MUITO ALÉM DO FOOD TRUCK

Com nova lei, a comida de rua deve virar a maior atração da cena gastronômica de São Paulo

 

Por Bruno Weis

Fotos divulgação  |  Rafael Hupsel  |  Leo Feltran  |  Dani Derani  |  Renata D’Almeida  |  Clara Caramez   |  João Castellano

 

 

Uma revolução está prestes a acontecer nas ruas de São Paulo. A mudança radical vai mexer com uma das grandes marcas da cidade: a gastronomia. Uma nova lei, recém-aprovada na Câmara Municipal e sancionada pelo prefeito Fernando Haddad, legaliza a venda de comida de rua na capital paulista, acabando com um limbo legal para cozinheiros e empreendedores (as regras devem ser divulgadas até abril). Inaugura-se, assim, uma nova era para quem gosta de comer bem, de forma simples e rápida, sem pagar caro. Muito além dos chamados “food trucks”, mania nos Estados Unidos, a comida de rua é realidade nas principais cidades do mundo. Agora, em São Paulo, empresários e chefs estão colocando no forno seus projetos, sobre rodas ou não, para surfar a onda. “O mundo todo come na rua, não importa se é rico ou é pobre”, diz o restaurateur Hugo Delgado, do Obá (obarestaurante.com.br), em São Paulo, que promove com o chef da casa, Henrique Benedetti, tostadas (tortillas de milho crocantes com diversas coberturas) uma vez por mês na calçada. “A graça é fazer o restaurante em sua versão mais acessível possível”, diz Hugo, citando cada prato a R$ 12 e taças de marguerita a R$ 13. Destacamos aqui essa e outras iniciativas que prometem levar muita gente à rua nos próximos meses.
Bom passeio!

 

Fala, falafel!

“Quero montar um trailer de comida”, afirma Andrea Kaufmann, do AK Vila, na Vila Madalena. “As pessoas estão cansadas de pagar caro para comer, e um trailer é perfeito para aproximar cozinheiros e clientes”, diz ela. Desde outubro, Andrea mantém uma espécie de embrião do projeto: na frente de seu restaurante, uma barraquinha serve sanduíches e pratos com falafel ou carne de cordeiro.

O sanduíche de salada de ovo orgânico, item mais barato da barraca, sai por apenas R$ 8. “De quebra, vou ajudar a disseminar o falafel, ícone da comida de rua em Israel e em vários outros países”, espera Andrea, que afirma ser importante, nesse modelo de negócio, oferecer produtos de qualidade e ingredientes frescos, além de poucos pratos. www.akvila.com.br

 

Com as mãos

Como se não bastasse transformar o Suri, uma das casas de ceviche mais conhecidas de São Paulo, em uma festa na rua em dois domingos do mês, agora Dagoberto Torres inaugura o Maíz, restaurante totalmente voltado à comida de rua latino-americana. Com abertura prevista para março, o novo ponto vai servir tacos, tortillas, arepas e outros quitutes típicos da região. “É comida para se comer com as mãos”, define o chef. Nos domingos de festa no Suri, um ceviche clássico, com peixe branco, cebola roxa e milho, acom- panhado de batata doce, sai por R$ 12. suri.com.br

 

Sobre rodas

Uma das modalidades mais divertidas de comida de rua, os food trucks, ou carrinhos de comida, começam a aparecer em São Paulo, ainda em espaços privados, esperando a regulamentação da lei que definirá onde, quando e como cada negócio poderá rodar pela cidade. Um deles, o Astor Truck Bar, está aberto como bar pop-up de verão na cobertura do Shopping Cidade Jardim, servindo drinques exclusivos e petiscos de sucesso do Astor (barastor.com.br). Outro, o Buzina Food Truck, um caminhão Mercedez adaptado graças a um investimento de R$ 300 mil, vai circular por São Paulo sob a batuta dos chefs Márcio Silva e Jorge Gonzalez oferecendo comida variada na hora do almoço.  Seu itinerário pode ser checado em facebook /buzinafoodtruck

 

Itinerância de luxo

Comida de rua à parte, o lado luxuoso da gastronomia itinerante atende pelo nome de Fechado para Jantar, projeto encabeçado pelo chef Raphael Despirite. Em ambientes inusitados e cozinhas improvisadas – nas quais salamandras fazem as vezes de fogão –, Despirite oferece pratos como o nhoque trufado. O projeto, que na atual versão é feito em parceria com Johnnie Walker Blue Label, incluindo drinques com o uísque e harmonizações, já passou por Brasília, Goiânia, Rio de Janeiro e São Paulo. Neste mês, Recife e Curitiba são as cidades visitadas. O ingresso custa R$ 200. Vendas e informações no foodpass.com.br

 

Onde o povo está

Os chefs Checo González e Henrique Fogaça, idealizadores do evento O Mercado Feira Gastronômica, cuja primeira edição aconteceu em abril de 2012, são pioneiros na aposta pela comida de rua na cidade. “Fizemos 11 edições e o evento só cresce”, diz Fogaça. “A ideia original era levar gente para a rua, onde gostamos de estar”. A dupla comemora a nova lei. “Os custos de um restaurante são mais elevados do que a própria comida”, diz González. “Vendido por poucos reais, um prato assinado por um chef significa abrir nossa gastronomia para um público maior”, completa Fogaça. facebook.com/o.mercado.feira.gastronomica

 

No litoral

Enquanto São Paulo comemora a nova lei, a cidade de Paraty, no litoral fluminense, degusta desde o ano passado os hambúrgueres do trailer Clandestino, tocado pelo casal Christopher Kauffman, americano, e Thais Oliveira, brasileira. Os lanches, incluindo o Seattle (homenagem à cidade onde a dupla viveu por nove anos), feito com geleia de bacon caseira, queijo gorgonzola e rúcula (à esq.), ganharam fama para além das divisas do balneário com a participação em eventos de comida de rua em São Paulo no fim de 2013. Vale a visita. facebook.com/clandestinobr

 

O construtor

Nem só cozinheiros estão comemorando a nova lei de comida de rua de São Paulo. O mecânico Roberto Iserte, especializado em customização de carros e motos, vem recebendo muitas encomendas para construir food trucks. São cinco na fila, incluindo uma “dogueria” feita a partir de uma vespa triciclo. “Quem mais nos procura são chefs iniciantes em busca de projetos com baixo investimento”, diz Iserte. Ele conta que um food truck básico custa por volta de R$ 180 mil. “Mas quanto mais autossuficiente é o carro em termos de água e energia, mais caro fica”. bobiser.com