PORTA PARA O INFERNO

Os crimes mais bárbaros, assassinos, psicopatas, traficantes e o pior da sociedade estão na deep web. Com a ajuda de um hacker, Status mergulhou nesse mundo paralelo e conta como funciona a rede sem lei

 

Por Rodrigo Caetano 

Ilustração Juliana Russo

 

Na manhã do dia 1o de agosto, soldados da Gardaí, a força policial irlandesa, arrombaram a porta de um apartamento localizado na praça Mountjoy, em Dublin, famosa por ter sido o endereço do escritor James Joyce. No local morava um dos homens mais procurados pelo FBI, a polícia federal americana: Eric Eoin Marques. Nascido nos Estados Unidos, filho de um brasileiro com uma irlandesa, ele foi preso sob a acusação de ser o maior explorador de pornografia infantil do mundo. No apartamento onde residia, pertencente ao seu pai, o arquiteto brasileiro Antônio Marques, o jovem de 28 anos supostamente comandava a Freedom Hosting, empresa especializada no armazenamento de sites. O diferencial do serviço prestado por Marques é que ele garantia total anonimato na web. Por apenas US$ 5, qualquer pessoa com algum conhecimento de programação poderia criar uma conta e publicar conteúdos ilegais, sem que ninguém, nem mesmo o FBI, ficasse sabendo.

O Freedom Hosting era o paraíso dos pedófilos. Somente um dos sites hospedados em seus servidores, o Lolita City, possuía mais de um milhão de vídeos e fotos eróticas de crianças e adolescentes. A infame página ficou famosa em 2011, após o grupo de hacktivistas Anonymous realizar uma ofensiva para derrubá-la. Na época, o site contava com mais de 14 mil pedófilos cadastrados, todos escondidos por trás de pseudônimos. O papel de Marques no mundo do crime, no entanto, ia muito além da pedofilia. Sua empresa abrigava todo tipo de atividade criminal, desde tráfico de drogas até contrabando de pessoas e lavagem de dinheiro. Por esse motivo, ele, que espera a extradição para os Estados Unidos, é considerado um dos maiores criminosos dos subterrâneos da internet: a chamada deep web.

Conhecida como o inferno da rede, a deep web é como se fosse o porão do universo digital, onde não há lei e onde mora o lado mais podre da humanidade. Para acessá-la é preciso ter bons conhecimentos de programação e um estômago forte. Além de pedófilos, todos os tipos de depravados e sociopatas utilizam esse submundo digital para disseminar e compartilhar conteúdos que, só de serem baixados, fazem do espectador um criminoso. Ela é também o meio de comunicação mais utilizado atualmente por traficantes, assassinos de aluguel, mercenários e hackers. O Freedom Hosting era o motor que mantinha a engrenagem desse mundo obscuro em funcionamento. Era esse serviço que dava suporte, por exemplo, ao TorMail, espécie de Gmail do mundo do crime. O serviço garante aos usuários trocas de mensagens seguras e anônimas, livres de interceptação de autoridades, inclusive do serviço secreto americano.

Dois meses depois da prisão de Marques, o FBI conseguiu outra grande vitória na guerra contra o crime digital. O americano Ross William Ulbricht foi detido em sua casa, na cidade de São Francisco, na Califórnia, sob a acusação de ser a verdadeira identidade de Dread Pirate Roberts, o administrador do Silk Road, o site de comércio eletrônico mais popular da deep web. Drogas e remédios controlados eram seu forte. Segundo o FBI, em dois anos, o site faturou cerca de US$ 1,2 bilhão. Nesse período, foram completadas 1.229.465 transações, número de fazer inveja a qualquer empresa de e-commerce. Não por acaso, as prisões de Marques e Ulbricht foram muito comemoradas pelos policiais. “Supostamente era para ser um mercado negro invisível, mas o tornamos visível”, disse um agente federal à revista americana Forbes. “Ninguém está fora do alcance do FBI.”

As prisões abalaram o submundo da internet. Nos dias seguintes às operações policiais, diversos sites fecharam. Entre eles os infames 4Pedo, The Love Zone e PedoEmpire, os mais famosos portais de pedofilia, ao lado do Lolita City. Outros sites especializados na venda de drogas, e também armas, tiveram de paralisar suas operações, incluindo o Black Market Reloaded, o segundo mais popular da deep web. “Triste pelo Dread Pirate Roberts”, afirmou, em um fórum, o administrador do e-commerce, que se identifica como backopy. “Estou realizando todo tipo de teste de segurança, isso deve deixar o sistema lento, mas espero que vocês entendam a seriedade da situação”, disse backopy. “O Silk Road era nossa maior inspiração”, afirmou em outro fórum o administrador do Sheep Marketplace, importante site de vendas da deep web. “Substituí-lo não será fácil, mas nosso plano vai continuar.” A julgar pelo pouco conhecimento que as autoridades ainda têm sobre a deep web, não é difícil que surjam novos sites para ocupar as lacunas deixadas pelo Freedom Hosting e pelo Silk Road.

