AS MATADORAS

No teatro de horror em que o México se transformou, tomado pela guerra do tráfico, surge um personagem sinistro e sedutor: as sicárias, assassinas de aluguel que matam qualquer um com extremo sangue-frio

 

Por Alejandro Almazán

 

A atual guerra do governo mexicano contra o narcotráfico e as disputas entre os diversos cartéis de traficantes do país pelo controle do mercado fazem do México palco de um derramamento de sangue sem precedentes na história da nação. De 2006 até o ano passado, estima-se que mais de 70 mil pessoas tenham sido mortas no conflito, mas há quem diga que os números são muito maiores. Nesse teatro de horror, em que corpos são derretidos em ácido ou pendurados em pontes e viadutos, circula pelas sombras um personagem sinistro: as sicárias, matadoras de aluguel que prestam serviço para traficantes em suas intermináveis contendas por território, drogas e armas. O jornalista Alejandro Almazán, autor do livro Chicas Kaláshnikov (Editora Oceano, 2013), é um especialista no assunto e escreve para Status sobre seu encontro cara a cara com duas sicárias. As conversas revelam quem são, como pensam e o que motiva essas mulheres a, em troca de dinheiro, alimentar um mundo no qual a morte parece valer muito mais do que a vida.

As novelas mexicanas são famosas por seus personagens dramáticos, mas a realidade do meu país tomado pela violência  do narcotráfico supera muito a ficção. Não há, seja em novelas, seja em canções, sicárias que se equiparem a, por exemplo, Delia Buendía, a Ma Baker, uma ex-caixa de uma cafeteria que chegou ao topo de um cartel à base de tiros e chantagens, ou a Claudia Alejandra, que, aos 26 anos, carregava uma AK-47 a tiracolo quando o Exército a assassinou junto com outros pistoleiros – os vizinhos disseram que a mulher só vendia roupas e o Exército a acusou de ser matadora e cumprir ordens de um cartel louco que apregoa o amor ao próximo.

Eu conheci uma matadora por acidente. Foi em um restaurante em Chihuahua, capital do Estado homônimo, no norte do país. O garçom ouviu quando um amigo e eu estávamos conversando sobre a violência, então se aproximou para nos dizer que ele havia sido pistoleiro e nos contou sua história como se fôssemos velhos conhecidos. Naquela época, havia uma moda entre os pistoleiros: dar entrevistas, gabar-se de suas proezas de macho e dar a entender que, hoje em dia, não há mais nenhuma dignidade na morte. Ou lembrar que os cartéis mexicanos inventaram o quinto elemento (a violência infinita) e andam por aí, pelas ruas, gabando-se disso. Ou, ainda, nos dizer que no México há outros que ganham com o narcotráfico, como os ricos, os políticos, os militares, a polícia e as funerárias. A história do garçom deu uma reviravolta quando ele falou de sua ex-namorada: uma matadora. Trocamos números de telefone e ficamos de entrar em contato. Voltamos a nos ver em Chihuahua.

Ato um

Deixaram-nos sozinhos no pátio da prisão, e a primeira coisa que pergunto a Yaretzi é quanto ela cobraria para me matar. Ela me olha como quem olha para um morto que não é de ninguém, com a cara impassível, indiferente, e, depois, com um ar de “femme fatale” que faria qualquer um se render, diz: “Você vale a mesma coisa que qualquer um, ou seja, nada.” Sua voz é suave, mas tem muita autoridade. Há uns sete anos, quando Yaretzi completou 18 anos, adquiriu, na escola militar, certa habilidade para matar com pistola. Essas mãos talentosas a levaram a conhecer o maior traficante de sua cidade natal. Um traficante que, como manda o figurino, recrutava quem tinha coragem suficiente para puxar um gatilho e a imperiosa necessidade de ganhar alguns dólares. Ele lhe ensinou outros truques, como torturar, disparar rajadas de balas de um carro a outro, sequestrar e desaparecer com pessoas. Yaretzi estava indo atrás de seu morto número 26, mas os soldados a prenderam: carregava duas metralhadoras AK-47 a tiracolo.

