VIDA NAS ALTURAS

Movimentos velozes efetuados com uma precisão sobre-humana. Saltos arriscados que amedrontam até os mais corajosos. Acrobacias executadas sem nenhuma proteção. Se algo der errado, é morte certa. O inglês James Kingston vem ganhando fama por levar o parkour ao extremo.

 

por  Piti Vieira

 

Os telhados dos prédios e das casas de cambridge, na inglaterra, são os preferidos de kingston para um passeio “no parque”

James Kingston, um inglês de 22 anos, invade a construção de um prédio em Southampton, maior cidade portuária da costa sul do Reino Unido, onde ele nasceu e vive. Ele tem uma câmera GoPro acoplada em sua cabeça e filma tudo. Olha para cima e avista um guindaste gigantesco. Transpõe alguns obstáculos e começa a escalá-lo até o topo. São 96 metros de altura. Lá de cima, a vista é incrível e o pôr do sol embeleza ainda mais a paisagem. Depois de caminhar ao longo do braço do guindaste, ele abaixa e se dependura em uma das estruturas metálicas do equipamento. Em seguida, fica apenas com uma mão impedindo-o de cair para a morte. Kingston não usa qualquer equipamento de segurança.

O que leva alguém a tratar um guindaste, onde erros são fatais, como um brinquedo de playground? Status entrou em contato com Kingston para descobrir. “Eu não vou até o topo de prédios para morrer, mas para viver. Eu não saio saltando por aí, fazendo coisas malucas. Só me machuquei uma vez. Quebrei meu pé há cerca de um ano enquanto treinava. Mas foi simplesmente porque eu estava fazendo algo para o qual meu corpo ainda não estava preparado”, diz James Kingston. “Parkour é uma coisa muito segura, que eu faço porque estou constantemente trabalhando em novas técnicas e movimentos. Eu não iria ficar pendurado em um guindaste enorme por um braço se eu não fosse capaz de me puxar dali.”
Kingston subiu até o topo do guindaste acompanhado por dois amigos. Filmou algumas cenas durante a subida de 20 minutos e em nenhum momento se preocupou com o que estava para enfrentar. “Eu não estava com medo”, diz ele. “Você não pode se dar ao luxo de ficar com medo quando está pendurado por suas mãos. Fiz isso pela aventura.” Ele também foi filosófico sobre o feito. “A vida é muito curta para ficar sentado, se preocupando com o futuro. Não há tempo a perder.”
O vídeo da façanha, que pode causar tontura e medo, já foi visto mais de 1,7 milhão de vezes no YouTube e fez o garoto de Southampton sair do anonimato direto para as manchetes dos tabloides e tevês ingleses.

 

Grande  Negócio

Sucesso no mundo, o parkour invadiu academias e até videogames

Parkour é o nome de um passatempo nascido nas ruas e espaços públicos, uma espécie de jogo sem regras, times, ganhadores ou perdedores. Começou na França (o nome é derivado da palavra francesa para “curso”) e se espalhou pelo mundo. O que une os adeptos de todas as partes é a prática ao ar livre. Trazer o esporte para dentro das academias, dizem os puristas, é uma heresia. Mas o parkour cresceu, trocou de patamar e já virou um grande negócio. Academias foram abertas em várias cidades americanas, com aulas particulares, e até a World Freerunning and Parkour Federation (WFPF), federação mundial, começou, em abril deste ano, a oferecer um seguro sob medida para os adeptos, desde que pratiquem em ginásios certificados.
Além das academias, uma en-xurrada de grupos está olhando para capitalizar sobre a tendência. A fabricante de bebidas energéticas Red Bull começou um concurso anual em 2007 que elege o melhor do mundo e games de PlayStation como Assassin’s Creed e Infamous possuem personagens que exe-cutam truques da modalidade.

o inglês se dependura em um guindaste em southampton a 96 metros do chão e com uma só mão

 

Demolidor

Kingston se descreve como um “freerunner profissional”, uma interpretação do parkour que deixa de lado a busca pela eficiência e incorpora elementos de criatividade e expressão corporal através de diferentes variações dos movimentos. “Quanto tempo você demora para ir de casa ao trabalho? Quanto desse tempo você gasta respeitando as limitações impostas por muros, esperando que portas se abram, dando voltas geograficamente desnecessárias? Em cinco minutos, o quanto você consegue se movimentar pela sua cidade?”, questiona ele. Mas entenda que Kingston é uma exceção, um cara que gosta de ir ao limite da coisa e não parece se sentir nada intimidado com grandes alturas. E ama realizar saltos e manobras que não admitem um escorregão.

