UM , DOIS, TRÊS,TESTANDO…

Gel afrodisíaco, vibrador que se parece com um coelhinho, algemas, cremes, fantasias e todo tipo de brinquedinho sexual passam pelas mãos – e por outras áreas do corpo –  dos testadores de produtos eróticos. Status mostra quem são e como é o dia a dia de quem ganha a vida com prazer

 

Por Natália Martino 

Ilustrações Derby Blue

 

“Não vai atender seu celular?” Não, naquele dia Márcia Hary Fernandes preferiu deixar o aparelho tocando sozinho em sua bolsa, enquanto se divertia conversando com as amigas.

Ela não queria revelar um segredinho sórdido: o que vibrava não era seu telefone e sim um “bullet”, espécie de vibrador de diminutas proporções, pouco maior que um batom. “Tenho sempre na bolsa, a gente nunca sabe quando vai precisar, né?”, diz, divertida. O aparelhinho sexual é parte da vida dupla da paraense de 30 anos. Em horário comercial, Márcia é assessora administrativa em uma madeireira de Belém do Pará. Nas horas vagas, testadora e consultora de produtos eróticos. Não se trata exatamente de uma identidade secreta, já que todos ao seu redor – de amigos a chefe – conhecem seu lado B. Mas ela prefere não fazer muito alarde. “Já sou considerada liberal demais, alguns dizem que sou louca, então é melhor não ficar contando por aí que meu vibrador ligou sozinho dentro da bolsa”, comenta, sempre aos risos.

Como profissional autônoma, seu cliente é o consumidor, não o fabricante dos bibelôs eróticos. Testa em si cada maquininha para aconselhar quais são indicadas para os diversos desejos e peripécias de alcova. “Se a pessoa diz que quer um gel ou um vibrador, eu vou dizer quais são os melhores.” Ela encomenda os produtos em São Paulo, paga à vista, experimenta cada um no próprio corpo e indica os melhores nas demonstrações que faz nas casas dos clientes e em eventos como despedidas de solteiras. Depois faz novas encomendas de acordo com a demanda – garantindo sua porcentagem. Enveredou por esse caminho depois de uma temporada morando em São Paulo, quando trabalhou em um Sex Shop. “Percebia o desconhecimento dos clientes sobre os produtos. Eu mesma já tive minhas dúvidas. Uma vez comprei uma pomada excitante, mas o clima esquentou bem mais do que o planejado. Esquentou tanto que eu e ele quase cozinhamos! Foi constrangedor.”

Espairecer o lado obscuro do mundo do sexo – erguido tabu a tabu – talvez seja a missão final dos testadores de produtos eróticos. A profissão, como muitas, começou informal, com “consultores” auferindo lucro diretamente da venda dos produtos. Agora, um novo nicho do mercado do prazer surge com o buscador de produtos eróticos Sexônico. É o testador profissional, que tira seu salário não da venda, mas do teste em si. Há um ano, o portal lançou nas redes sociais o anúncio da primeira vaga e recebeu sete mil currículos em cinco dias. A jovem contratada, com seus óculos de aros grossos avermelhados e roupas discretas, nunca tinha experimentado nada além de géis e pomadas até aceitar o emprego.

Nem cosquinhas

Quando se sentou em um café de São Paulo para fazer a entrevista do processo seletivo com Rodolfo Elsas, um dos sócios do Sexônico, Mariana Blac era funcionária de uma agência de publicidade e ganhava a vida gerando conteúdo para plataformas virtuais. “O que me seduziu na vaga foi a possibilidade de trabalhar em casa, sem horários fixos.” “Você tem namorado? Já usou produtos eróticos?”, foram duas das perguntas com as quais Mariana se deparou durante a entrevista de emprego. Sem constrangimentos, a jovem foi respondendo às indiscretas indagações de Elsas e, em pouco tempo, contava “causos” sexuais à vontade. “Ele falava das suas histórias pessoais também e isso me deixava à vontade, rolou uma boa empatia entre nós”, explica a então candidata. Os trunfos da jornalista para preencher a cobiçada vaga foram o texto leve, a experiência profissional com redes sociais e a habilidade jornalística de apurar informações. “Quando tive que testar as bolinhas de pompoarismo, por exemplo, fui atrás de uma professora de pompoar, busquei saber o que era importante avaliar e entender em que exatamente consistia essa prática”, conta.

