ROLETA DA CONQUISTA

Quer tentar a sorte? São 15 mulheres e quatro minutos para conversar com cada uma. O repórter de Status entrou disfarçado em um evento de speed Dating e conta essa experiência.

 

por Gilberto Amendola

 

Um cupido de asa encardida toca o sino. Sinal que o tempo acabou e eu preciso trocar de mesa. Quase sem me acomodar na cadeira, ou mesmo ler o nome da garota no crachá, ouço a pergunta fatídica: “O que é que você quer da sua vida?”
– Oi?
– Oi! O que é que você quer da sua vida?

Congelo. Faço cara de paisagem e penso que ainda tenho 3 minutos e meio para tentar responder à questão que nenhum outro homem na face da Terra conseguiu responder a contento.

Mas antes de continuar, preciso retroceder no tempo e contar como é que eu me coloquei nessa situação delicada. Impossível não pensar no personagem de Steve Carrell em O virgem de 40 anos enquanto me preparo para participar de um Speed Dating. Você já ouvir falar nisso, não é? Trata-se de um evento que promove encontros entre solteiros, pessoas que estão procurando companhia, um namorico mais quente ou até mesmo um grande amor. Assim como no futebol, a regra é clara: um grupo de 30 pessoas (15 homens, 15 mulheres) se encontra em um bar, restaurante ou salão de festas. Lá os participantes têm a oportunidade de falar individualmente com cada garota, mas, atenção, por apenas 4 minutos. Se o santo bater, rolar uma química e coisa e tal, você pode se dar bem e sair do evento com um relacionamento engatilhado (seja lá em que nível for). Vergonha alheia? Eu achava. Mas topei o desafio. O primeiro passo foi me inscrever no site (www.speed
datingbrasil.com.br), desembolsar cerca de R$ 90 como taxa de inscrição e, claro, aguentar a “tiração de sarro” dos amigos. “Só vai ter baranga”, vaticinaram dez entre dez conhecidos que souberam da minha aventura. Na verdade, sei que vai soar machista, mas eu pensava isso também. Que tipo de pessoa procura esse evento? Quem precisa apelar desse jeito? Não é melhor enfrentar uma balada comum, tomar duas cervejinhas e tentar a sorte como um sujeito normal? Pois é…
A hora da verdade

O evento do qual participei aconteceu no bairro da Mooca, na zona leste de São Paulo. Logo de cara, fui recepcionado por um sujeito fantasiado de cupido, que me entregou um crachá de identificação. Os homens ficavam esperando em uma espécie de recepção enquanto as garotas eram encaminhadas direto para um salão. Constrangido, conheci alguns dos meus colegas de Speed Dating. A maioria estava acima dos 40 anos, era desquitada ou recém-saída de um relacionamento sério. A principal desculpa da turma era: “Estou aqui por curiosidade”. Mas também ouvi coisas como “não tenho nada para fazer em um domingo à noite” e “não tenho mais saco para balada”. Um dos participantes me confessou que estava lá porque todos os seus amigos tinham se casado recentemente ou estavam namorando sério – e que não tinha mais companhia para sair. Achei honesto e até torci para que ele se desse bem naquela noite. Um outro participante mais empolgado esfregava as mãos e perguntava: “O que será que tem para a gente hoje? Será que vai ter alguma mulher bonita na parada”?

Para a minha surpresa, tinha mulher bonita, sim. Vou repetir: tem mulher bonita no Speed Dating. Só de acompanhar a chegada delas já deu pra sacar o grande barato que é a diversidade de estilos: altas, baixas, morenas, loiras, negras (não tinha ruiva, droga!), cabelos lisos, enrolados, magrinhas, fortinhas, com menos de 30 ou mais de 50 anos… Todas, é claro, bastante elegantes – com aquele jeitão de quem passou horas se arrumando para o evento. Eis que, de repente, do deleite fez-se o pânico! Vejo chegar uma participante que, tenho certeza absoluta, conheço de algum lugar. Meu Deus, que zica! Penso em desistir, mas, antes de tomar qualquer decisão, o cupido toca a sineta. Vai começar o evento. Não posso mais fugir.