Conhecido na Inglaterra como Daredevil, o famoso herói da Marvel que, mesmo cego, perambula pelo bairro Hell’s Kitchen, em Nova York, sobre os prédios (no Brasil o herói foi traduzido como “Demolidor”), Kingston ganha a vida fazendo seus vídeos de parkour e aparecendo em filmes como o blockbuster KickAss 2. Sua ambição, porém, é – sem surpresa – tornar-se um dublê profissional. Mas nem sempre foi assim. Ele começou a treinar parkour há seis anos. “Eu não gostava de ir para a escola e, finalmente, parei no décimo ano. Não tinha nada para fazer, estava em uma espiral descendente, sem nenhum amigo, nenhuma confiança. Então assisti a um documentário sobre parkour na tevê e pensei: ‘uau, isso parece incrível, eu vou tentar’. Mas não tinha ideia de onde ele iria me levar!”, diz. “Sempre fui uma criança um pouco louca, gostava de subir em qualquer coisa, mas não era sério até 2007. Eu comecei com meu meio-irmão e nós apenas brincávamos no jardim. Eventualmente íamos para as ruas. Eu tinha pavor de altura. É impressionante o meu progresso.”

Ficar bom no parkour não é fácil. “Os primeiros dois anos foram realmente muito rigorosos, repetindo os movimentos básicos fundamentais”, diz ele. “Quando atingi um grau de maturidade maior e comecei a conhecer meu corpo melhor, quis aprender a fazer aqueles saltos que os ginastas fazem e outras coisas legais. Então passei a frequentar o ginásio perto de onde eu moro.”

Anos de treinamento significam que ele está totalmente ciente de suas próprias capacidades e no controle de seu corpo. Basta assistir aos vídeos em seu canal no YouTube para ver que ele não é nenhum amador. Kingston subiu seu primeiro guindaste em um canteiro de obras na Itália, onde ele “costumava ir para desaparecer do mundo”. Depois disso, a escalada no guindaste em Southampton estava em sua mira. E a música que faz a trilha do vídeo que está no YouTube cria um sentimento de temor e de paz, um contraponto violento com a vertigem que muitos espectadores sentem ao assistir às imagens. “Eu quero que as pessoas experimentem e sintam o que eu estava sentindo. A música tem um impacto enorme em fazer isso”, diz ele. E qual a música que você ouve enquanto pula por aí? “Eu não escuto música enquanto pratico parkour, porque eu acho que interfere na minha consciência espacial. Seus ouvidos fazem muito mais por você do que apenas ouvir”.

 

Exibicionismo

Depois de se pendurar em guindastes, percorrer os telhados de prédios e casas parece fácil. E é – para ele. Kingston adora aventurar-se pelos edifícios de Cambridge, a 80 quilômetros de Londres, sede da famosa universidade. Passando por casas e lugares em construção, sempre filmando em primeira pessoa seus saltos e suas quedas, ele caminha por finas bordas de prédios a vários metros do chão, antes de saltar de um edifício para outro. Comparando um desses vídeos com o do guindaste, Kinsgton diz que andar pelos telhados de Cambridge é como “dar uma volta no parque”. Ele conta que nem sequer se preparou, porque em sua mente não existe a dúvida de não conseguir. “Me tornei insensível à desconfiança e ao medo. Quando estou ali, estou 100% focado.”

Quem não achou graça da proeza foram os responsáveis pela Universidade de Cambridge, que dizem que Kingston e seu parceiro de aventuras, Scott Bass, de 21 anos, invadiram propriedade privada ao andar sobre alguns dos seus edifícios. “Tenho vários amigos em Cambridge, e os telhados lá são dos melhores no Reino Unido para fazer o que faço”, desdenha Kingston.

Existe um elemento de exibicionismo em tudo isso. A sensação de estar perigosamente perto da morte, mas sabendo que está seguro, é algo que muitas pessoas gostam, seja em montanhas-russas, saltos de bungee jump ou paraquedas. Kingston tem essa sensação ampliada em dez vezes e a única coisa que o mantém seguro é sua tão propagada habilidade. Quando você está pendurado num guindaste ou pulando de um prédio para outro a mais de dez metros do chão, você está no controle total de seu destino. E o futuro parece brilhante para ele, enquanto ele se mantiver no controle da situação. Kingston está atualmente trabalhando em um documentário sobre parkour com uma estação de televisão muito conhecida na Inglaterra e, na medida em que a atenção sobre ele aumenta, o jovem diz estar apreciando o fato de as pessoas de todo o mundo estarem vendo suas proezas. “Estou vivendo o sonho que criei. Eu quero apenas continuar viajando, conhecer pessoas incríveis, viver minha vida ao máximo e, quando eu estiver velho e enrugado, poder olhar para trás e pensar: ‘cara, aquilo foi muito legal’”.