DOMINGOS MONTAGNER

O mais  improvável dos galãs globais fala sobre a fama tardia, o assédio feminino, a importância da família, o gosto por uísque, a recente mudança para o rio e por que ser palhaço mudou sua vida.

 

por Rosane Queiroz

foto Daryan Dornelles

 

Uísque com guaraná. Essa combinação clássica parece perfeita para definir Domingos Montagner. De um lado, o galã que chega para a entrevista de moto, casaco de couro e capacete na mão, que diz ser apreciador de uísque e arranca suspiros de mulheres de 9 a 90 anos. “Isso não é um Domingos, é um feriado prolongado!”, ele se diverte, ao lembrar da cantada de uma fã. “Achei a tirada genial”, admite. Domingos Filho, de origem italiana, neto de Domênico, de fato, é um homem e tanto. Com 1,90 m, é mais alto – e mais magro – do que aparenta no vídeo. Os anéis de prata que usa desde a adolescência lembram o turco Ziah, da novela Salve Jorge, papel que, depois de uma minissérie aqui e ali, o consagrou como galã global. Por outro lado, o lado guaraná, digamos assim, o ator também é palhaço, e tem seu próprio picadeiro – ele é sócio do Circo Zanni, uma das companhias mais bem-sucedidas do chamado “novo circo” no Brasil. Paulistano do Tatuapé, filho de dono de bar, ex-professor de educação física, Domingos tem qualquer coisa de bandido e de mocinho. Na vida pessoal, é um cara família, pai de três meninos – Léo, 10 anos, Antônio, 8, e Dante, 2 – e apaixonado confesso pela mulher, Luciana, com quem vive há 12 anos. Caso típico de talento tardiamente descoberto pela TV Globo, Domingos conheceu a fama em rede nacional aos 50 anos. Agora, aos 51, acaba de se mudar para o Rio e encara um novo galã, em Joia rara, a novela das seis. Ali, numa tarde de sexta-feira, entre três cafés expressos sem açúcar, ele contou como sorve o melhor desses dois mundos.

– O que você anda se perguntando?

– Nossa, tanta coisa! Vivo me perguntando se estou conduzindo bem a educação dos meus filhos. Penso muito na família, agora que mudamos para o Rio. Foi algo que questionei bastante. Em São Paulo, morávamos em Embu das Artes, em uma casa meio chácara, onde eles tinham um círculo grande de amigos. Eu me perguntava se essa mudança não ia abalar a vida tão harmoniosa que construímos.

– E como tem sido a adaptação no Rio?

– Agora está bacana. O mais velho, de 10 anos, tinha mais resistência. Ele é conservador. Até se parece um pouco comigo nesse sentido. Demoro a fazer mudanças. Mas, quando resolvo, vou, e ele também. Tanto que, ao chegar, todos os dilemas acabaram. Eu sempre dizia: “Um dia vou morar na praia.” Mas tem aquela coisa: paulista quer ir para a praia e levar micro-ondas, torradeira… Não dá (risos). No Rio, não tem como ter o que São Paulo tem, e vice-versa.

– Você começou a trabalhar cedo?

– Sou quase aposentado (risos)! Comecei aos 16 anos, como office boy. Depois trabalhei como arquivista em uma empresa de engenharia. Daí fui servir no Exército. Era época de ditadura, não tinha como escapar. Saindo, entrei na faculdade de educação física e comecei a dar aulas para adolescentes. Foi assim por dez anos.

– Como o professor de educação física virou ator, o ator virou palhaço, e o palhaço virou galã?

– Sempre gostei de educação. Comecei no teatro pesquisando novas didáticas. Até que entrei para a primeira companhia. Abracei o teatro e nunca mais fiz outra coisa. Descobri a comédia satírica, que mistura circo, dança, música. Depois conheci outros grandes, como Leris Colombioni, italiano, que trabalhou com Fellini. Sem falar nas referências visuais, como o Golias, que plantou em mim essa vontade de ser palhaço.

– Tem um lado melancólico no palhaço.
– Faz parte. O bom palhaço é muito humano. Mas não é triste. Os grandes que conheci eram felizes, sem fazer palhaçada o tempo todo. Gracinha é uma coisa, humor é outra. O palhaço resulta simples, mas é sofisticado.

– Você não parece um cara engraçado.
– Em geral as pessoas me acham sério. Deixo para fazer humor mais no palco. Quem me vê na tevê e nunca me viu no circo se surpreende ao ver que meu trabalho não passa necessariamente por ser galã. Sobretudo porque não sou um galã, eu faço um galã. É roubada entrar em cena “se achando” o galã. Você tem o carisma. O galã acontece.

– Qual é a sua referência de galã?

