A SENHORA DP

O casamento acabou e rodrigo botou em prática o plano de curtir a vida adoidado. Mas não durou muito: o amigo Naldão preparou uma surpresa inesquecível.

 

por Tom Cardoso

ilustração Zé Otávio

 

Passei boa parte da minha solteirice na companhia do Naldão, um executivo do mercado financeiro que circulava por todos os puteiros de luxo de São Paulo. Ele era um sujeito muito talentoso – não para conquistar mulher (se fosse, não gastaria metade do que ganhava no meretrício), e sim para ganhar dinheiro. Era um visionário. Quando a eleição de Lula para presidente foi dada como certa, em 2002, o que fez despencar as ações da Petrobras, ele percorreu o caminho contrário da maioria dos investidores e comprou, na baixa, milhares de ações da estatal, que subiram fortemente logo depois de Lula, já eleito, assumir o compromisso de seguir os fundamentos econômicos de seu antecessor, Fernando Henrique Cardoso. Rico da noite para o dia, Naldão aumentou os investimentos em putaria. Organizou bacanais memoráveis em suítes presidenciais de hotéis de luxo. Ele fazia sempre questão da minha presença. Eu não gostava muita da ideia de estar em companhia de um monte de homem pelado, mas ele adorava. Nunca vi alguém gostar tanto de suruba. Ele ficava ensandecido e às vezes exagerava, como no dia em que me deu um peteleco no saco enquanto eu me divertia com uma loira descomunal. Broxei na hora. Na verdade, eu não achava a mesma graça que ele naquelas surubas com dez homens e dez mulheres. E ainda tinha a sensação de que ele me olhava às vezes, com uma cara de… Deixa pra lá.

Eu acabei ficando noivo da Vanessa e diminuindo gradativamente as minhas participações nas festas do Naldão. Ele insistia, dizia que tudo “seria por conta dele”, mas eu já estava em outra. Eu estava apaixonado e achava muito mais gostoso estar com a Vanessa do que com três loiras ao mesmo tempo, ainda mais sofrendo o risco de levar um peteleco no saco ou um olhar… Fiquei dez anos sem ter notícia do Naldão. Exatamente os dez anos que duraram o meu casamento com a Vanessa, marcado por DRs intermináveis e por cenas de ciúmes protagonizadas por ela. Uma noite, num jantar, um dos amigos dos tempos de suruba bebeu muito e deixou escapar sobre as nossas farras com o Naldão, o “mecenas da putaria”. A Vanessa enlouqueceu. Ficou possessa. Já estava meio bêbada e jogou vinho na minha cara, dizendo que eu não prestava, que eu era um promíscuo, um homem vulgar. Nem adiantou explicar que eu tinha desistido imediatamente de participar dos bacanais assim que a conheci e me apaixonei por ela (o que era mais ou menos verdade). Enfim, era impossível permanecer casado por muito tempo com uma mulher possessiva, que tinha ciúmes do que eu tinha vivido antes de conhecê-la.

Fui passar o primeiro verão, novamente solteiro, em Maresias. E quem foi o primeiro cara com quem me deparei ao entrar no principal barzinho da cidade? Ele mesmo: Naldão. Estava irreconhecível. Careca, mais gordo e cultivando uma barbicha ridícula, cheia de tufos brancos. Parecia um caminhoneiro americano, com anos de estrada. Não era só o aspecto físico que mudara. Ele estava completamente falido. O gênio das finanças havia acreditado nas ladainhas de um novo milionário brasileiro, que tinha como plano se tornar o homem mais rico do mundo, mas que nos últimos meses assistira às ações do seu grupo derreterem e estava perto da falência. Naldão, que comprara ações da empresa do sujeito a rodo, também. Quando me viu naquela noite em Maresias, ele soltou um grito: Rodrigo. Me abraçou, beijou desagradavelmente as minhas duas bochechas e passou a noite inteira grudado, falando de suas novas aventuras sexuais. Continuava um pervertido, mas não tinha mais condições de bancar os luxuosos bacanais. Em compensação, ele tinha a Carmen. Sim, a Carmen. Eu precisava conhecer. Ele se referia a ela como “Senhora DP”. Quis saber a razão do apelido e ele explicou que ela era uma loira balzaquiana, de corpo escultural, ninfomaníaca, uma entusiasta praticamente de DP, uma das práticas favoritas do grupo nas memoráveis surubas financiadas por ele.

Naldão me contou que a Senhora DP estava, inclusive, em Maresias, dividindo o quarto com ele e que desde a chegada à praia os dois procuravam um parceiro de confiança para a DP. Não podia ser qualquer um. No começo resisti à ideia – eu, ao contrário do Naldão e de outros amigos, não achava muito edificante ficar tão próximo de outro homem durante uma trepada –, mas acabei convencido a participar do ménage, não pelo meu amigo, mas pela própria Senhora DP, que na manhã seguinte enviou um envelope para a portaria do meu hotel. Abri e vi uma foto dela deitada na cama, nua, de bruços, olhando para trás, com uma “singela” dedicatória: “Espero por você”. Carente pelo fim do casamento, sem transar há duas semanas, acabei topando.

Tomei um Viagra (não seria tão prazeroso ver o Naldão pelado novamente), peguei um táxi e fui até o hotel deles. A porta não estava trancada. Atravessei o corredor, já tirando a roupa, fui em direção ao quarto onde tocava baixinho uma música do Sting. Quando entrei, já pelado, excitado, me deparei com o Naldão de quatro na cama, sendo sodomizado pela Senhora DP, que vestia um cinto de onde saía um enorme membro de borracha. Dei um pulo para trás, assustado, no momento em que o Naldão arrastou os joelhos para o pé da cama, levantou o queixo com aquela barbicha bizarra e falou: “Vem aqui com a gente, vem…”

Voltei com a Vanessa.