Essa moça de estatura baixa e moral alto começou a matar por atacado quando se rompeu a ordem rígida que havia em torno da morte. Porque, pelo menos aqui em Chihuahua, a morte chegou a ter sentido antes que Vicente Carrillo Fuentes (um dos grandes barões do tráfico de drogas do México, principal chefe do cartel de Juárez) se juntasse a Los Zetas (um dos cartéis mais violentos do país, que atua principalmente no nordeste mexicano) para acabar com El Chapo Guzmán (Joaquín Guzmán Loera, chefe do cartel de Sinaloa, um dos criminosos mais procurados do mundo). Antes, estouravam os miolos de um coitado se ele perdesse um carregamento ou fosse caguete. A colega que me acompanhou naquele dia à prisão diz que aqueles sim que eram bons tempos. Hoje, como Yaretzi me dirá mais tarde, os nomes e as razões não têm mais importância. “Não precisamos de motivos para matar”, cravará ela e jogará para trás essa cabeleira negra e limpa que não perdoa o vento. Matar por capricho – eu pensarei quando essa artista da morte for para a sua cela – tornou-se o verbo favorito do México contemporâneo e a vida é somente o complemento para consegui-lo.

Mas isso vai acontecer até o final.

 

 

Por enquanto, conto a vocês que Yaretzi chegou ao pátio da prisão trazida por um guarda que se sentia maior do que as trevas. “Somente quero saber como funciona o seu mundo”, eu lhe disse, e ela entendeu que o cara diante dela não tinha vindo visitá-la para resolver milhares de assassinatos. Ela aceitou e depois só me pediu uma coisa, como se estivesse procurando a redenção: “Você deve escrever que acredito em Deus e que estou arrependida.” Assim será. Mas primeiro temos que começar por quando ela trabalhava para o diabo.

Ato dois

“Escreva que me chamo Yaretzi, como a minha mãe. Vamos ver se essa infeliz vem me visitar quando ler a reportagem. Com certeza deve estar dizendo aos meus filhos que, além de puta, sua mãe é matadora. Mas, como estava dizendo, não nascemos matadores, nós nos tornamos. Eu me tornei ‘sicária’ na escola militar. Juro! Saí de lá com o coração feito pedra, odiando todo mundo. Muito estranho. Parece que nessas escolas te ensinam a não gostar de ninguém. E, como eu nunca fui daquelas que ficavam em casa, andei pelas ruas e lá encontrei o meu patrão. Ainda o chamo assim, embora ele já tenha sido morto. Ele batizou a minha menina e em seguida me engravidou do menino. Aproveitador desgraçado. Ele foi pego mais ou menos um mês depois que tive o Brandon. Contaram para a sua mulher que ele foi derretido vivo em ácido lá em Ciudad Cuauhtémoc. Por isso, se um dia me pegarem, espero já estar morta antes de me torturarem ou cortarem a minha cabeça. Não quero ver a cara desses cachorros porque sou capaz de ir atrás deles até no inferno. Mas, como estava dizendo, não entrei nesse trabalho porque mataram meu patrão. Não. Foi por dinheiro. Os homens matam por diversão, porque se divertem assim. Não sei qual o barato deles, mas sentem que é a melhor coisa do mundo.

Sem limites. Nós mulheres entramos por dinheiro. Pelo menos no meu caso foi assim. Dizer que nos metemos nesse trabalho por amor é babaquice. E, como estava dizendo, comecei aos 20 anos. No início, eu passava pano, limpava vômito e sangue. Depois fui mensageira e então passei a ser ‘condor’ (olheira) – quem localiza os inimigos. Depois, virei ‘lince’ – encarregada de capturar e torturar – e só depois me colocaram para matar. Foi assim que tudo aconteceu.”

Ato três

Em um restaurante de Ciudad Juárez, a “Loira” quis ser o meu Marco Polo no mundo das assassinas de batom. Chegou fazendo barulho com seus saltos, como se quisesse deixar rastro. A mulher era tão bonita que inspirava pensamentos indevidos. Talvez seja verdadeira sua lenda: os homens nasceram para adorá-la. Cheirava, vestia e espalhava Ed Hardy (grife de roupas e perfumes) como qualquer mulher “edhardyzada”. “Sou a Loira, a matadora”, apresentou-se, e eu sinceramente acreditei nessa fêmea, porque suas unhas, longas e brilhantes, eram um tipo de canivete suíço.

