MATT DAMON

Foi chamado de louco quando abandonou o curso de Letras na Universidade de Harvard, em 1991, faltando apenas um ano para a sua formatura. Mas o jovem de apenas 21 anos sabia o que estava fazendo. Como queria construir uma carreira no cinema, ele decidiu escrever “Gênio Indomável’’, com o qual ganharia tempos depois, em 1998, o Oscar de melhor roteiro original – em parceria com o amigo Ben Affleck. O prêmio foi o que bastou para Steven Spielberg chamá-lo para filmar “O Resgate do Soldado Ryan’’, o que desencadeou um convite atrás do outro em Hollywood. Com cachê nafaixa de US$ 15 milhões, conquistado graças ao sucesso da trilogia na pele do agente Jason Bourne, Damon é hoje um dos melhores e mais requisitados atores de sua geração.

 

por Elaine Guerini, de Los Angeles

 

 

Você é casado com uma argentina (Luciana Barroso) e é ex- aluno da Cambridge Ridge and Latin School, uma das escolas mais liberais e abertas aos imigrantes dos EUA. Isso influencia a sua visão sobre a polêmica das leis anti-imigração, um dos temas do subtexto político de Elysium?

– Certamente que sim. Nunca me esqueço da minha formatura na Cambridge, em que o diretor disse durante o seu discurso de abertura que 160 países estavam representados no nosso corpo discente. Alguns meses mais tarde, fui para Harvard, onde o presidente se gabou de ter 75 países representados. Aquilo não era nada (risos). Por ser uma nação de imigrantes, os EUA precisam descobrir urgentemente como lidar com isso. Mas os políticos sempre evitam o assunto, por temerem agradar a uns setores e desagradar a outros. Tanto democratas quanto republicanos estão perdidos. Tudo o que os republicanos fazem é mandar Marco Rubio (político de ascendência cubana) falar espanhol com o povo (risos).

Vê Elysium como metáfora da sociedade atual?

– O meu personagem é um cara com quem a plateia poderá facilmente se identificar. Ele faz o melhor que pode num mundo cada vez mais difícil de ser habitado. De uma forma ou de outra, todos somos afetados por essa prolongada crise econômica. É como se alguém estivesse apertando o nosso pescoço lentamente, com cada vez mais força.

Se o mundo fosse como no filme, você certamente estaria entre os cidadãos de Elysium.

– Sim. Eu e os jornalistas também (risos). Para um cara que ganha um dólar por dia, não há diferença entre um jornalista e eu. Sei muito bem o que é não ter dinheiro sobrando. Os valores que tenho, com os quais fui criado pela minha mãe, uma professora, são consistentes até hoje. Fui um garoto da classe média baixa. O fato de eu ter passado dificuldades financeiras moldou a minha personalidade de uma maneira que, mesmo tendo dinheiro hoje, sou a mesma pessoa. Talvez o mesmo não aconteça com aqueles que nascem em berço de ouro. Muitos deles chegam ao absurdo de não querer pagar impostos (risos).

O mesmo poderia acontecer com as suas filhas, não (Damon é pai de três meninas e tem uma enteada)?
– Espero que não. No meu caso e no da minha mulher (que era garçonete antes de se casar com o ator), nós nos esforçamos para que isso não aconteça. Assim como minha mãe me levou para conhecer o México e a Guatemala de ônibus, quando eu era adolescente, nós viajamos muito com nossas filhas. Queremos que elas vejam o mundo e como vivem as outras pessoas. Isso me deu uma perspectiva mais ampla do mundo, algo que quero passar adiante.

 

Damon é casado com a argentina Luciana Barroso e é pai de quatro crianças.

Aqui o seu personagem se apaixona pela personagem de Alice Braga, que é brasileira. E você se casou com uma argentina… O que há, afinal, de tão especial na mulher latina?

– Não sei se consigo explicar por que as latinas me atraem tanto, o que é verdade. Luciana é realmente especial – não só por ser latina, mas por outras qualidades. Ela é uma mãe incrível e uma mulher maravilhosa. Não sei se isso tem a ver com o seu sangue latino, mas Luciana tem uma grande paixão pela vida, o que me deixou louco por ela. Não consigo me ver casado com outra pessoa.

