TAN-TAN-TAN…TANTRA

Nosso repórter se inicia no universo da massagem tântrica para entender como o sexo que estamos acostumados a praticar pode ser completamente diferente.

 

Por Bruno Weis

Fotos João Castellano

 

o tantra é um jeito mais feminino de lidar com o sexo, no qual o orgasmo não é o fim

De repente minha cabeça começa a formigar. Não um formigamento comum, daqueles que sentimos quando a perna ou o pé “adormece”. Uma sensação bem mais forte e surpreendentemente prazerosa, como se um campo eletromagnético se formasse ao redor da minha cabeça, quase palpável, me embalando para uma dimensão desconhecida no meu próprio corpo. Estou deitado de barriga para cima, nu, em um quarto com luz baixa. O formigamento aos poucos se estende para o peito, braços, barriga, pernas e pés. Logo eu estou completamente tomado, cercado, dominado. E é bom demais.

Ela respira profundamente pela boca. O som é suave, algo entre um gemido e um sussurro. Ela me diz para respirar assim também. Acho difícil, mas me esforço, me distraio. Mas ela está no comando, me tocando com mãos untuosas, ora com força, apertando pontos doloridos da minha musculatura, ora delicadamente, como se minha geografia pudesse ser desvendada por braile. Eu sentira antes, deitado de bruços, seus lábios percorrerem meu corpo a um milímetro de distância, sem tocá-lo, enquanto os fios de cabelo roçavam as minhas costas, provocando arrepio. Agora, ela segura e acaricia meu membro duro. Aperta a base e, ao mesmo tempo, dedilha a ponta da cabeça, sem pressa. Minha respiração se transtorna e sinto o formigamento chegar ao grau máximo. Parece que tomei alguma droga. Abro os olhos. Sem saber o que fazer, encaro-a e sorrio, entre o assombro e o agradecimento. Resvalo no êxtase.

Vamos chamá-la de Luiza. Pede anonimato para não ter problemas em casa, a moça é casada. Estamos em uma casa na Vila Madalena, São Paulo, onde ela trabalha na equipe de profissionais da Companhia do Ser (www.ciadoser.org), uma clínica especializada em terapias corporais. O carro-chefe da casa é a massagem tântrica, um conjunto de técnicas baseado no tantra, a milenar filosofia hinduísta. Expressão em sânscrito que significa “libertação” (tan) e “expansão” (tra), o tantra é herança da Índia antiga que segue atraindo a curiosidade do homem moderno. “O tantra vem dos Dravdas, povo indígena de cultura matriarcal”, me conta Luiza, quando conversávamos antes da massagem. “Isso ajuda a explicar a forma como se trata o sexo, vinculando-o ao afeto para movimentar a energia básica de cada um de nós, chamada kundalini. Esse ainda é o nosso principal objetivo aqui”, completa a especialista.

Luiza me massageou por uma hora e meia. Não gozei. Passei as horas seguintes em um estado de “potência máxima”, executando as tarefas do dia com vigor e concentração. A noite chegou, mas não o cansaço. Minutos antes de pegar no sono, ainda sentia parte daquela energia gerada pela manhã pulsando dentro de mim. A experiência foi um dos pontos altos dos três dias nos quais me dediquei a investigar os princípios desse “tantra aplicado”. Uma sessão similar àquela que passei na clínica custa R$ 350, mas, ressaltam os terapeutas, é apenas uma pequena introdução a esse universo. A formação em tantra pode levar até três anos de estudos e práticas intensas. Não é atrás disso que a maioria dos homens, mulheres e casais batem à porta da Companhia do Ser. Eles buscam melhorar a vida sexual. “Muitas mulheres chegam interessadas em aprender mais sobre seu próprio corpo, atingir o orgasmo”, explica Isabelle Moura, uma das terapeutas mais experientes da casa. “O tantra também atrai garotas de programa que querem aprimorar suas habilidades, mas sempre explicamos que não estamos no mercado do sexo.”

Isso fica claro durante as conversas iniciais com os terapeutas, quando eles procuram entender quem é e o que está acontecendo com o paciente. Nessa hora, muitos homens e casais acabam revelando que, na verdade, buscam solucionar problemas mais sérios, como ejaculação precoce ou incapacidade de sustentar uma ereção. A clínica oferece cursos e vivências para quem busca um aprofundamento ainda maior. “Nossas aulas de tantra basicamente ajudam as pessoas a aprender a receber carinho, se nutrir da presença do outro”, resume Gabriel Saananda, um dos sócios do lugar e mestre de todos os outros terapeutas tântricos da casa. “Todo sexo que aprendemos é um sexo de separação, não de fusão com o outro. É como se a gente se masturbasse com o corpo alheio.”

 

 Três toques tântricos  para começar a treinar a massagem em casa

Mão nas costas

Com as mãos, destrave a musculatura de sua parceira em movimento de “amassar pão”. Faça isso por 30 minutos para despertar o corpo e treinar a respiração entre vocês dois.

 

Partes pouco tocadas

Repouse sua mão sobre o externo, aparte interna das coxas e o sexo de sua parceira. São partes do corpo pouco tocadas, pelo menos desse jeito.
Ajuda a liberar emoção.