Amado Carrillo (falecido barão do tráfico no México, foi líder do cartel de Juárez e um dos mais poderosos traficantes da história do país), o Tony Soprano de Chihuahua e virtuose da morte, teve um cavalo que se chamava Silêncio, e isso era o que a “Loira” menos mantinha. Blefava. Dizia que dormia com uma Kalashnikov debaixo do travesseiro e chegou a contar uma história mirabolante somente para enfatizar que, para ela, os dias de matar tinham gosto de óleo queimado. Não que ela não gostasse de ser matadora, mas é que, como acontece com cerveja, depois de tomar muita, enjoa.

Integrantes do cartel los zetas são apresentados à imprensa. Muitos deles, mulheres. Na maioria, assassinas profissionais

No entanto, entre as várias confissões, a “Loira” assumiu que nos últimos 20 minutos havia inventado uma vida.Seu trabalho no cartel era outro, não menos arriscado: flertar com os traficantes rivais, saber tudo sobre eles, nunca contar nada sobre ela e entregá-los ao chefe para terem seus dedos arrancados, seus testículos cortados e suas cabeças crivadas de balas.

Alguns pequenos traficantes que foram presos disseram que essas modernas Mata Haris saíram dos colhões de “La Línea”, esse bando de pistoleiros do Cartel de Juárez que têm usado a estratégia mais antiga para manter sua praça: matar os inimigos. Hoje se sabe que o Cartel de Sinaloa (um dos principais grupos de traficantes do México, com atuação nos Estados de Baja California, Durango, Sonora e Chihuahua) também não deixou as mulheres de fora de seu plano empresarial. Os traficantes desta última década perceberam que há muita gente a ser morta e eles precisam de mãos dispostas a matar.

Anahí Beltrán Cabrera, 20 an0s, foi capturada em Sonora com um arsenal de armas que incluía uma metralhadora antiaérea capaz de fazer 800 disparos por minuto. virou símbolo da presença feminina entre os cartéis de droga

Os Artistas Assassinos, os Aztecas, os Mexicles, a “Loira” e tantos outros de sangue-frio fazem parte dessa mão de obra barata. Mas a “Loira”, ao contrário dessas três gangues, não gosta de contar para qual cartel trabalha. No início, pelo desprezo com que chegou a se referir a Chapo Guzmán, pensei que seu santo padroeiro fosse Vicente Carrillo. Mas ela também praguejou contra Vicente e pediu à Santa Morte que o Chapo, seu conterrâneo, conquistasse este país de mortos.

Independentemente de para quem trabalha, a “Loira” contribuiu com sua gotinha de sangue para que 29% das execuções no México acontecessem em Chihuahua. Poderíamos dizer que essa linda moça avermelhou o rio Bravo o bastante para que a diabetes, essa velha líder, fosse superada pelo assassinato como principal causa de morte nesse Estado do norte mexicano. A “Loira” entregou ao cartel um policial que costumava lhe prometer amor infinito quando estavam na cama. De outro, um varejista de drogas, ela suportou pancadas e o sexo mais selvagem, tudo para levá-lo a um esconderijo onde o torturaram até decapitá-lo com uma motosserra. Também teve que flertar com um gordo com bafo de inseticida que lavava dinheiro para os rivais. “Esse foi dissolvido no ácido”, disse a “Loira” com uma indiferença reptiliana, e eu imaginei o cara enfiado de cabeça em um tambor com ácido, esperneando.
– E depois você não sonha com todas essas pessoas que entregou para o matadouro? – perguntei-lhe, e ela tamborilou as unhas na mesa.

– Se fosse assim, o remorso me engoliria – respondeu e soltou um sorriso que teria sido capaz de fazer o Chapo e o Vicente Carrillo se sentarem à mesa para fazer as pazes. Não estou rindo de você – avisou com suavidade –, é que agora me lembrei de um filho da puta.

Esse filho da puta, que a fazia sentir cócegas nas entranhas, era um capangazinho que, aparentemente, não gostava nem da própria mãe. Todos os dias cheirava cocaína até as orelhas e matava com a mesma velocidade com que falava. Vendeu-se a outro cartel e para comprar alguns meses de vida foi se esconder em um vilarejo de Parral. A “Loira” o encontrou lá, em um boteco. “Tive muito trabalho para entregá-lo porque o cara sempre andava armado e escoltado”, disse-me a sicária. “Eu tive que me deitar com ele durante todo um maldito mês”, reclamou, e depois contou que o cara foi esquartejado e dois de seus guarda-costas foram queimados. “Esses, assim que os pegaram, jogaram gasolina e os queimaram vivos.” Tenho que confessar que continuo sem entender qual parte desse crime fez a “Loira” sorrir.

