POR ONDE ANDA O SERIAL KISSER?

Ele beijou Pelé, Frank Sinatra, o papa João Paulo II e outras centenas de celebridades. Mas está sumido desde 2008. Status seguiu os passos de José Alves de Moura, o famoso Beijoqueiro, para contar a história de um dos personagens mais folclóricos do Brasil

 

por Tom Cardoso

 

no dia 26 de janeiro de 1980, ele fez sua primeira vítima internacional: o cantor Frank Sinatra. Depois disso, o Beijoqueiro ficou conhecido em todo o Brasil

Durante um bom tempo, não existiu, no Rio de Janeiro, sujeito mais chato, insuportável – e com tanto amor pra dar – do que José Alves de Moura, o “Beijoqueiro”. É possível dizer, sem exageros, que, quando ele se decidia pela próxima vítima a ser beijada, esta tinha pouquíssimas chances de escapar do calor de seus lábios. Foi assim com quase todas as celebridades brasileiras, de Pelé a Dercy Gonçalves, de Roberto Carlos a Zico, e com as internacionais que passaram por aqui, como Frank Sinatra e João Paulo II – o pontífice, inclusive, nunca foi tão beijado em vida por uma só pessoa: 17 beijocas no peito do pé. Reza a lenda que George Bush (o pai), na época presidente dos Estados Unidos, só escapou de levar também a sua bitoquinha, durante a Eco-92, no Rio, porque havia dois tanques do Exército no hotel Sheraton, um apontado para a Rocinha e o outro, para o Beijoqueiro.

O governador Sérgio Cabral, hoje com a popularidade tão em baixa, teria pelo menos um “consolo”: ser a última pessoa a ser beijada por José Alves de Moura, visto pela última vez em público durante um comício de Lula, então presidente, ao lado de Cabral, no lançamento do PAC no Complexo do Alemão, no dia 7 de março de 2008. “Ô Beijoqueiro, depois o Sérgio Cabral vai aí te dar um beijo”, prometeu Lula, do palanque. O beijo não saiu e depois disso nunca mais se soube notícia do folclórico personagem, intérprete de si próprio. Status rodou o centro do Rio, território do Beijoqueiro, entrevistou ex-amigos, seguiu algumas pistas para tentar descobrir o paradeiro de José Alves de Moura, dono do beijo mais temido do Brasil.

 

Coronhada na cabeça

A reportagem logo chegou a João Parrini, um dos melhores amigos de Beijoqueiro, taxista como ele, que após o seu sumiço dedicou parte do seu dia para rodar o Rio a procura do colega. Foram três meses de busca. Não encontrou nenhuma pista. “Eu rodei o Rio de cima a baixo. Aqui ele não está. Talvez tenha voltado para Portugal”, diz Parrini. Os dois dividiram o mesmo ponto de táxi nos anos 60, na avenida Rio Branco. O Beijoqueiro ainda não havia nascido. Era apenas um imigrante português, nascido na pequena cidade de Rio Tinto, que viera ao Brasil para, segundo ele próprio, escapar do serviço militar – chegara ao país em 1957, aos 17 anos. Logo foi trabalhar na praça. Já era, segundo Parrini, meio “fraco das ideias”, problema que se agravara depois de um assalto em 1966, na Central do Brasil – ele creditava os problemas psiquiátricos à coronhada que levara na cabeça. Depois do assalto, passou a cultivar o estranho hábito de beijar as pessoas na rua, inclusive alguns clientes, homens ou mulheres – como taxista, claro, não teve vida longa. “Ele tinha uma boa clientela, era querido, tinha carisma. Mas passou a não cumprir os horários e foi perdendo aos poucos a freguesia”, diz Parrini.

A perda da clientela coincidiu com o nascimento do personagem Beijoqueiro. Até então, o taxista contentava-se apenas em beijar pessoas anônimas – a maioria amigos, companheiros de farra. Dizia que tinha uma missão: espalhar amor pela cidade do Rio. Beijar era o seu evangelho. O que nasceu como uma pequena idiossincrasia, até então tolerável, virou uma profissão de fé a partir de janeiro de 1980, quando José Alves apostou com os amigos que conseguiria beijar ninguém menos do que Frank Sinatra, no Rio para um histórico show no Maracanã. Ele dizia aos amigos que, no dia em que levara uma coronhada do assaltante, tinha tido uma espécie de visão e que nela aparecia a figura do astro americano. Ele tinha, portanto, que beijá-lo de qualquer maneira.

No dia 26 de janeiro daquele ano, José Alves, não se sabe como, conseguiu furar um forte esquema de segurança e cumprir a promessa. O beijo pode ser visto no YouTube. Sinatra, enojado, empurra o luso-brasileiro – parece mais assustado com o beijo do que com a própria invasão do palco. Após o beijo, diante de um Maracanã lotado, o taxista encarnou de vez o personagem. No mesmo ritmo em que fazia novas vítimas, era espancado e preso. Saía sempre no dia seguinte – os conhecidos problemas psiquiátricos, comprovados num documento que ele carregava a tiracolo, tornavam-no inimputável.