Os dois serviços desmantelados pelo FBI são apenas a ponta do iceberg, um pequeno pedaço das trevas digitais que, pela ganância e pelos erros de seus responsáveis, acabou emergindo à superfície e ganhando notoriedade na web que todos conhecem. O que se esconde nas profundezas desse oceano de informações é algo muito mais nefasto e perigoso do que traficantes de drogas e criminosos digitais. Quem se atreve a navegar pela deep web é levado por um caminho sem volta. Encarar essa viagem é como encarar a face do mal. De forma simplificada, a deep web compreende tudo aquilo que buscadores como o Google não conseguem encontrar. Pode parecer improvável, mas essas informações escondidas representam cerca de 80% da rede. A consultoria americana BrightPlanet, especializada em encontrar informações ocultas na internet, estima que o subterrâneo da web seja cerca de 5.000 vezes maior do que sua superfície. Ela é dividida em camadas, que podem ser comparadas aos Nove Círculos do Inferno descritos na Divina comédia, de Dante Alighieri (leia quadro na pág. 73). Estima-se que sejam oito, mas há quem diga que há muito mais para baixo. De qualquer maneira, apenas as três primeiras são realmente acessíveis. A partir da quarta, é necessário ter conhecimentos avançados não só de programação, mas também de física quântica e ter bons contatos que abram as portas.

Na mira da Polícia federal

Com a ajuda de um hacker, Status fez um tour pelos calabouços da web. Mergulhar nas profundezas não é difícil. Mas chegar ao fundo é uma tarefa quase impossível, para não dizer desumana. Para ter acesso às primeiras camadas, basta instalar um software chamado TOR, ou The Onion Router, numa clara referência às camadas de uma cebola. Sua função é tornar a navegação completamente anônima por meio de um sistema de rede. Os dados passam por milhares de computadores conectados, tornando impossível rastreá-los. Esse tipo de dispositivo foi desenvolvido inicialmente pela Marinha dos Estados Unidos, para proteger informações secretas. Hackers adaptaram e criaram sua própria versão do sistema para esconder suas identidades.

Terror online

Os principais crimes da Deep Web que vazaram para a superfície

Maníacos de Dnepropetrovsk 

Os ucranianos Viktor Sayenko e Igor Suprunyuck filmaram uma série de assassinatos cometidos por eles, em 2007. Uma das filmagens chegou à web aberta. O vídeo mostrava os criminosos assassinando um idoso com um martelo. Eles foram capturados em 2009 e condenados à prisão perpétua.

Canibal de Rotenburg 

Em 2003, o alemão Armin Meiwes confessou ter assassinado e comido uma pessoa que conheceu na internet. O crime possibilitou a descoberta de uma série de fóruns na deep web destinados ao canibalismo. Detalhe: Meiwes afirmou que cometeu o crime a pedido da vítima.

O Albergue

A polícia de Nova Délhi descobriu uma espécie de clube clandestino no qual pessoas, a maioria pobres e mendigos, eram torturadas até a morte. O crime era patrocinado por milionários de várias partes do mundo. O caso serviu de inspiração para o filme O Albergue (foto), do diretor Eli Roth.

No Brasil, existem algumas frentes de combate ao crime cibernético na deep web. O Ministério Público mantém um grupo de trabalho exclusivo para identificar e prender criminosos sexuais que usam a internet para disseminar material pornográfico ilegal, em especial relacionado ao abuso de crianças. Composta de 12 pessoas, essa equipe trabalha em conjunto com a Polícia Federal, que possui um departamento de crimes digitais. Existem também entidades não governamentais que dão apoio às autoridades como a Safernet, uma associação civil de direito privado, fundada em 2005 por cientistas da computação e advogados, cujo trabalho é vasculhar a web em busca de materiais ofensivos.

Em junho do ano passado, foi descoberta uma quadrilha de pedófilos que atuava no Brasil e em mais 34 países. As investigações começaram no Rio Grande do Sul. O grupo utilizava um software de compartilhamento de arquivos para trocar fotos de pedofilia. A PF descobriu o esquema após prender um dos criminosos, que passou a colaborar com o Ministério Público. Segundo o procurador da República Rodrigo Valdez, que coordenou as investigações, essa tem sido a forma mais eficiente de encontrar esse tipo de bandido. “O pedófilo da internet, na maioria das vezes, nunca abusou de menores, apenas busca as imagens”, afirma. “Quando esse pessoal é preso, geralmente colabora com a polícia.” Autoridades dos EUA e da Europa auxiliam na identificação de pessoas que baixaram arquivos proibidos no Brasil. Sempre que uma foto ou vídeo são rastreados até o País, eles avisam os policiais brasileiros. “Hoje, só a posse de material ofensivo já é considerada crime”, diz Valdez. “Mesmo que o arquivo tenha vindo de outro país, se alguém no Brasil teve acesso a ele, o Ministério Público pode pedir sua prisão.”