– Gosto da escola italiana, do (Marcello) Mastroianni, do
Vittorio Gassman. São atores imponentes, bonitões, que souberam adequar o humor a sua figura. Meu trabalho sempre foi “off”, circo, rua. Diante do convite para o primeiro papel na tevê, na minissérie Mothern, do GNT, hesitei. Pensei muito.

– O Ziah de Salve Jorge roubou a cena e o consagrou como galã. O que esse personagem lhe acrescentou?

– Um monte de coisas. Sou calouro na televisão. Tinha feito o Herculano, de Cordel encantado, um cangaceiro, lúdico. A passagem do circo para o vídeo foi suave. Depois veio o presidente, em O brado retumbante, um personagem realístico. O Ziah era um cara entre o mágico e o real. A grande qualidade do ator são suas escolhas. Porque você pode fazer um personagem de diversas maneiras. E tem de ter uma coerência, até, sei lá, na maneira como ele toma um café ou bebe água. O mais difícil é conduzi-lo até o final. E o Ziah atingiu uma empatia grande.

– Você tem um visual rústico, diferente do dos galãs asseados e certinhos que a Globo vende. Acha que o sucesso decorre disso também?

– Não sei. Uma das coisas interessantes da arte é essa imprevisibilidade. Nunca se sabe o que causa esse “uau!”. Era um pouco improvável eu virar galã. Primeiro que comecei com quase 50 anos. Minha figura criou uma empatia, talvez pela surpresa de aparecer assim, mais velho.

– Mesmo na maturidade, o ego deve pegar…
– O ego é complicado, né? Você precisa mandá-lo ficar na dele. Por ser mais velho, tenho mais autoridade. Mando ele ficar quietinho e ele fica. Porque tudo leva ao descontrole. É esquisito andar na rua e todo mundo te conhecer. Eu me digo: “Calma, isso passa.” Por ter tantos anos de carreira, sei que é efêmero.

– Sua mulher se casou com o artista de circo e agora está com o galã da novela, tendo de enfrentar paparazzi, rumores de affair com atrizes, etc. Como lidam com isso?

– Sei que para ela é difícil. Mas essa decisão de eu ir para a tevê passou por ela, e foi incentivada até. Só que me convidaram para fazer uma novela, não para ser galã. Em Salve Jorge, eu ficava muito tempo longe, isso foi complicado. Mas fomos administrando à medida que foi acontecendo. Sem perder o chão. Se você se distrai, a relação vai à deriva. Você não pode perder a noção de quem é. Aos 50 anos, ao menos sei o que não sou. A idade ajuda a ter menos ilusões.

– Parece que tudo acontece meio tarde para você: casou e teve filhos aos 40…
– Filhos, sim. Mas Luciana é minha segunda mulher. Tive um primeiro casamento, que durou 12 anos. Sem filhos por opção. No intervalo entre um e outro, fiquei sozinho.

– Quantas vezes você amou?

– Poxa, fazer conta? Amei bastante. Amei essas duas vezes, amo muito agora. Mas tive muitas paixões. Não sei se amar é só quando se efetiva a relação. Vivi paixões tão legais, tão sofridas…

– O que o encanta numa mulher?

– Lógico que mulher bonita me atrai. Bonita de alguma forma. Porque a beleza é sensorial. Tem de vir acompanhada de uma personalidade sedutora, que tem a ver com espontaneidade, segurança e, principalmente, bom humor.

– Como você e sua mulher se conheceram?

– Foi em um trabalho no Nordeste. Ela é de Natal e fazia a produção do evento. Minha mulher é linda. Gostei do jeito de ela conversar, do humor. Namoramos a distância por um ano. Depois ela veio para o circo comigo, fazia números aéreos. Hoje, trabalha na administração do Zanni.

– O que o atrai num casamento longo?

– O que se constrói junto. Há um processo de formação da personalidade, quando se vive com alguém, que é impossível conquistar sem essa experiência. Depois de tanto tempo, você se torna alguém que jamais seria se não estivesse com aquela pessoa. É genial. Se não fosse casado, não seria quem sou hoje. Eu me considero mais evoluído do que há 12 anos.

– Beijo técnico, pegada técnica, isso existe?

– Existe! Você tem de lembrar que, além daqueles dois, tem mais ou menos uns 30 do lado. O diretor, o maquiador, o figurinista, e tem a câmera, o enquadramento, não pode cobrir a luz, e o diretor fala para virar um pouco para cá… Acredite.

– É isso o que você diz para a sua mulher?

– É! (risos)

– E o ciúme, como fica?

– Sempre tem um ciumezinho. Tem que ter. Eu também sou ciumento. Um pouquinho é saudável. Dá um frescor.

– Sexo, só com amor?

– Os dois valem a pena. A atração conta, tudo depende do momento. Contanto que seja sempre gentil.

O que é fidelidade para você?