Agora, sua principal função é testar um produto por semana e resenhá-lo no portal Sexônico, além de movimentar o blog e as redes sociais do grupo, trabalho pelo qual ela recebe pouco mais de R$ 2 mil por mês. O compromisso da testadora continua sendo com os clientes, já que o site não é para a venda e sim para a busca de produtos. Quando Mariana não gosta de algum deles, não perdoa – publica todas as suas impressões. O que mais a decepcionou foi o Vibrador Ponto G. “Estou até hoje achando que não tenho ponto G”, ironiza ela. O registro no site foi ferino: “Não fez nem cosquinhas. Nada! (…) os dedos em qualquer preliminar causam efeito muito mais devastador nas minhas zonas erógenas.” Como sexo tem uma boa dose de subjetividade, o portal abriu espaço para as resenhas também dos usuários, um modelo colaborativo de negócios, que agora está tão na moda. Cerca de 20% dos textos recebidos são publicados. “Só entram no site aqueles que realmente relatam experiências pessoais com os produtos”, explica Mariana.

 

 

 

R$ 1 bilhão por ano
O Sexônico dá um pequeno empurrão aos testadores amadores oferecendo um prêmio de R$ 500 em produtos para as melhores resenhas. Um dos ganhadores foi Rafael Marinho, 27 anos, de Salvador. “Quando o utilizei pela primeira vez, a sensação foi de: ‘Uauuu! Como era possível me masturbar sem isso antes!’”, escreveu em seu texto premiado sobre um objeto que atende pelo nome pouco elegante de masturbador. Hoje é professor universitário durante o dia e testador de brinquedinhos picantes à noite. Seu trunfo é testar tudo a dois. “Muitos dos produtos são para uso solitário, mas, se você os coloca na relação, podem melhorar muito a vida sexual do casal”, defende o soteropolitano que, junto com a namorada, tem três malas de produtos eróticos.
Rafael fala com desenvoltura sobre os apetrechos – “simplesmente dei um vibrador de presente a ela, que, claro, ficou chocada no início, mas depois adorou” – e está pronto para enfrentar os tabus que rondam o universo erótico. A Associação de Empresas do Mercado Erótico e Sensual (Abeme) revela que os vibradores são os produtos que mais sofrem preconceito nesse mercado que movimenta R$ 1 bilhão por ano no Brasil – 60% disso advém da venda de géis, cremes e pomadas.
A paulistana Sharlaine Zaidan, 33 anos, abriu perfil no Facebook, a página Shasex, para publicar suas resenhas. Durante o horário comercial, ela trabalha de assistente de gerente em uma instituição financeira. Ao fim do dia, a funcionária séria e elegante vira uma bem-humorada consultora de produtos eróticos. A jornada dupla já dura cerca de dois anos, quando ela começou a vender produtos do Sex Shop de uma amiga e a cuidar da página da loja na internet. “Comecei a ter vontade de escrever mais e resolvi criar minha página no Facebook”, conta.

 
Quase 700 pessoas acompanham pelo site detalhes dos momentos de Sharlaine se masturbando. A picardia lhe rendeu um aumento de 60% nas vendas.“Antes vendia para amigos, agora recebo encomendas até de outros Estados, de pessoas que nunca vi”, diz a moça, que já chegou a vender R$ 1 mil em uma única tarde. “Penso em viver só com a renda desse trabalho. Difícil vai ser convencer minha mãe. Ela é muito tradicional, acha que essas coisas são só para prostitutas”, conta. A parte mais difícil, diz Sharlaine, é secar as fantasias eróticas no varal que divide com a mãe: “Deixo as outras roupas na frente e fico vigiando para ela não ir até lá.”

Saias justas e outros momentos desconcertantes desse naipe são recorrentes na vida dos testadores de produtos eróticos. Outro exemplo: quando Mariana Blac levou para casa um “construtor inflável”. Ao entrar no prédio, o embrulho caiu de suas mãos. Dele, rolou o pênis. O porteiro e um entregador de pizzas ficaram assistindo à cena enquanto a testadora corria atrás das partes avulsas, juntava tudo e caminhava rumo ao elevador com cara de paisagem.

 

Estocar os produtos também é um desafio e tanto. “Muitos, eu acabo jogando fora”, admite a paulistana, que preserva apenas os que mais gosta em um lugar reservado em seu guarda-roupa. A paraense Márcia, por sua vez, tem tanto apreço por seus brinquedos que se recusa a se desfazer de qualquer um deles. O que já lhe gerou problemas, como quando viu sua sobrinha de 6 anos brincando com um coelho erótico (vibrador Rabbit). “Eu arranquei das mãos dela e disse pra brincar com outra coisa”, diz. A brincadeira, que virou profissão, é coisa apenas para adulto.