PUNHO ESMAGADOR

Em entrevista à Status, o americano Chris Weidman afirma que acabará com o brasileiro Anderson Silva na revanche marcada para dezembro. Conheça seus planos para isso.

 

Por David Eisen, de Nova York

 

Anderson Silva baixa a guarda e recebe um golpe certeiro de Weidman. Depois da “gracinha”, o Spider perdeu o cinturão

O lutador americano Chris Weidman, 29 anos, está com sérias dificuldades para andar. Não que ele tenha contraído uma doença reumática ou que algum médico tenha detectado uma dessas lesões que costumam tirar de combate atletas que praticam MMA ou artes marciais mistas, o esporte em que ele é especialista. Pelo contrário. Para ser mais preciso no diagnóstico, Weidman não anda porque foi acometido de um mal necessário por quem busca a vitória: a fama. Por enquanto, é verdade, ainda repentina. Desde o último dia 6 de julho, o lutador nascido e criado em Baldwin, a 50 minutos de Manhattan, não consegue dar um passo sem ser parado. Naquele dia, Weidman se tornou campeão dos pesos-médios ao derrotar o brasileiro Anderson Silva, no UFC 168, em Las Vegas, de maneira acachapante. Esmagou Silva, conhecido como The Spider, numa clara referência ao super-herói Spider-Man (O Homem Aranha), como se fosse o seu principal inimigo, o Spider-Slayer (O Exterminador de Aranhas). Virou celebridade da noite para o dia. Agora, é perseguido nas ruas por jovens e idosos, meninos e meninas, homens e mulheres. Todos querem ser fotografados ao seu lado em posições de luta. “Sempre fui popular em Baldwin, mas esse é um nível de popularidade totalmente novo”, diz Weidman à reportagem de Status. “Sou reconhecido em qualquer lugar. Eu queria ser campeão. Não me incomodo com isso.”

Weidman não tem mesmo nenhum motivo para se incomodar. Não é todo dia que um jovem lutador, que vivia quase no anonimato, vence um oponente considerado uma lenda no octógono, reconhecido como o maior lutador de MMA de todos os tempos. Ali dentro do ringue adaptado para o UFC, Anderson é famoso tanto por seus golpes precisos quanto por suas brincadeiras que irritam os rivais. Seu atrevimento combina com sua autoconfiança. Um jogo que machuca e desestabiliza quem está do outro lado do octógono. E ele sabe – ou sabia – mesclar essas características como poucos. Seu histórico comprova isso. Trinta e três vitórias contra cinco derrotas. De 2006 a 2012, Silva ganhou 16 lutas consecutivas, defendendo o título com sucesso em dez ocasiões.

Os dois têm portes semelhantes: 1,88 m, aproximadamente 84 quilos, 1,98 m de envergadura. Mas as semelhanças acabam aí. O estilo de Silva é diametralmente oposto ao de Weidman. Silva é conhecido por suas habilidades em muay thai, usando chutes para abalar seus adversários. Weidman é famoso por seu jogo de solo, produto de sua formação em luta greco-romana, primeiro como destaque na Baldwin High School em Baldwin e mais tarde na Universidade de Hofstra (foi onde ganhou seu apelido: The All-American). Como em qualquer outra disputa acirrada, seu percurso até o estrelato no UFC foi marcado por obstáculos. Primeiro, ele treinou e acabou não conseguindo entrar para a equipe olímpica de luta greco-romana dos EUA de 2008, por conta de uma lesão na costela. As contusões seriam uma praga ao longo de toda sua carreira. Mas também representaram uma virada. Um amigo sugeriu o MMA. “Eu achava que tinha potencial e não queria ter arrependimentos, então decidi tentar”, diz Weidman. “Disse a mim mesmo que, se fizesse isso, iria me dedicar completamente e ser o mais esforçado da turma.”

 

Fator Indefinível

Em pouco tempo Weidman se uniu ao treinador local Ray Longo, 55 anos, em sua academia em Garden City, Nova York. Desde o início, Longo viu potencial em Weidman. “Assim que o vi treinar, soube que era especial”, disse Longo à Status. Sobre a principal característica de Weidman, Longo menciona o “fator indefinível”. É algo, diz o treinador, que ele tem a mais. “Na primeira noite, quando o conheci, estávamos assistindo aos treinos dos sparrings e a maneira como Weidman os analisava, sem ter experiência em boxe ou artes marciais, foi muito precisa”, afirma Longo. “Ele entendia o que estava vendo, o que é raro para um cara sem experiência.” Longo vê Weidman como um prodígio, que aprende rápido. Também é um vencedor. Antes de entrar no UFC, ele ganhou suas primeiras quatro lutas de MMA e, depois de ser contratado por Dana White, o chefão do UFC, venceu cinco lutas seguidas, entre março de 2011 e julho de 2012, incluindo vitórias sobre Tom Lawlor e Demian Maia.

