foi só a beleza física que me atraiu em Maria Lúcia. Ela era safada. Falava de sexo com uma naturalidade, com uma segurança – e era bem resolvida. Fiz um questionário sexual pra ela, com pontuação e tudo. Quanto mais pontos ela ganhasse, mais safada ela era. Dos 100 pontos possíveis, fez 98. Topava tudo, quer dizer, quase tudo. Só não queria ouvir falar de dupla penetração. Mas isso não tinha a menor importância. Só eu mesmo ia levá-la para a cama.

Fui me apaixonando pela Maria Lúcia. O que era, segundo o João, uma bobagem minha – o Lolita não era para apaixonados, e sim para promíscuos. O objetivo era quantidade – com qualidade. Mas eu nem lia mais a minha caixa postal. Chegava em casa ansioso para falar com a Maria Lúcia. Conversávamos direto pelo Skype. Eu pedi para ela ligar a webcam, mas ela disse que perderia toda a graça. Que a gente permanecesse até o dia do nosso encontro sem se ver – no máximo trocando algumas fotos. E ela mandava uma melhor do que a outra. Mandou uma com piercing nas partes íntimas. Disse que tinha colocado só para me provocar. E que eu seria o responsável por lustrar o erótico apetrecho. Conversávamos pelo telefone. Passávamos madrugadas inteiras papeando. Ela tinha uma voz de mulher madura e, ao mesmo tempo, provocante. Gozei várias vezes ao telefone.

Marcamos, enfim, o nosso encontro. O restaurante japonês mais badalado de São Paulo. Reservamos uma cabine só pra gente. No caminho, fui imaginando a Maria Lúcia deitada, nua, no tatame e eu a lambendo, beijando-a com gosto de shoyu Sakura. Ela me mandou uma mensagem. Já estava lá. Entrei no restaurante. Fui levado à última cabine, nos fundos – o que achei bem apropriado. Entrei e me deparei com uma mulher de tailleur vermelho, cabelo acaju e com colar de pérolas – parecia uma das amigas de carteado de minha mãe. Não devia ter menos de 65 anos. Pedi desculpas pelo engano, alguém havia me indicado a sala errada. Mas uma voz, inconfundível, ecoou na cabine: “Armandinho, sou eu, a Maria Lúcia. Me perdoa, amor?”