 

De mesa em mesa

Antes de começar a via-sacra pelas mesas, sou convidado para uma espécie de “esquenta”. O cupido propõe um “bingo de relacionamento”. Cada participante recebe um pequeno papel com o seguinte pedido: “Encontre alguém que…”. Cada papel vinha com cinco itens, quem
encontrasse cinco pessoas que se encaixassem neles ganhava a brincadeira. Tive que encontrar mulheres que, por exemplo, já haviam jogado bocha ou vendido produtos da Herbalife. Do mesmo jeito, algumas participantes me perguntaram se eu já havia dançado ao som de Lady Gaga ou se gostava de música sertaneja (argh!!!). Teve uma que me perguntou se eu me achava parecido com alguém famoso. Respondi com naturalidade: George Clooney. Ela não entendeu a piada e foi desclassificada por mim antes mesmo da coisa toda começar pra valer. Ah, durante esse “esquenta”, tentei evitar a participante que eu achei que conhecia de algum lugar.

Ainda um pouco tímido e constrangido, vejo o cupido chacoalhar novamente o sino. Agora, a Speed Dating iria começar para valer. Eu teria que pular de mesa em mesa (15 mesas!) e tentar, em 4 minutos, convencer alguma garota (ou algumas) de que eu era um cara bacana, que estava longe de ser um potencial serial killer, e que poderia ser, sim, um namorado razoável. No começo, a sensação é a de passar por uma série de entrevistas de emprego – pelo menos se a sua intenção for a de pegar a diretora do RH. Você senta na frente da pretendente e começa a falar sobre você, das coisas que você gosta, se tem filhos, no que trabalha, etc. e tal. Ou seja, o básico do básico. Se a conversa engrena, os 4 minutos passam voando. Agora, se rola uma antipatia… os 4 minutos parecem uma tortura de 4 horas.

os participantes mudam de mesa e engatam conversas com as mulheres. No fim, todos escrevem o que acharam dos candidatos em uma ficha de avaliação para depois receberem um e-mail de contato

Não é difícil sacar se você está agradando ou se a garota na sua frente está sendo apenas simpática. Conversei com dentistas, bancárias, corretoras de imóveis, maquiadoras, publicitárias e professoras (tinha uma que dava aula de filosofia). Todas bastante receptivas, mas a maioria não conseguia disfarçar um certo desconforto quando eu confessava não saber dirigir (sim, eu não sei dirigir). Uma delas, bem bonita até, deu uma risadinha nervosa, e deve ter me considerado a última opção em termos de parceiro sexual. Também teve uma japonesinha que virou pra mim e soltou um “Fala qualquer coisa, vai. Tô aqui por causa de uma amiga que não veio. Não repara”. Pois é, não reparei.
O papo pode até parecer meio coxinha, mas em uma situação dessas não convém passar certos limites. Por exemplo, perguntas polêmicas, como quais seriam as posições políticas e sexuais preferidas da moça, estão fora de cogitação. O segredo é conseguir manter uma conversa no melhor estilo papai-mamãe. Sem sustos. Claro que, ao pular de mesa em mesa, alguns papos saem da curva. Uma das participantes, por exemplo, era fã de Star wars – e passamos mais da metade do tempo discutindo a qualidade dos três últimos filmes da série. Em outra mesa, uma mulher madura olhou nos meus olhos e disse que a vida dela estava começando naquele instante. “Acabei de me separar. Quer dizer, estou sozinha há seis meses.

Mas agora quero encontrar alguém legal e começar a sair outra vez.” Tive medo. Acho que, embora tenha sido a minha primeira vez, posso até dar algumas dicas aos interessados em participar do evento. Por exemplo, mesmo que você não goste, evite falar mal de crianças. Pelo menos no dia em que participei, muitas tinham filhos – uma delas até se emocionou ao falar do menino. Outra coisa: em nenhuma hipótese comece uma conversa com “você é tão linda, o que está fazendo num lugar como esse?”. Pega mal e elas se sentem diminuídas – e você vira carta fora do baralho imediatamente.

 

Papo rápido

Um dia após minha participação no Speed Dating, liguei para o coordenador de comunicação do evento, Ivan Viveiros, 29 anos. Para minha sorte, ele recebeu a notícia de que um repórter havia se infiltrado em um dos eventos com simpatia. “Se você é solteiro, deve ter aproveitado de verdade”, brincou.

