NA TERRA DA PORRADA

Fomos a Tuva, um dos mais distantes rincões da Ásia, para conhecer uma cultura marcada por bebedeiras, natureza intacta e lutadores mal-encarados

 

Texto e Fotos Caio Vilela

 

Dois lutadores de khoresh tentam derrubar um ao outro no chão. Quem cair primeiro, perde

– De Onde você é?
– Brasil …
– Brasil! Rickson Gracie!

Sentado na poltrona ao meu lado, prestes a encarar 14 horas de ônibus para alcançar o último vale russo antes da divisa com a Mongólia, o pit-boy com a cara cheia de cicatrizes me oferece vodca e tenta puxar papo.

Em russo. Sua primeira referência da cultura brasileira – que não é Pelé, Ronaldo ou Neymar – não é uma surpresa. Havia sido informado sobre a cultura da luta livre e os famosos bêbados brigões dessa região asiática nas páginas do guia Lonely Planet, em que uma nota em negrito adverte: “Se meter em confusão por aqui é fácil. Nunca beba com os locais, e fique longe das gangues de valentões”. Mas conhecer os bastidores do esporte nacional khoresh – e a cultura da porrada temperada com vodca que o cerca – era justamente um dos objetivos da minha incursão pela República de Tuva.

Caso sobrevivesse à experiência, me tornaria o primeiro jornalista brasileiro, segundo o governo tuvanês, a reportar algo sobre aquela terra distante: um dos rincões mais remotos da Sibéria, que foi um país independente durante o período entre as duas grandes guerras mundiais, antes de ser definitivamente anexada pela Rússia, em 1944. Uma terra montanhosa e pobre em minérios, Tuva é umas das menos importantes repúblicas soviéticas siberianas. Ao mesmo tempo, é culturalmente rica, com seus rituais xamânicos, poesia, música e dança, além de ter sua própria língua, o tuvanês, comida típica e, sobretudo, seus lutadores espalhados por competições de toda a Rússia e Ásia Central.

O trecho no ônibus noturno seria apenas a última perna da épica odisseia em transportes públicos para chegar à capital Kyzyl: a partir de Moscou, um voo de duas horas e meia me deixou em Ufa, capital do Bascortostão, a república muçulmana no pé dos Montes Urais. De lá, foram mais dois dias e duas noites no vagão 22 da ferrovia transiberiana para chegar a Krasnoyarsk, já na Sibéria. Cumprida a maratona de três dias, respirei fundo antes de subir no ônibus para atravessar as montanhas da Cacássia e chegar aos vales cobertos de taiga e estepe do território tuvanês.

Torneio de khoresh, especie de luta livre parecida com o sumo, E o Evento diretor esportivo los Tuva.

Na arquibancada, Jovens tuvanesas desfilam Entre Lutadores

Primeira rodada
Após a noite em claro sem aceitar a vodca, desembarco em Kyzyl no último dia da competição de khoresh. Pilhado com a adrenalina da chegada e cozinhando os miolos sob 37 graus do verão siberiano, às oito da manhã, encontro Ayan, meu tradutor. A larga avenida na frente da rodoviária nos conduz à competição.

Uma pausa para um lanche em frente ao marco urbano principal da cidade faz cair a ficha de quão longe fui parar: estamos à margem do majestoso Yenisei, o mais extenso rio da Sibéria (com 3.487 quilômetros de comprimento) em uma praça com um monumento que marca o centro geográfico da Ásia. Ocupado por skatistas e turmas de adolescentes, turistas russos e lutadores tirando “selfies” com o celular, o lugar inclui um mirante que permite flagrar cenas da vida rural nas yurtas do outro lado do rio. As tendas típicas pontuam a paisagem junto com dezenas de cavalos, envoltos em uma lâmina de nuvem baixa.

Traços Asiáticos e muitas Cicatrizes Marcam como rostos Pouco amistosas dos Jovens tuvaneses

Próximo ao estádio encontramos um grupo de jovens inchados de esteroides e álcool a caminho do evento. A descendência direta de Genghis Khan é evidente nos rostos da rapaziada. Embora baleada pela vodca, introduzida pelos russos nos anos 1930, a natureza de guerreiros sempre prontos para defender o território, desde as mais remotas dinastias, permanece clara.

Com a ajuda do tradutor, pergunto a um deles como conseguiu ficar com o rosto machucado e uma cicatriz em zigue-zague no pescoço. Seu chapa ao lado, com o braço todo rabiscado de tatuagens mal desenhadas, não falava uma palavra de inglês, mas fez questão de explicar: em uma briga de bar, quatro caras o deitaram no chão enquanto outro desenhou em seu pescoço com uma lâmina. Após rir da história e fumar cigarros, contaram ser fãs do Gracie Jiu-Jítsu. Solícitos, fizeram questão de mostrar fotos junto ao lutador brasileiro Saulo Ribeiro, um dos mais respeitados professores de jiu-jítsu brasileiro em Moscou, encontrado pelo grupo em uma competição.