 

Realeza Britânica

Brandão conta que, quando João Paulo II veio novamente ao Brasil, em outubro de 1991, a Polícia Federal, na época chefiada por Romeu Tuma, criou um plano só para impedir que o Beijoqueiro repetisse a façanha de 1980, quando ficou abraçado ao pé do pontífice, beijando-o 17 vezes. Um relatório da PF vazou na imprensa: segundo investigações, José Alves de Moura estava doente e impedido de viajar – o que, na teoria, tirava suas chances de se aproximar do Papa no primeiro dia de visita ao País, em Salvador. No dia do desembarque, porém, lá estava Beijoqueiro, de beiço armado. Acabou detido no aeroporto, na delegacia de proteção ao turista. O beijoqueiro não era temido apenas pelas autoridades brasileiras. Meses depois da vinda do Papa ao Brasil, era esperada a visita do príncipe do País de Gales ao país. Um repórter de uma revista brasileira deu o furo: no interior do carro da realeza, uma carta da embaixada britânica com algumas recomendações à sua alteza real. Entre elas a de evitar, no Rio, ficar perto de dois personagens locais: Ronald Biggs (o lendário assaltante inglês, radicado na cidade) e o temido “The Kisser”. O Beijoqueiro, claro.

Beijoqueiro em ação com a atriz Juliana Paes

Com o ex-presidente Itamar Franco e na cadeia, em uma das 74 vezes em que foi preso

O documentarista Carlos Nader, assim como o taxista Parrini, também desistiu de procurar por Beijoqueiro, depois de seguir algumas pistas que não deram em lugar nenhum – a última vez que o viu foi no YouTube,num vídeo em que ele anuncia a sua candidatura a vereador. Não se sabe se as imagens são de antes ou depois da aparição no comício de Lula, no Complexo do Alemão. Nader, que dirigiu um documentário sobre a vida de Beijoqueiro, com o sugestivo nome de Serial Kisser, exibido em 22 países, diz que, se tratando de uma figura tão atormentada como era seu personagem, tudo é possível. “Eu já ouvi várias versões. Que ele voltou para Portugal, que ele se viciou em crack ou que ele morreu. Eu não descarto nenhuma hipótese”, diz Nader. O documentarista conta que, quando Beijoqueiro ganhou notoriedade e logo se descobriu que ele não batia muito bem, os médicos o diagnosticaram como psicótico-maníaco-depressivo, uma doença psiquiátrica que tem hoje um nome menos assustador (bipolaridade) e é também vista com mais naturalidade, pois há tratamento. “Ele era um bipolar clássico, mas com uma agravante: o desejo de notoriedade. Mas ele não era só isso: um cara que desejava aparecer a todo custo. Era uma figura amorosa, afetuosa, que acreditava mesmo nessa ‘missão do beijo’, tanto que era capaz de passar uma tarde inteira beijando pessoas anônimas na Cinelândia”, afirma Nader.

 

Craques do Futebol

Ele era famoso por driblar os guardas nos estádios de futebol, invadir os campos e beijar jogadores como Romário

Em 2001, o ator André Gonçalves tentou tirar dele o trono, ao beijar Pelé durante um voo – chegou a ser chamado de versão moderna de O Beijoqueiro. Mas não tinha o mesmo charme – e muito menos a mesma espontaneidade (estava de porre). “O Beijoqueiro é muito mais que um homem que tinha mania de beijar as pessoas. É uma alegoria, uma caricatura de uma época do Brasil”, diz Nader. Das quase 500 personalidades beijadas por José Alves em sua fase de euforia (em seu caderninho contavam-se 452), mais da metade foi agraciada nos campos de futebol. O Beijoqueiro tinha predileção por boleiros – era preciso, claro, ter o mínimo de talento para merecer tamanha honraria. Pelé, Garrincha, Zico, Falcão, Roberto Dinamite foram alguns dos craques que tiveram suas bochechas beijadas pelo ex-taxista.

O volante Biro-Biro não era um dos craques da chamada Democracia Corinthiana, time do Corinthians que fez história na década de 80 e era liderado por Sócrates, mas se destacava pela raça e vigor físico – e foi o escolhido pelo Beijoqueiro quando este decidiu ir a São Paulo, durante um clássico entre Corinthians e Palmeiras, no Morumbi, beijar algum atleta da Democracia Corinthiana. “Quando olhei para a lateral do campo, vi um senhor, meio careca, corpulento, vindo na minha direção. Tentei correr, mas, quando vi o cara, já tinha me segurado com os dois braços e tacado um beijo na metade da minha boca, metade no rosto. Foi bem desagradável”, lembra Biro-Biro. Hoje, passado tanto tempo, o ex-volante acha que nem foi tão ruim assim. “Se ele me escolheu, entre tantas feras, é que eu tinha o meu valor. Grande figura o Beijoqueiro.” Hoje em dia, certamente, Emerson Sheik estaria na mira de seu beiço.

Depois das exaustivas andanças pela Central do Brasil, o taxista Parrini perdeu as esperanças de encontrá-lo, mas acha cedo para decretar o fim do Beijoqueiro. “A gente aqui preocupado com ele, mas o Zé pode estar essa hora beijando as portuguesas, feliz da vida.”

biro-biro, ex-jogador do corinthians