A questão é que identificar pessoas na deep web é uma tarefa muito difícil. “Rastrear conteúdos ilegais é algo que já vem sendo feito, mas identificar de onde veio o material é uma tarefa muito difícil, quase impossível”, afirma José Perez Alegre, analista sênior do laboratório da F-Secure, empresa especializada em segurança de dados. Segundo o especialista, até hoje não se sabe o tamanho real da deep web, o que dificulta ainda mais o trabalho de monitorar esse mundo. “Existem sites dinâmicos, por exemplo, que só são carregados quando há uma requisição”, diz. “Para isso, é preciso saber onde esse site está.” Esse tipo de página não fica armazenada em lugar nenhum. Ela é carregada só quando alguém digita seu endereço exato. Quando a pessoa se desconecta, ela volta a não existir, tornando impossível seu rastreamento.

A maioria dos endereços da deep web utiliza a terminação .onion, só acessível por meio do TOR. Como não há buscadores, para encontrar alguma página no submundo é preciso saber seu endereço. Existem alguns diretórios, como o Evil Wiki e o HiddenWiki. Neles é possível encontrar diversos fóruns de hackers, muitos sites de pornografia, filmes e livros proibidos e fotos de celebridades que vazaram na internet. Logo de cara dá para perceber uma característica importante da deep web. Nada está à mostra. Ninguém vai deparar sem querer com algum conteúdo inadequado, como acontece frequentemente na superfície da web. Ou seja, não existem inocentes no submundo. Se alguém diz que encontrou alguma coisa, é porque procurou.

Antes de ser fechado, o Silk Road também podia ser encontrado com alguma facilidade. Fazer compras no site, no entanto, exigia habilidade. As transações eram completadas por meio de uma moeda virtual chamada bitcoin (leia quadro na pág. 78).

Ela foi criada, em 2008, por um hacker autodenominado Satoshi Nakamoto. Seu objetivo era desenvolver uma moeda sem nenhum tipo de controle governamental ou de um banco central. E ele conseguiu. Quando foi preso, Ulbricht possuía 3,6 milhões de bitcoins em seu computador. Como uma bitcoin é atualmente cotada em US$ 100, o gênio do mal possuía US$ 360 milhões. Outros bilhões de dólares são movimentados diariamente na deep web sob a forma de bitcoins. Tudo, absolutamente tudo o que não se imagina que possa ser comercializado, é encontrado lá. No Silk Road, drogas como maconha, anfetamina e LSD, e remédios controlados, como ansiolíticos, estavam no topo da lista dos mais vendidos. O site não vendia armas, mas elas são muito populares na deep web. Dados bancários, senhas e cartões de crédito também podem ser facilmente comprados. Todo tipo de tráfico está presente: de pessoas, de animais raros, de órgãos humanos e de crianças. Com bitcoins suficientes, é possível até encomendar a morte de alguém.

Sites de assassinos de aluguel são uma das partes mais chocantes da deep web. Há centenas deles. Sem cerimônia, os pistoleiros anunciam seus serviços. Alguns arriscam slogans. “O melhor lugar para enterrar seus problemas”, anuncia o C’thulhu, um grupo de assassinos formado por ex-soldados da Legião Estrangeira da França. O Hitman Network, formado por um trio de assassinos que atua nos Estados Unidos, no Canadá e na Europa, tem até promoção. Quem indica um cliente, ganha 1% de comissão para cada serviço feito. Mas o mais revoltante de todos é o Assassination Market. Ele funciona como uma espécie de crowd funding para eliminar pessoas, segundo descrição feita pelo site americano The Daily Dot, especializado em internet. O sistema funciona da seguinte maneira: um usuário adiciona o nome do alvo ao sistema. Quem tiver interessado na sua morte, pode depositar bitcoins em um fundo associado ao alvo. Ao mesmo tempo, é possível fazer previsões sobre quando a pessoa vai morrer. Quem acertar, leva o dinheiro.