Tudo parecia correr tranquilamente para Weidman, uma vitória atrás da outra. Então chegou o dia 29 de outubro de 2012. E, junto dele, o furacão Sandy. A tempestade de categoria 3 varreu a costa leste dos Estados Unidos e foi particularmente devastadora em Nova York e Nova Jersey. Weidman não foi poupado. O furacão destruiu completamente o primeiro andar de sua casa em Baldwin. Ele foi forçado a se mudar com sua mulher, Marivi, e dois filhos pequenos, CJ, de 1 ano, e Cassidy, uma menina de 3 anos, para a casa de seus pais. “Ficamos morando no meu antigo quarto”, conta. Não era a melhor das circunstâncias. Principalmente porque Weidman também estava se recuperando de uma cirurgia no cotovelo feita em setembro (depois, ele faria uma cirurgia no ombro em novembro). No geral, Weidman teria um ano de intervalo entre lutas – a última em 11 de julho de 2012, uma vitória por nocaute sobre Mark Munoz. “Foram tempos difíceis”, diz Weidman. “Passei por muitos dramas e reveses, mas nunca tive pena de mim mesmo. Sempre fui otimista. Sou um cara despreocupado. Todo mundo trava suas batalhas. Você aprende a perseverar.”

Lutar com Anderson Silva no principal card do evento pay-per-view era o maior destaque que Weidman já havia conseguido. Quem poderia culpar o cara por ficar nervoso? Mas, da maneira como Weidman conta, esse não foi, absolutamente, o caso. “Parecia um pouco com outras lutas. Eu estava à vontade e pronto para ir para o vestiário”, afirma. A sua hidratação era a única coisa que o preocupava. “Ficava tomando água constantemente e fazendo xixi”, diz. “Saí do vestiário normalmente.” Enquanto Weidman entrava como azarão com chances de 2-1, alguns gurus e lutadores achavam que ele tinha um estilo e um jogo que poderiam derrotar Silva. O grupo incluía Chael Sonnen, o falastrão lutador do UFC, que previu a vitória de Weidman. “Acho que ele derruba Anderson na hora que quiser, acho que ele passa pela guarda de Anderson, e que o finaliza. Derrubar o Anderson não é difícil. O Chris vai mexer com a cabeça do Anderson, machucá-lo e vencê-lo por submissão em três rounds com um estrangulamento ou algo do gênero. O reinado de sete anos acabou. É o que eu realmente sinto”, disse Sonnen antes da luta.

Ao mesmo tempo que estava confiante, Weidman não sentia que estava no melhor de sua forma. “Não me sentia eu mesmo”, diz. Mas, segundo seu técnico, ele estava mentalmente pronto. “Assistimos aos videotapes e dissecamos ângulos”, diz Longo. Fizeram um monte de lutas em gaiolas e treinaram com o sparring Stephen “Wonderboy” Thompson, que simulava o estilo de Silva. No entanto, havia uma coisa que Wonderboy não conseguia imitar: as gozações de Spider. Ele é conhecido por elas, criticado por fazê-las, e as usa para atiçar os adversários, como uma aranha atraindo a presa para sua teia. Havia funcionado muitas vezes antes. Mas Weidman e seu grupo estavam prontos para elas e não estavam dispostos a deixar que Silva os confundisse como havia feito tantas vezes antes. “É através das palhaçadas que ele motiva a si mesmo e mina a moral de seus adversários”, explicou Longo. “Sou um treinador mental. Tratava-se de desmistificar esse cara.” Weidman faz coro. “No ringue, ele tenta fazer você se sentir como se não merecesse estar lá com ele”, afirmou Weidman. “É o que ele faz. É o jogo dele para mexer com a sua cabeça.”

Embora Weidman talvez não estivesse se sentindo na sua melhor forma ao entrar na luta, ele e sua equipe fizeram tudo o que puderam para prepará-lo adequadamente para Silva, incluindo mudar a rotina de treinos. Mudaram até sua alimentação e acrescentaram um plano de desempenho personalizado. Todas as manhãs ele subia na balança, se pesava e media a frequência cardíaca. Os resultados eram então enviados por e-mail ao nutricionista de Weidman, que lhe dizia o que comer. Isso acontecia a cada dia de treino. “Foi útil”, garante Weidman. “Estávamos bem estruturados.” O primeiro round de Silva versus Weidman foi bastante equilibrado. Uma chave de joelho de Weidman em Silva podia ter encerrado o round, mas Silva sobreviveu.

Weidman e a família tiveram de se mudar para a casa dos pais dele depois que o furacão Sandy destruiu a sua em 2012

O segundo round foi uma história diferente. Weidman se lembra com bastante clareza. E uma coisa é certa, ele se recorda de ficar agitado com as provocações quase constantes de Silva. Outros antes dele perderam a calma; Weidman ficou irritado. “Fiquei puto da vida!”, conta ele. “Preparamo-nos para o fato de ele dizer besteiras. Concluímos que ele faria isso se estivesse me batendo. Mas ele não estava batendo. Eu olhava, tipo ‘O que é que você está fazendo agora? Que diabo você pensa que é? Você não vai fazer isso comigo.’ Depois disso, acabou, distribuí golpes até encaixar um.” Weidman abalou Silva com um vigoroso gancho de esquerda que derrubou o campeão. Ele então saltou sobre o Spider esmagando-o. Com as defesas baixas, com as costas no chão, o lutador golpeou a cabeça de Silva sobre o tablado. A única coisa a impedi-lo era o juiz, que parou a luta quando Silva se agarrou em suas pernas. Na marca de 1min18s do segundo round, Weidman tornava-se Campeão dos Pesos Médios do UFC.