Ato Quatro

“Você nunca tem tempo para pensar nos assassinatos. Faça de conta que você desliga sua cabeça. Você simplesmente segue ordens, como em qualquer trabalho. Ou você vai me dizer que ninguém manda em você? Então, é a mesma coisa nesse trabalho. E, como qualquer trabalho, você deve fazê-lo com vontade. Dar tudo de si. Se você se drogar ou ficar muito confiante, termina com um tiro na testa. Também é por isso que há muitos mortos aqui em Chihuahua, porque os caras ficam zoando o dia todo e acabam vacilando. Por isso mataram os garotos de Salvarcar, porque a gangue andava muito drogada. Dizem que seu chefe já os dissolveu no ácido. Dar tudo de si. Essa é a chave para continuar matando. Eu fiz isso. Se me feriram uma vez foi porque a minha gangue estava enchendo a cara e não parou no bloqueio. Dar tudo de si. Dar tudo de si.”

– Você mata. E depois?
– Nada – diz Yaretzi, você não sente nada. Existe gente assim.
– Alguma vez você pensou que já deveria estar morta?
– Claro. Acho que é a única coisa que me surpreende nesse trabalho: continuar viva.
– O que a espera quando chegar a sua hora?
– O inferno. E, não se engane, me dá um cagaço. Sei que fui má, mas Deus perdoa até o pior filho da puta. Aqui na prisão me aproximei mais dele. Rezo todas as noites. Eu não preciso da Santa Morte ou do Malverde, eles são apenas intermediários.
– E você chora?
– Ainda não muito, mas vou levando.
– Li que Chihuahua é um desses lugares onde não tem sentido ficar limpo. Você acha que é verdade?
– Como assim? Não entendi.
– Que é melhor ser do mal do que do bem.
– É que aqui, para se dar bem, tem que ser do mal.
– E as matadoras são melhores do que os pistoleiros?
– É que os homens são muito impulsivos, logo saem atirando e isso irrita os chefes. Nós mulheres pensamos mais e isso também é uma virtude.
– Alguma vez o cheiro de um morto ficou em sua roupa?
– Várias. E sabe qual é o cheiro? De enxofre. É um cheiro parecido com o das manhãs de 16 de setembro (Dia da Independência do México), depois de todos aqueles fogos.
– No cartel para o qual você trabalha há mulheres que namoram e entregam os inimigos?
– Sim, isso está na moda. São garotas bonitas. São iscas. Mas é melhor ser matadora do que puta, você não acha?
– Você sabe quando essa guerra vai acabar?
– Sim. Nunca. O narcotráfico gera dinheiro e todos querem.
– Você já decapitou alguém?
– Nunca. Isso é muito doentio.
– Mas o cartel para o qual você trabalha faz isso, não é?
– Sim, mas é só para impressionar, para causar medo.
– Você já teve medo?
– Somente essa vez em que me pegaram, eu até perdi um rim.
– Como assim, perdeu?
– Perdendo.
– Quanto o cartel te paga?
– Ele me dava 15 mil pesos (cerca de R$ 2,6 mil) a cada 15 dias.
– Quinze mil?
– E estavam a ponto de me dar 32 mil.
– É muito dinheiro.
– Por isso entrei para esse trabalho, já te disse.
–Você deve viver bem, não é?
– Não é bem assim. Andei economizando o dinheiro para os meus filhos. Quero que eles estudem, que sejam alguém na vida. Eles ainda são pequenos e não sabem o que faço. Pelo menos, se um dia ficarem sabendo, espero que me perdoem vendo que não gastei o dinheiro.
– No início você disse que a minha vida tinha o mesmo valor que qualquer outra, ou seja, nada, mas te pagam bem. Então, devemos valer alguma coisa, não?
– Bom, não me pagam por morto e sim por dia. E se me pagassem mil pesos por dia, tira disso 500 que economizo, 200 ou 300 para comer, 100 para a gasolina. Ou seja, o morto vale as balas que você mete nele e aqui elas não são vendidas a dez pesos.
Por isso, nesses tempos, a vida desaparece da mesma forma que o barulho do disparo.