FERMENTAÇÃO DOMÉSTICA

Hoje em dia não basta beber rótulos artesanais ou importados: a diversão para muita gente é produzir a própria cerveja em casa

 

Por Bruno Weis

Fotos Rafael Hupsel  |  divulgação  |  Felipe Gabriel |  Fabiano Cantamessa  |  Marcelo Saraiva Chaves

 

A cultura cervejeira segue maturando no Brasil. Depois da explosão do mercado de rótulos artesanais nacionais e da invasão de marcas estrangeiras, agora a febre se expande para nossos lares: cada vez mais brasileiros estão aprendendo a fazer em casa – e se divertindo muito com isso – sua própria cerveja. Tem gente até pensando em fazer do hobby, profissão. É o caso do cientista social Tigê Sevá (acima), 33 anos, que há cinco meses engarrafa sua “Diplomata”, uma American Pale Ale (cerveja de alta fermentação temperada com lúpulos americanos), no fundo do quintal de casa, na zona sul de São Paulo. Até agora, foram 120 litros de elogios entre amigos e familiares, o seleto público ao qual ele presenteia sua beberagem. “Estou focado em melhorar o produto para, aos poucos, criar uma marca e ganhar escala de produção”, conta o aficionado, que investiu quase R$ 3 mil em cursos e equipamentos. “Tudo se resume a tempo, temperatura e sanitização”, resume Sevá, falando sobre a produção caseira de cerveja, ou “brassagem” (leia mais na pág. 26). Beber, claro, também é parte da brincadeira, que não é coisa apenas do público masculino. “Aproveitamos para colocar o papo em dia, mas nem perdemos tempo falando mal de homem”, conta Julia Reis (na foto ao lado, de azul, com suas colegas de confraria), 28 anos, uma das “maltemoiselles”, grupo de oito moças paulistanas que se reúne a cada dois meses para sentir o doce cheiro do malte cozinhando, comer e, claro, degustar o resultado da brassagem anterior. “A cena cervejeira está crescendo, e a presença feminina cresce junto”, garante Julia, cuja paixão a levou a virar sócia da Sinnatrah – Cervejaria Escola, uma das referências para cervejeiros iniciantes.

 

Pioneira no Auge

Uma das primeiras cervejarias artesanais a ganhar reconhecimento no Brasil, a Colorado de Ribeirão Preto (SP), cujo mais recente lançamento é a Titãs, uma Brown Ale em homenagem à banda paulistana, vive ótima fase. As boas notícias incluem um plano de expansão com nova fábrica que deve aumentar a produção em dez vezes nos próximos três anos. cervejariacolorado.com.br

 

Um brinde aos pioneiros

Se a fermentação do malte está comendo à vontade em lares brasileiros, muito se deve aos pioneiros desse mercado. Sócio-fundador da Sinnatrah (sinnatrah.com.br), espaço para cursos e oficinas sobre produção de cerveja, o biólogo e cervejeiro autodidata Rodrigo Louro (acima) é um deles. “A gente gostava do lado químico da coisa, e de beber”, diz Louro. “Hoje temos orgulho de ver nossos alunos virando cervejeiros profissionais”, completa ele, citando alguns dos mais de dois mil inscritos nos cursos promovidos pela escola. “O maior encanto é fazer a cerveja do jeito que você quer. O hobby não é caro, mas dá trabalho e precisa de tempo”, resume Alessandro Morais (abaixo), um dos donos da Lamas Brew Shop (lamasbrewshop.com.br), talvez a maior loja de insumos e equipamentos cervejeiros do País. Tudo começou como uma confraria de amigos de Campinas (SP). “A gente se perguntava quando haveria uma loja de insumos cervejeiros. Como ninguém fazia, a gente foi lá e fez”, lembra ele. Aberta em 2010, a Lamas se inspirava na moda do “homebrew” nos Estados Unidos, em alta desde os anos 1990. “Estava na cara que ia pegar por aqui”, diz Morais. Hoje a loja importa e desenvolve equipamentos e ingredientes exclusivos e oferece cursos de como utilizá-los. “Somos mais que uma loja ou escola. Estamos fomentando o mercado e esperamos, em breve, viver apenas desse negócio.”

 

Do jeito da chef

Uma das mais consistentes cervejarias artesanais do Brasil, a paranaense Way Beer acaba de lançar, em parceria com a jovem chef Manu Buffara (do restaurante Manu, em Curitiba), a Eat Me, uma cerveja do tipo saison (leve, aromática e com toques de coentro e laranja). É o oitavo rótulo da cervejaria, aberta há três anos e dona de alguns dos melhores custos/benefícios entre cervejas artesanais brasileiras. waybeer.com.br

 

 

Bares de São Paulo que fabricam sua própria cerveja ou oferecem receitas exclusivas

Do tempo do Imperador

Um dos mais premiados botecos “de chope” de São Paulo, o clássico Original, em Moema, é o único bar na cidade onde você pode provar o Bohemia Royale, chope produzido pela Cervejaria Bohemia, uma releitura da primeira cerveja tipo Amber Lager do mundo, nascida em Viena, na Áustria, em 1841 – mesmo ano em que dom Pedro II assumia o trono real do Brasil. baroriginal.com.br

À francesa 

Aberta há um ano no Shopping JK, em São Paulo, a ICI Brasserie é dona da ICI 01, uma Pilsen produzida pela Cervejaria Colorado com exclusividade para a casa. Tem lúpulos franceses e mandioca na receita. O bar ainda oferece outros 26 rótulos e sessões de degustação com a especialista Carolina Oda. www.icibrasserie.com.br

Brassagens semanais 

Aberta há poucos meses no Itaim, a Les 3 Brasseurs é uma microcervejaria inspirada nas fábricas-bares do norte da França. O mestre da casa fabrica quatro tipos diferentes de cerveja, servidos em grandes copos de chope. A produção é feita em três brassagens semanais. les3brasseurs.com.br