A lógica nefasta por trás do site, e que o tornaria eficiente, é que algum maluco vai se encarregar de garantir que sua aposta seja a vencedora. O criador do site, que atende pelo nome de Kuwabatake Sanjuro, justifica seu serviço da seguinte maneira: “Matar é, na maioria das vezes, errado. Mas, como é inevitável, eu prefiro me encarregar dessa tarefa do que deixar para qualquer outra pessoa. Oferecendo esse serviço de forma barata e eficiente, espero que outras alternativas imorais não se tornem lucrativas ou confiáveis.” O preço para contratar um matador de aluguel varia conforme o perfil do alvo escolhido. Para eliminar um executivo, gastam-se entre US$ 20 mil e US$ 30 mil. Jornalistas saem mais caro, em torno de US$ 100 mil. Embora haja quem diga que a maioria dos sites que anuncia o serviço é apenas brincadeira de mau gosto, existem evidências de que se trata de um negócio real e lucrativo. O próprio Ulbricht teria contratado um matador de aluguel para dar fim a duas pessoas, um hacker que o chantageava e um ex-funcionário, segundo o FBI.

Problemas Psicológicos

O submundo da internet não é um lugar para pessoas com alguma sanidade mental. Quem acaba encarando esse mundo por motivos profissionais, por exemplo, sofre sérias consequências. É o que acontece com os funcionários do Google contratados para vasculhar a web em busca de conteúdos impróprios. Eles fazem parte de um grupo especial que trabalha só um ano para a empresa. Sua função é proteger os produtos da companhia de imagens ou vídeos que, por alguma razão, emergem das profundezas. Um deles contou ao site BuzzFeed como era sua rotina. Decapitações, mutilações e pornografia infantil eram retiradas diariamente da rede. Em determinado momento, o jovem recém-formado passou a sofrer problemas psicológicos. “Fui a um psiquiatra indicado pelo Google. Ele me mostrou algumas fotos e eu disse que achava uma delas doentia. Mas era apenas um pai com uma criança”, afirmou. “Você acha que está normal, mas essas coisas te levam para um lugar sombrio.”

Em 2003, um caso chocou a Alemanha e trouxe à tona um pouco do que acontece na deep web. Armin Meiwes confessou ter matado e comido uma pessoa. Ele ficou conhecido como O Canibal de Rothenburg. Meiwes disse ter conhecido a vítima na internet, em um site no qual as pessoas se ofereciam para serem comidas. As investigações desvendaram uma série de sites hospedados nos subterrâneos da internet especializados em canibalismo. Páginas como Cannibal Cafe, Guy Cannibals e Torturenet eram usadas por assassinos para trocar experiências, selecionar vítimas e marcar encontros com outros adeptos da prática. Outra vertente desse ramo são os sites de mutilações. Para acessá-los, é preciso provar ter cortado um membro, seu próprio ou de outra pessoa. Um dos mais famosos é o Penis Panic. Além de mostrar imagens de genitálias mutiladas, ele fornece receitas de como cozinhar pênis e outras partes do corpo.

Na mesma linha, mas em outra categoria, estão os sites de filmes Snuf. Esse tipo de cinema retrata assassinatos reais. Em 2009, dois ucranianos foram capturados depois que um dos seus vídeos vazou para a superfície. Viktor Sayenko e Igor Suprunyuck ficaram conhecidos como os Maníacos de Dnepropetrovsk. Eles filmaram uma série de assassinatos cometidos em 2007. O vídeo que chegou à web normal recebeu o título de 3 guys and 1 hammer. Nele, Sayenko e Suprunyuck agrediam um idoso até a morte com um martelo. Os dois foram presos e condenados à prisão perpétua. Na Índia, a polícia de Nova Délhi descobriu uma espécie de clube no qual milionários pagavam para assistir pessoas serem torturadas até a morte. As vítimas, a maioria pessoas pobres ou mendigos, sofriam por horas até perderem a vida, tudo transmitido pela internet. O caso serviu de inspiração para o filme O albergue, do diretor Eli Roth.

O FBI tem tido sucesso com algumas ações, mas o anonimato, espinha dorsal do submundo digital, segue garantido. Não está claro como os federais chegaram em Marques, mas Ulbricht, do Silk Road, foi preso por ter cometido erros primários. Ele usou um e-mail pessoal, por exemplo, para se registrar em um fórum no qual fez propaganda do seu negócio. Além disso, um dos maiores traficantes de heroína do site, Steve Lloyd Sadler, foi preso em julho e passou a colaborar com a polícia. Após o fechamento do Freedom Hosting, alguns usuários identificaram um vírus disseminado pelo FBI para rastrear os criminosos. Ainda não há informações sobre a eficácia dessa tática. Mas o fato é que, mesmo intimidados, pedófilos, assassinos, traficantes e demais integrantes da deep web já estão procurando alternativas para continuar com suas atividades. Para desespero da polícia, existem inúmeras alternativas. E, para quem nunca teve contato com esse território sem lei, o desesperador é saber que criminosos e pervertidos encontraram um espaço livre para trocar informações e cometer atrocidades.