NA PONTA DO CHICOTE

Entediado com a vida noturna da capital paulista, Pedro virou assíduo frequentador dos círculos BDSM da cidade. Com todos os tons de cinza possíveis, ele aprontou todas. até que um dia…

 

Por Mariana Rezende

Ilustração Massao Hotoshi

 

Meu nome é Pedro, tenho 31 anos, sou consultor de tecnologia numa grande corporação e moro com minha mãe e minha irmã mais nova. Um típico solteirão convicto. Muita gente pode me ver como um looser, mas eu digo que há controvérsias. Afinal, morar com a família me dá uma larga vantagem financeira em relação aos demais homens solteiros da minha idade. Em vez de gastar com aluguel, condomínio, supermercado e o escambau, posso investir nas noitadas mais malucas. Nada de “rei do camarote”, por favor. Eu não esbanjo dinheiro, apenas sedução. E, meu caro, isso tem um preço. Tem mulher que não permite que você pague nada a ela, mas há outras que, se você vacilar, amanhece com um rombo na conta bancária.

Adoro esse meu estilo “lobo solitário” de vida, mas comecei a ficar entediado e senti que era hora de diversificar. Comecei a observar melhor o universo feminino ao meu redor para ver se conseguia pescar uma novidade que interessasse às mulheres e me divertisse também. Então reparei que a mulherada andava toda ouriçada lendo o tal livro “Cinquenta Tons de Cinza”. No ônibus, no metrô, na padaria da esquina, na fila do açougue… Até em casa! Minha mãe e minha irmã cada uma tem o seu e não desgrudam daquilo, andam até vendo menos novela. Precisava saber o que é que tinha naquele livro que deixava toda mulher que eu via com uma cara insana de fome e tesão, como se quisessem devorar cada página, mastigar uma a uma, depois cuspir e lambuzar o corpo todo com aquela gosma de romantismo e sacanagem. Comecei a surrupiar o livro da minha irmã na calada da noite, enquanto ela dormia. Ia para o meu quarto e lia compulsivamente acocorado na cama, sempre alerta, apenas com a lanterna do celular acesa. Sentia uns formigamentos desconfortáveis em partes estranhas do meu corpo pensando naquele protagonista – um cara rico, poderoso e que ainda por cima dava umas estaladas das boas no derrière de uma gostosa. Era aquela vida que eu queria pra mim.

Numa consulta rápida pela internet descobri uma infinidade de festas obscuras onde imperava a pancadaria, digo, sadomasoquismo, digo, BDSM, que é o nome correto da coisa. Enfim, gente que gosta de dominar e ser dominada, apanhar, bater, lamber, ser lambido e mais um sem número de putarias que me soavam mais deliciosas do que as minhas monótonas saídas pela noite paulistana. Minha primeira incursão não tardou a acontecer. Encontrei a balada sacana mais perto de casa e fui todo bonitão com a cara, a coragem, cueca limpinha e tudo mais. Nem nos meus mais loucos sonhos poderia imaginar que aquilo seria tão de outro mundo. Parecia que eu estava dentro de um clipe da Madonna da década de 1980: velas pingando em deliciosos peitinhos nus, música meio gótica, gente amordaçada e pendurada no teto, chicotes estalando por todos os lados.

No começo não foi fácil ser aceito nas festas. A comunidade do BDSM é fechada e eles não curtem divulgação nem espertinhos querendo se dar bem em seus eventos. Foi preciso muita lábia, comportamento adequado (leia-se: humildade e comprometimento com a causa) e algumas notas de reais para o segurança para eu começar a ser aceito. Mas depois… Frequentei todo tipo de ambiente de BDSM da cidade e experimentei todo tipo de fetiche com todo tipo de gata. Me sentia poderoso como o cara do livro enquanto algemava meninas “inocentes” e derramava cera quente em seus corpinhos, puxava seus cabelos, chicoteava seus bumbuns. Naqueles lugares eu era o magnata do sexo, imbatível e incansável fodedor de mocinhas românticas. Aprendi a arte do spanking (palmadas ou surras, que podem variar de intensidade conforme a preferência da pessoa), bondage (imobilização do corpo ou privação de movimentos) e tease and denial (provocação e interrupção do orgasmo repetidas vezes, o meu predileto).

Numa dessas noitadas cinematográficas de BDSM, estrategicamente posicionado no meu canto preferido do club e muito entretido com a minha nova e possante persona underground, me distraí e não percebi a chegada de uma dominadora profissional. Ou uma dominatrix, no jargão fetichista. Leandra é o nome usado por ela. Eu já tinha ouvido falar dela, mas para mim era uma lenda, uma historinha contada para assustar os novatos. Ela chegou por trás e já foi me vendando. Achei que era uma das minhas gatas e que logo ela me passaria o controle da situação, como era de praxe no meu tipo de jogo. Mas uma chicotada atingiu minhas nádegas com muita violência, provocando um estalo que me soou como um trovão. Mal tive tempo de reagir e minhas mãos foram atadas. Meu coração disparou, a pressão subiu muito, a respiração ficou ofegante. Tive uma espécie de ataque de pânico. Tentei gritar, mas foi impossível – ela tinha me amordaçado. “Não, você não pode controlar tudo. E agora vai fazer o que eu quiser, da forma que eu bem entender”, disse ela, para quem quisesse ouvir, tirando a venda dos meus olhos.

Sádica assumida, Leandra evidencia seu poder pela aparência: sandálias de salto altíssimo, calça preta de látex, uma farta cabeleira ruiva. Tudo isso alonga ainda mais seu corpo sinuoso de 1,80 metro. “Eu decido o quanto usarei teu corpo e tua mente. Serás meu animal, meu capacho, meu serviçal e meu objeto”, continuou ela. Eu só queria sair dali, intacto, de preferência. Se é que você me entende. O lugar ficou em silêncio, como se todos tivessem parado o que estavam fazendo para assistir à minha sessão de tortura, como tantas vezes fiz ali. E foi nesse momento que percebi que estava sendo vilipendiado por uma mulher que emitia altos gemidos de prazer enquanto me flagelava.

Naquela noite, levei a maior açoitada que nem sequer imaginava possível. Uma agonia sem fim. A mulher não se cansava. Mas o pior ainda estava por vir. Meu corpo foi todo amarrado e ligeiramente suspenso. Meu pau balançava solto pelo ar, pronto pra qualquer um dar o bote. Gelei. De repente, uma coisa muito quente foi derramada em minha barriga. Grunhi, já que gritar era impossível por causa da mordaça. Ela estava derramando vela quente no meu corpo. Nossa, que dor. Achei horrível. Prefiro derramar cera nos outros. Foram os minutos mais angustiantes da minha vida.

Quando fui solto, vesti minhas roupas rapidinho e me mandei dali. Nunca mais voltei a uma festa dessas. Morro de medo de ser violado dessa maneira novamente. Mas confesso que estou cada vez mais desinteressado do bom e velho filme pornô. Só consigo pensar no cheiro forte daquela mulher e na altura com que ela gemia cada vez que seu chicotinho lacerava a minha triste e solitária bunda magrela.