 

Na produção, ele contracenou com os brasileiros Alice Braga e Wagner Moura.

Embora leve uma vida muito família, você ainda deve ser assediado pelas mulheres. Será que isso pode piorar após as suas cenas sem camisa e com o corpo todo esculpido em Elysium?

– Não! Quando me lembro das cenas eu só consigo pensar na fome que passei para ficar com aquele corpo (risos).

Você não se olhou no espelho e não se achou mais bonito, com o corpo sarado?

– Não. Achei engraçado e até ridículo. Não sou tão narcisista assim (risos). Vejo mais como um truque de cinema. Fiz por entender que eu precisava daquele visual para estabelecer o personagem. Meu corpo não podia ter qualquer sinal de gordura, já que o cara trabalha duro, já foi preso e provavelmente não faz todas as refeições por dia. Por mim, eu ficaria sempre com os personagens mais gordinhos (risos). Eu adoro comer e não consigo me imaginar passando quatro horas por dia na academia. Tenho mais o que fazer.

Em forma Para viver o papel de um operário no filme Elysium , Damon teve de passar por um rigoroso regime.

Quando terminou de filmar Elysium, qual foi a sua primeira refeição?

– Fui correndo comer um hambúrguer. É o meu calcanhar de aquiles (risos).

Há uma febre atualmente de seriados e de grandes produções para a tevê, com grandes atores migrando da telona para a telinha. Um dos motivos seria a temática mais audaciosa e arriscada na televisão – diferentemente do cinema, que trabalha com foco mais direcionado ao público adolescente. Você concorda? Foi isso que o atraiu no telefilme da HBO Behind the Candelabra (estreia no Brasil em outubro), interpretando o músico que namorou Liberace?

– Sim. Muitas vezes, a tevê pode ir mais longe que o cinema por não limitar a sua audiência com classificação indicativa. Aqui foi fascinante resgatar a dinâmica louca e absurda do relacionamento de Liberace (vivido por Michael Douglas) e o músico Scott Thorson, que terminou com um longo processo judicial. Assim como Steven Soderbergh (o diretor) viu o potencial dessa história, eu fui atraído pelo desafio. É o tipo de personagem que já começa com uma grande desvantagem, por cair facilmente na caricatura e no exagero.

O fato de o personagem ser homossexual também pesou, por ser algo novo em sua carreira?

– Não necessariamente. Quando Steven me chamou, ele disse que queria fazer um filme sobre a intimidade de um casal, deixando o espectador com a impressão de que ele não deveria estar presenciando nada daquilo. Por acaso, os amantes seriam dois homens, mas poderiam ser um homem e uma mulher ou duas mulheres. O fato de o meu personagem ser homossexual não foi um atrativo, mas obviamente deixou a composição mais interessante, por tornar todo o universo mais extravagante.

O que o Oscar representou na sua vida?

– Foi um marco importante. Gosto de olhar para trás e me dar conta de que éramos garotos naquela época. Hoje Ben e eu somos homens casados e com filhos (Affleck é casado com a atriz Jennifer Garner e pai de duas meninas). Minha maior satisfação é perceber que trilhei o caminho que queria e que até hoje ainda ganho a vida fazendo o que mais gosto.

Cenas de Gênio indomável, filme que o catapultou ao estrelato.

Identidade Bourne, um dos sucessos da trilogia em que vive o agente Jason Bourne

Você é muito amigo de Ben Affleck, George Clooney, Brad Pitt e outros atores de Hollywood. Não há espaço para mulheres nesse clube?

– Tenho, sim, uma rede de amigos que conquistei nesse negócio. Mas eles não são todos homens. O casal Emily Blunt e John Krasinski (mais conhecido pela série “The Office’’) é a mais nova aquisição do clube. Emily, John, minha mulher e eu saímos sempre para jantar. Talvez essa seja uma das maiores dificuldades da vida de casado.

Qual?

– Encontrar um casal bacana para sair e se divertir. Não dá para passar a noite falando só de crianças (risos).