Dança da Águia

O ingresso para a competição custa R$ 6. Junto com Ayan, esquadrinho a arena, ocupada por um público essencialmente masculino e mal-encarado. Na arquibancada lotada, centenas de lutadores esperam sua vez de mostrar a força. Khoresh é uma variação simplificada do sumô: vestidos com botas tradicionais, cuecas apertadas e um colete quadrado de mangas compridas e peito aberto, os lutadores tentam derrubar um ao outro. O primeiro a tocar o chão com qualquer parte do corpo diferente dos pés perde, e isso parece ser a única regra.

A competição começa com um ritual de arrepiar: para se apresentar à multidão, os lutadores fazem a dança da águia. Caminhando em câmera lenta, imitam bater asas com os braços abertos e um olhar concentrado, como se fossem aves de rapina. Os lutadores se enfrentam enquanto dois ou três árbitros circulam em suas vestes longas e brilhantes, observando os movimentos de ângulos distintos. Cada luta não dura mais que três minutos. A vitória sobre o adversário também é comemorada com a dança da águia, feita após a luta ao redor da bandeira tuvanesa.

Entre as estrelas da competição está o ex-campeão Chechen-Ool Mongush, membro da cúpula da arbitragem. Mongush começou a participar de lutas clandestinas de rua aos 14 anos. Em 1996, foi convocado em Krasnoyarsk para integrar o grupo de lutadores profissionais de Dmitry Mindiashvili, um dos maiores treinadores russos da modalidade. Ganhou ouro no Mundial das Nações em 1998, e venceu o campeonato russo de luta em 1997 e 1999. Após o término da carreira esportiva, começou a trabalhar como treinador de lutadores em Kyzyl.

A competição acaba com cada vencedor ganhando um chapéu típico, e uma medalha no pescoço do grande campeão, que as crianças correm para tocar assim que o acesso ao gramado é permitido no final da festa. Na saída, um encontro com algumas meninas tuvanesas deixa transparecer o lado das mulheres perante a cena: “As meninas em Kyzyl procuram conhecer os raros caras que não bebem e oferecem menos confusão”, diz a jovem Sayday, da secretaria de Turismo local. Disposta a mostrar os aspectos positivos de sua cultura, Sayday apresentou-me a xamãs, músicos, acadêmicos e ao motorista Madar, que, ao longo dos dez dias seguintes, foi uma mãe para mim. Sempre armado com seu rifle, o ex-lutador me conduziu em uma incursão pelo interior, acampando ou dormindo ao relento próximo às yurtas, visitando caçadores, pastores e músicos. A bordo de seu Niva 81, famoso modelo da montadora Lada, alcançamos as terras altas que preservam nascentes de água mineral, a maior riqueza natural da terra. Ponto de descanso dos lutadores, as águas termais se escondem entre as colinas de relevos suaves da taiga siberiana, habitat de animais raros como linces, ursos e veados almiscarados.

Nocaute

Na volta da incursão pelo interior, uma notícia chocava Kyzyl: um dia após a final do campeonato de khoresh, o campeão Chechen-Ool Mongush foi encontrado morto e enterrado na floresta, a 25 km da capital tuvanesa. Mongush havia julgado as lutas do campeonato e sido homenageado como atleta da República de Tuva do século XX. Os investigadores federais disseram que o suspeito, cuja identidade não foi divulgada pela polícia, confessou o assassinato e levou a viatura ao corpo. “Ele atestou ter sufocado a vítima até a morte com um chicote, depois levou o corpo para a floresta”, disse o representante do Comitê de Investigação da República de Tuva, em comunicado à imprensa.

A lei russa prevê prisão perpétua como pena máxima pelo assassinato, e um antigo rival, ex-deputado, foi imediatamente considerado o maior suspeito de ser o mandante do crime. Em memória ao campeão, o líder político de Tuva, Sholban Kara- ool, fez um apelo público solicitando aos homens “abandonar o pensamento de vingança”, sentimento que já era parte da atmosfera predominante durante o enterro. Não era para menos. Em Tuva, ninguém leva desaforo para casa.

 

CULTURA DE LUTA


Mural no centro de Kyzyl (acima) comprova que a luta livre é elemento fundamental da cultura tuvanesa. A república, parte da Federação Russa, tem cerca de 300 mil habitantes e exporta lutadores para competir em países vizinhos.