O Speed Dating Brasil existe há três anos e meio. O evento já era sucesso na Europa e principalmente nos EUA – onde está totalmente integrado à cultura pop, sendo muitas vezes retratado em filmes e seriados de tevê. “Hoje, realizamos oito eventos por mês, com uma média de 30 participantes por reunião. No começo foi difícil mostrar que o Speed Dating podia ser uma alternativa para quem quer encontrar alguém legal e não tem mais paciência para balada”, conta Viveiros. “Hoje temos eventos em São Paulo, na região do ABC e em Campinas, no Rio de Janeiro e, em breve, estaremos em Curitiba e Belo Horizonte. Esse é o tipo de serviço que funciona em cidades grandes, com mais de um milhão de habitantes. Em cidades pequenas, acredito que as pessoas já se conheçam normalmente.”

Pode parecer improvável, mas as mulheres são as principais clientes do Speed Dating. “Principalmente as mulheres a partir dos 35 anos. Nessa faixa etária, elas formam uma maioria expressiva em relação aos homens”, conta Viveiros. Segundo ele, o próprio valor do evento (cerca de R$ 90) acaba qualificando o público. “As mulheres são graduadas, universitárias, inteligentes e, sem dúvida, estão procurando homens com as mesmas características”, diz. “Normalmente, os homens querem saber se as mulheres são bonitas; e elas preferem saber se os homens são inteligentes, interessantes ou bem-sucedidos”, comenta. Viveiros fala que casais já se formaram depois de se conhecerem nas mesas do Speed Dating. “Casais que hoje já têm filhos”, observa. Além disso, lembra do dia em que um participante pediu para ir embora antes mesmo de o evento começar. “Ele tinha visto a ex-mulher em uma mesa do evento. Já pensou? Eles se encontrarem lá? Isso também pode acontecer”, brinca.

 

Ô, dúvida cruel

Ah, e como adiantei lá no comecinho, uma das candidatas a namorada quis saber o que eu queria da vida.
Ô, dúvida cruel. O que eu quero da minha vida?
Respondi de forma honesta: “Não tenho a menor ideia”.
Surtiu algum efeito? Não. Achei que a moça iria se interessar mais pelo advogado que conversaria com ela 4 minutos depois de mim.
Perto do final, depois de passar por 12 mesas, ter gasto muita saliva e ter me esforçado para parecer interessante (acredite, é difícil ser totalmente natural em situações como essa), eis que chega o momento de me sentar em frente à mulher da qual eu desconfiava ter visto em algum lugar.
Pensei rápido e arrisquei.
– Então, qual reportagem vai sair primeiro: a minha ou a sua?Acertei.
Eu não era o único jornalista disfarçado ali. Havia uma colega de profissão, que trabalha em tevê, realizando a pré-produção de uma reportagem. O mundo é pequeno, mas a pauta é mais. Disfarçamos a vontade de rir. A organização do Speed Dating sabia da presença dela (não posso revelar nome ou canal de tevê), mas não desconfiava da minha. Então, mantivemos as aparências. Será que tinha mais alguém fingindo ser o que não era? Acho que não. No final do evento, cada participante, homem e mulher, entregou uma folha de papel com os nomes de cada pessoa com quem havia conversado. Ao lado dos nomes, era possível marcar “sim”, “não” ou “talvez”. Se duas pessoas marcassem, de forma recíproca, “sim” ou mesmo “talvez”, a organização trocaria os contatos de e-mail entre os pares. Você pode marcar “sim” e “talvez” em quantas mulheres quiser. Bom, fiz minhas opções e esperei. Ansiosamente!

O speed dating já acontece em cidades como São Paulo, Campinas e Rio de Janeiro. Os próximos destinos são Belo Horizonte e curitiba

 

Dia seguinte

Ok, mesmo que não tivesse participando por motivos emocionais, fiquei na expectativa da “não rejeição”. Ou seja, ansiei pelo e-mail do dia seguinte, aquele e-mail que iria me dizer quantas mulheres, pelas quais eu havia demonstrado interesse (assinalado “sim” ou “talvez”) também tinham ido com a minha cara e cogitado até me dar uma chance. Esperei. Cliquei em enviar/receber umas mil vezes até que o milagre se manifestasse na minha caixa de correio. Sim, eu recebi o contato de e-mail de três garotas. Três! O que significa dizer que eu não sou o George Clooney, óbvio, mas devo dar pro gasto. Algum gasto, acho. Se eu escrevi pra elas? Saí com alguma delas ou engatei um namoro? Pô, isso aí já é
assunto para outra reportagem…