ESTOU NO SEXTO ANDAR

Rogério baixou o aplicativo Tinder, ideal para conhecer mulheres, e acabou encontrando – e pegando – a vizinha mais gata do prédio. Mas ele também foi pego, só que na escada

 

ilustração Titi Freak

 

Estava no sofá de casa, num fim de tarde entediante de domingo, como, aliás, costumam ser quase todos os meus domingos, quando, passando o olho nas últimas notícias no meu iPhone, li uma manchete que me chamou a atenção: “Encontre seu par com apenas um clique.” Era uma matéria sobre o Tinder, aplicativo ligado ao Facebook que havia virado febre nos Estados Unidos – até uma ex-miss americana havia criado seu perfil para buscar um pretendente online. O programa parecia ter sido feito para mim, bastava mesmo um clique para curtir as mais gostosas do Facebook, sem necessariamente parecer um desesperado ou um promíscuo – se a pretendente não me curtisse, nunca saberia que eu a curti. E vice-versa. Se os dois se curtissem, pronto: uma conversa era aberta e a chance de tudo acabar na cama se tornava real. E ainda havia um facilitador: um programa do GPS, atrelado ao aplicativo, localizava as mulheres que estavam mais perto de mim geograficamente. Eu não precisaria enfrentar o caótico trânsito paulistano para pegar mulher. Genial.

Baixei o programa no meu iPhone e já tinha à disposição uma lista enorme de mulheres do Facebook, que moravam razoavelmente perto de mim, para curtir ou não curtir. Nem quis saber de fazer uma triagem: fui curtindo todas as mulheres que apareciam na tela. Pulando, claro, apenas as feias e as que tinham o dobro da minha idade. Fiz tudo tão rápido, com tanta ansiedade, que passei a curtir várias mulheres sem olhar a foto direito. Tive a impressão de que conhecia uma delas, mas não diminuí o ritmo de clicadas por causa disso. Provavelmente a mulher que eu conhecia não iria me curtir também – seria muita coincidência.

Desliguei o meu iPhone e fui, como havia combinado, encontrar o Fábio, meu vizinho, na sala de squash do prédio. Jogava com ele todo fim de tarde de  domingo. Mal consegui me concentrar no jogo. Perdi todas as partidas. O Fábio percebeu que eu estava distante, desligado e sugeriu que a gente jogasse apenas meia hora. Eu achei ótimo. Estava ansioso para ligar de novo o meu iPhone e ver se alguma das 245 pretendentes que eu havia curtido me curtiu também. Liguei o iPhone assim que voltei ao meu apartamento. Fui em direção ao chuveiro com o olho grudado na tela. O resultado da minha varredura erótica era menor do que o esperado: apenas três mulheres também haviam me curtido.

A primeira e segunda eram bonitinhas, mas nem tanto. Mas a terceira… Senti um calafrio ao ver quem ela era. E ela estava a 30 metros de distância! Eu custei a acreditar. Certifiquei-me se era ela e se ela havia de fato me curtido no Tinder. Era ela. Era ela! A mulher que eu conhecia, mas na hora não parei para olhar direito: a Raquel, a morena mais gostosa do prédio, seios fartos e naturais, cintura de pilão, dona de uma bunda de dar inveja a muita dançarina de funk e… casada com o Fábio! Ele mesmo, meu vizinho e parceiro de squash. Fiquei tão sem reação que quase entro no banho com o iPhone. A ducha forte e quente caía sobre os meus ombros, mas não foi o suficiente para diminuir o meu estado de tensão. O que fazer? Ignorar a curtida de Raquel, pelos imensos riscos embutidos, ou ir em frente, sabendo que uma morena daquele naipe valia todos os imensos riscos? Optei pela segunda alternativa assim que recebi o primeiro “oi” dela. No dia seguinte, já estava transando com ela na escada do prédio. Assim é o Tinder: quem está lá quer ação!

A gente tinha descoberto uma maneira de diminuir os riscos das nossas transas na escada. Ficávamos grudadinhos, com as calças arriadas, esperando o sensor de luz apagar – qualquer movimento de alguém pela escada, ele acenderia novamente e daria tempo para a gente se vestir. O combinado era que, quando isso ocorresse, eu subiria e ela desceria. Ficamos cerca de três meses transando toda terça-feira, às oito da noite, horário em que ela costumava ir ao supermercado. Raquel morava no oitavo andar e eu no quarto. Ela descia e eu subia e a gente se encontrava no sexto andar, o nosso ninho de amor. Tínhamos meu apartamento livre, mas a Raquel dizia que adorava a sensação de adrenalina de estar na escada. Vai entender… O Fábio nunca desconfiou. Ela dizia que ia ao supermercado – e era, de fato, verdade –, mas ia até a garagem e me encontrava nos degraus. A gente transava por cerca de 15 intensos e deliciosos minutos e depois cada um seguia o seu rumo.

Numa terça-feira à noite, Raquel, como sempre, avisou que iria ao supermercado. Mas, distraída (provavelmente excitada com o nosso encontro), esqueceu de levar as chaves do carro. O marido percebeu que ela havia esquecido e saiu atrás para entregar as chaves na garagem. Quando chegou lá, não encontrou Raquel. Achou que provavelmente ela tinha voltado ao apartamento pelo outro elevador para buscar as chaves. Fábio voltou para o apartamento. Não encontrou a mulher. Achou estranho. Ligou para a portaria do prédio e perguntou se os seguranças haviam reparado, pela câmera, se a mulher descera ou subira no elevador. Eles asseguraram que Raquel não entrara no elevador naquela noite. Fábio achou que, como a mulher às vezes gostava de pegar a escada para fazer exercício, talvez tivesse dispensado o uso do elevador. Se não havia chegado à garagem, certamente havia caído. Entrou em pânico e passou a descer os andares em grande velocidade.

Naquele exato momento eu estava abraçado de conchinha com a Raquel, prestes a gozar. Quando o sensor deu o alerta e a luz se acendeu, não consegui tirar o meu pau de dentro dela. Gozei primeiro. Quando fui me preparar para colocar as calças, Fábio já estava na minha frente, ofegante – e furioso. Ele me deu um soco e só escapei da surra maior porque ele não queria que os vizinhos percebessem que sua mulher estava nua com seu companheiro de squash. Exigiu que ela se arrumasse e disse para eu ficar ali durante 15 minutos. Nem pensar! Quando ele saiu, subi correndo até a cobertura. Passei os 15 minutos mais terríveis da minha vida, encolhido atrás do latão de lixo, rezando para ninguém aparecer. Saí de lá correndo, achei um flat para morar temporariamente e pus o apartamento à venda na semana seguinte.