 

Furioso

O resultado pode não ter surpreendido Weidman e Longo, mas a maneira como isso aconteceu, sim. A maioria pensava que a luta seria vencida ou perdida no chão, típica do estilo de luta greco-romana e jiu-jítsu de Weidman. Em vez disso, foi em pé e na troca de socos. “Pensei que a luta seria no chão; as apostas eram de que ele faria o que faz melhor, ou seja, no chão,” disse Longo a respeito de Weidman. “Mas ele não se importou em abrir mão de uma posição ruim. Ele estava confiante e aproveitou. Ele promete e cumpre. Tudo o que ele disse que faria se concretizou.”

Naturalmente, Weidman estava radiante – mas ainda furioso. “Depois que o nocauteei, eu estava acelerado”, lembra Weidman. “Eu estava, tipo, ‘Como você ousa me desrespeitar assim?’. Desmistificamos aquilo tudo sobre ele ser uma criatura de outro mundo. Ele não é.” Obviamente, é aí que começam as especulações. As pessoas gostam de falar. Dizer que Silva não levou a luta a sério. Que ele pode até ter entregado a luta. Que o golpe que derrubou Silva foi fortuito. Houve até um boato que ganhou força a respeito de uma suposta aposta de US$ 1 milhão em Weidman (desmentido logo depois pelo Conselho de Controle de Jogos de Nevada). “Idiotas em fóruns” foi o comentário de Longo sobre tudo isso. “Eles não têm mais nada para fazer na vida. Quando [Silva] é o seu herói, você quer acreditar que a coisa não passa de uma farsa. Caso vença outra vez, eles vão perguntar: Ele é tão bom assim? Não, vão inventar outra coisa.”

tregar a luta, quando lhe dei aquela chave de joelho bem apertada no primeiro round, ele poderia ter desistido naquela hora”, diz. De sua parte, Silva estava ao menos contido, se não autêntico, até derramando uma lágrima e ganhando um abraço durante uma aparição “ao vivo” após a luta. Mas os boatos persistem – e deverão cessar somente no dia 28 de dezembro, no UFC 168, novamente no MGM Grand Garden Arena, quando os dois entrarem no octógono para a aguardada revanche. Talvez as insinuações acabem. Weidman entende tudo. Entende por que as pessoas dizem o que dizem. “Ele era conhecido como o maior de todos os tempos, e as pessoas não conseguem entender como perdeu”, diz Weidman a respeito de Silva. “Elas têm dificuldade em acreditar na realidade. Se eu o tivesse derrubado e vencido por submissão no primeiro round, diriam que ele me subestimou ou que eu tive sorte e que ele estava brincando comigo. Independentemente do que eu fizesse, haveria a necessidade de uma segunda luta.”

A forma como a segunda luta transcorrerá ainda é um mistério. Será que Silva continuará a ser ele mesmo, saltitando e soltando uma saraivada de provocações? Será que Weidman se concentrará mais em táticas de chão e não trocará socos com Silva? Não importa como a luta se desenrolará, Weidman e sua equipe apostam como terminará. “Ele sabe que o derrotará novamente”, garante Longo. “Ele quer provar que as pessoas estão erradas.” Weidman é mais direto. “Vou acabar com Anderson Silva novamente”, afirma.

O lutador começou a se dedicar ao MMA depois que a carreira como atleta de luta greco-romana não deslanchou

 

“Tenho ouvido que os fãs brasileiros agora me adoram. Que ficam do meu lado em relação ao Anderson”

– STATUS Quem era seu ídolo na infância?
– weidmam Meu pai. Ele me iniciou na luta greco-romana e em outros esportes. Sempre
me treinou.

– Se você não fosse lutador de MMA, o que estaria fazendo?
– Provavelmente eu estaria treinando luta greco-romana em uma universidade ou seria um professor de educação física.

– Qual é a pior parte de treinar?
– São duas ou três vezes por dia. E é exaustivo física e mentalmente. Na hora em que você chega em casa, não tem mais energia. E eu tenho dois filhos. E eles têm energia. É difícil dar a atenção que eles merecem nos períodos de treinamento.

– Se você pudesse lutar com qualquer um, morto ou vivo, quem seria?
– Obviamente Muhammad Ali seria bacana.
Mas eu realmente gostaria de lutar com Mike Tyson. Isso seria uma honra. Eu teria de estar 100% preparado.

– O que você acha do Brasil?
– Tenho ouvido que os fãs brasileiros agora me adoram. Que ficam do meu lado em relação ao Anderson. Eles respeitam lutadores em geral. Fui ao Rio de Janeiro antes da luta e tive um apoio avassalador. O que mais… Penso também em futebol e em açaí. Também sei dizer “thank you” em português: obrigado.