– Nunca defini, mas acho que passa pela honestidade. A fidelidade é o exercício da franqueza. Se fiz ou fiquei com vontade de fazer, e isso não for tratado… Se coloco em dúvida a relação, e acho que a pessoa que está comigo não merece ser informada, entro num código comprometido de honestidade. Se conto, é porque essa pessoa é fundamental. Casais ficam juntos muitos anos porque mil coisas foram trabalhadas no caminho. É preciso usar os dilemas para evoluir, senão não faz sentido.

– O que a paternidade lhe trouxe?

– Um choque de realidade. Fundamental para um ator. Os filhos me cobraram responsabilidade. Ser pai é um exercício incrível da existência. Quem tem filho é uma coisa, quem não tem é outra. Não sou melhor do que ninguém por isso, mas sou melhor do que eu era antes, por ser pai.

– O que considera essencial ensinar aos seus filhos?

– Alguns valores fundamentais. Honestidade nas relações. Responsabilidade pela própria vida, sem delegar para ninguém. Gentileza. Porque existe uma mítica do “fora da lei”, das contravenções. Espero que eles não percam o rumo da bondade.

– É verdade que você não deixa eles verem novela?

– Não é assunto para eles. Sem contar que acham chatíssimo (risos). Em casa só temos uma televisão, não tem o negócio de uma na sala, outra no quarto… Novelas das nove trazem assuntos pesados, eu teria de explicar diariamente alguma coisa que não está na hora de eles saberem.

– Qual foi a sua experiência com as drogas?

– Nunca me atraí por drogas. Sempre fui do álcool. Gosto da social da cerveja, do uísque. Meu pai era dono de bar, conhecia a vida e foi rigoroso. Mas o vinho nas refeições, a prática social do álcool sempre foi natural e saudável. O que não rola é incentivar o alcoolismo. Hoje acho demais, moleque de 15 anos tomando vodca, e olha que eu gosto de beber…

– Qual é o seu vício favorito?

– Uísque. Adoro.

– O que pensa sobre a descriminalização da maconha?

– Não acho tão simples. Mas a gente funciona no nível do palpite. Não sei se legalizar vai abrir o mercado, se o cara vai pagar imposto. Acho simplista, ingênuo até. Na Holanda, há uma quantidade de porte legal. Mas se trata de outra sociedade, a gente tem de contextualizar. A legalização de um porte mínimo talvez tenha um impacto positivo na criminalidade.

– Quando você mais batalhou na vida?
– A vida toda. A rotina de um grupo independente de teatro é mambembe, itinerante. Às vezes deixava minha casa e ficava num trailer, no circo, com a família toda. Sempre nos mantivemos pelo trabalho. Somente nos últimos cinco anos, com o reconhecimento do Zanni e da companhia La Mínima, os trabalhos vieram com menos esforço. E, na tevê, tenho carteira assinada.

– Você já disse que no circo se sente mais criador. O palhaço é o papel preferido?

– Sim. Não que não goste de ser dirigido. Como ator, creio que fiz boas escolhas. Mas, quando fico solto, vou criar um projeto pelo olhar do palhaço. É onde me sinto completo. Também fiz trapézio. Mas o trapézio cobra fisicamente, não dá mais para fazer de quinta a domingo.

– Alguma crise com a passagem do tempo?

– Não. Ainda. Fico imaginando jogador de futebol quando tem que parar, deve ser um horror. No trapézio, rola uma eletricidade, e isso dá um traço de personalidade especial. Você vive um risco diário. Mas, até os 47, fiz acrobacias. Não estou tão mal assim.

– Como mantém a forma?

– Sou meio xiita. Antes o cotidiano do circo me bastava. Agora, amigos preparadores físicos me deram um treinamento. Faço na academia do prédio, na praia. Gosto de ar livre. Às vezes, de manhã, fico na piscina com meus filhos. Fico mal-humorado quando passo dois dias sem treinar.

– O que o dinheiro realmente pode comprar?

– Gosto de oferecer. Outro dia dei uma joia bacana, um brinco com pérolas, para minha mulher. Mas em geral penso em estabilidade. Aspiro um conforto relativo, uma escola boa para meus filhos. Gosto de boa comida em casa. Meu maior luxo talvez seja comer e beber bem. Fora isso, ando de moto há 30 anos. Gosto de moto alta. O último presente grande que me dei foi uma BMW 800.

– Como gostaria de ser lembrado?

– (longa pausa) Como um bom palhaço.

– Tem mesmo um carinho especial pelo palhaço…
– O palhaço mudou minha vida. O meu jeito de ver o mundo. No palhaço, um exercício fundamental é se desapegar do ego. Ao pintar o rosto, ironizo a beleza, me volto para o humano. Mesmo os grandes atores não chegam a um grande palhaço. O palhaço é sublime. É o top da capacidade artística. Por isso, nem quero ser lembrado como um grande, mas como um bom palhaço.

 

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