 

Dedilhando

Com a ponta dos dedos, roce o couro cabeludo, as costas e o bumbum de sua parceira por longos minutos. Não tenha pressa. Quanto mais tempo,
mais excitação vai se acumular.

 

Sustentar Prazer

Nascido na Argentina há 53 anos, Saananda rodou o mundo antes de se estabelecer em São Paulo. Bahia, Índia, Holanda e Estados Unidos foram alguns dos lugares onde ele aprofundou seus estudos em terapias corporais, seguindo os ensinamentos do guru indiano Osho (Rajneesh Chandra Mohan Jain, 1931-1990). “Osho dizia que o homem tem três grandes medos: da morte, da loucura, do orgasmo. Porque eles são a mesma coisa: se soltar, perder o controle.” Saananda diz que a maioria das pessoas confunde prazer com ginástica erótica. Não se conforma que não treinemos nosso corpo para aguentar níveis elevados de prazer. “Temos que trabalhar respiração, voz, meditação, para recondicionar as conexões neurológicas”. Sem isso, afirma ele, 60% dos homens sofrem com ejaculação precoce ou com penetração muito rápida, em média de três minutos. Para o craque do tantra, falta contato entre as pessoas para o sexo se nutrir de afeto – e não deixar aquela sensação de vazio pós-coito. A massagem tântrica, para ele, pode fazer essa ponte.

Saananda chama a atenção para a dificuldade que temos, homens e mulheres, em nos entregar de verdade. “Funcionamos ainda reptilianamente, buscando sobreviver em um mundo hostil e ameaçador. Para isso, seguimos nossos instintos e condicionamentos”, explica. “Ocupado em nos manter vivos, o sistema nervoso parou de evoluir e não dá conta das relações afetivas. É isso que buscamos refazer.” Pude entender melhor o que o terapeuta me dizia ao acompanhar e participar de uma sessão entre duas mulheres, ambas profissionais da clínica, no desfecho da minha iniciação ao tantra.

A morena Camila, corpo moldado de dançarina profissional, deitou-se de bruços, nua, diante de mim e de Isabelle, minha professora naquela manhã. “Os três pilares da massagem tântrica são respiração, movimento e som”, diz Isabelle. “O primeiro altera o batimento cardíaco e o padrão emocional.” Observo-a tocar Camila com cara de aluno maravilhado. Que privilégio aprender a tocar uma mulher por outra mulher. “O movimento”, segue a professora, “tem de ser lento, ritmado, para transformar a massagem em uma grande meditação. O som da respiração, por fim, conecta você a sua parceira, se estiverem no mesmo ritmo”. Os únicos equipamentos são as mãos e um óleo vegetal neutro, prensado a frio. “Em casa, um bom lubrificante resolve”, indica Isabelle.

A massagem começa com toques mais fortes para soltar a musculatura. Isa usa principalmente o calcanhar das mãos, como se estivesse amassando pão. Fica pelo menos 15 minutos destravando as costas, ombros e pernas de Camila. Os movimentos são contínuos e lentos. “Quero dar conforto e aumentar a intimidade entre nós”, explica Isabelle. Com o corpo de Camila desperto, passamos aos toques sutis. Foi o que Luiza fez comigo ao dedilhar meu “lingam”, que é como os tântricos denominam o órgão sexual masculino. O feminino é “yoni”. “Agora vamos ativar as terminações nervosas, inclusive em partes do corpo pouco tocadas. Isso acumula excitação”, ensina Isa.

toques ora sutis, ora mais fortes liberam emoções e aumentam a intimidade

Para Isabelle, o aprendizado da massagem é como aprender a dançar. “O corpo tem um tempo para processar a informação. Aos poucos, o casal vai aprendendo a sustentar o orgasmo sem ejacular.” Na hora, me custa a crer que isso seja possível. A instrutora toca com a ponta dos dedos a parte interna das coxas. Deita a palma da mão sobre o externo, entre os seios. “É uma região muito emocional para as mulheres.” Diz que dá para passar a mão levemente pelo sexo, mas ainda sem focar nele. Reparo que a respiração entre a massagista e a massageada está sincronizada.

Passamos à etapa genital da massagem. Isabelle toca Camila com delicadeza, com as mãos cobertas por óleo. “O nervo do clitóris muitas vezes é atrofiado, mas isso é recuperável”, diz ela, enquanto esfrega-o em toda a sua extensão. O movimento é parecido ao de contar notas de dinheiro. Ela toca os grandes lábios inteiros. Volta a tocar o corpo, retornando para os pequenos lábios. Com a mão, Isabelle explora o interior de Camila, passando os dedos pelos cantos e pelas laterais do sexo da parceira. A excitação chega ao grau máximo. Ela geme forte, as duas gemem forte, respirando intensamente, em sincronia. Eu ali, estático, parecendo um aluno no primeiro dia de aula. Aos poucos, o ritmo diminui e Camila relaxa profundamente. Para terminar, as duas se abraçam sentadas, uma sobre a outra, por longos minutos. Saio dali mais encantado do que excitado, certo de que o tantra e sua versão “aplicada”, a massagem, são, sobretudo, uma energia feminina, conduzida pela mulher, para um sexo sem objetivo. Parece bom. Acho que vou treinar.