PEPE É POP

Ele vive em uma casa de apenas um quarto, abre mão de quase todo o salário e é capaz de sair ele mesmo para comprar uma tampa de vaso sanitário. Assim é o uruguaio José “Pepe” Mujica, o presidente mais curtido do momento

 

Reportagem de Denise Mota, de Montevidéu 

 

 

Com três andares, vista para o jardim botânico e uma equipe de 42 empregados, a luxuosa residência de Suarez y Reyes, morada oficial dos presidentes uruguaios, está praticamente desabitada. Nem o charme do imponente casarão nem as regalias, como cozinheiro de plantão e segurança especial, foram capazes de convencer o atual inquilino a ficar. Aos 78 anos, o presidente José “Pepe” Mujica prefere morar onde sempre morou: em uma chácara de estilo quarto-sala-cozinha-banheiro, no subúrbio de Montevidéu. Da rua tranquila e de asfalto precário, é possível ver a casa, com paredes descascadas e teto de zinco verde. O quintal, tomado por varais de roupa e algumas galinhas ciscando, é compartilhado com outras três famílias que vivem no mesmo terreno. Um cenário que em todos os seus detalhes contradiz a imagem de um palacete presidencial, mas que faz todo o sentido quando se trata de Mujica, o presidente que coleciona quebras de protocolo, como dirigir um Fusca, abrir mão do salário e aparecer na posse de um ministro calçando sandálias, além de estar à frente de medidas vanguardistas em seu país, como a mais recente delas, que legalizou o uso da maconha. A cada peripécia, fotos e “curtidas” pipocam em sites e redes sociais, em uma repercussão digna de um popstar. Em resumo, o pequeno Uruguai de Mujica está na moda em todo o mundo.

“Ele humaniza a figura do presidente. Existem problemas de gestão em seu governo, sobretudo em educação e segurança, mas os uruguaios, principalmente os de mais baixa renda, simpatizam demais com um mandatário que se veste informalmente e fala o que pensa”, diz à Status o sociólogo Ignacio Zuasnabar, diretor da Equipos Mori, responsável pelas principais pesquisas de opinião no Uruguai. Segundo ele, Mujica tem uma imagem positiva entre 55% da população, índice considerado alto para alguém que está à frente do governo e, portanto, dos principais problemas do país. “Sem dúvida, a postura de homem honesto e próximo ao povo ajuda bastante”, diz o especialista. Afinal, que outro presidente costuma tomar um café no boteco,depois do expediente? Ou, ainda, que outro líder político é capaz de dirigir seu próprio carro, sem a companhia de qualquer segurança? Pois foi assim, dirigindo seu Fusca, que Mujica saiu de casa, em uma manhã de maio, para comprar uma… tampa de vaso sanitário. Alguns jogadores do Huracán, time de futebol da segunda divisão, viram Mujica entrando na loja de ferragens e o convidaram a ir até a sede do clube, onde o presidente acabou passando toda a manhã, dando palavras de incentivo ao grupo. Nem mesmo o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, também de origem humilde, apegou-se tanto a suas raízes. “Mujica é exatamente assim, espontâneo. Não há nada inventado ali”, diz à Status o jornalista e escritor Walter Pernas, autor de Comandante Facundo, biografia do presidente uruguaio. Sem falar no humor ácido. Uma das funcionárias de seu gabinete, a bela Fabiana Leis (que ganhou destaque depois protagonizar um ensaio sensual numa revista uruguaia) é chamada carinhosamente por Mujica de “la chica fea” (a moça feia).

Humor Afiado: mujica chama Fabiana Leis, sua bela secretária, de “la chica fea”

A explicação para a fama, porém, vai muito além da galhofa. Goste-se ou não do jeitão humilde de Mujica, o fato é que ele tem colocado o Uruguai à frente de importantes questões sociais. No intervalo de apenas um ano, esse pequeno país sul-americano legalizou o aborto, o casamento gay e o uso recreativo da maconha, nesse caso em um programa ainda mais liberal do que aquele que vigora na Holanda (leia na pág. ao lado). Mujica seguiu em frente mesmo sem o apoio da população: a rejeição à mudança vem caindo gradativamente, mas, segundo pesquisa feita em setembro do ano passado, 60% da população ainda desaprova a ideia. Além do medo de um consumo desenfreado, a oposição critica o unilateralismo da medida, que para muitos deveria ter sido discutida com outros países da região. “Não é uma questão de ser mais ou menos liberal. É apenas uma questão de lógica. Queremos tirar os usuários das mãos dos traficantes, mas também estamos preparados para restringir o uso (da maconha) se houver consumo excessivo”, disse o presidente, em recente entrevista ao jornal britânico The Guardian. Ainda assim, é impossível negar o cunho progressista de uma lei que não apenas libera o uso da maconha como estatiza a produção e a comercialização da droga. O conjunto de medidas acabou levando esse país de apenas 3,3 milhões de habitantes e PIB de US$ 55 bilhões (cifra que equivale a um terço da economia da cidade de São Paulo) a ser apontado como o país do ano de 2013 pela renomada revista britânica The Economist. “A referência ética e moral do presidente Mujica, um político sem receio de levar adiante suas próprias convicções, ajudou a colocar todos os assuntos em pauta”, diz Julio Calzada, secretário-geral da Junta Nacional de Drogas e braço direito do presidente.

Prisão e seis tiros

Filho de imigrantes espanhóis e italianos, Mujica cresceu no meio rural. Apesar das dificuldades financeiras, completou o ensino médio, ao mesmo tempo que se destacava na prática do ciclismo. O esporte, porém, ficou de lado em prol da política: aos 27 anos de idade, Mujica entrou para o Tupamaros, grupo de inspiração marxista que se tornou famoso na década de 70 por organizar assaltos a banco e sequestros, atividades que o levaram a cumprir 14 anos na prisão. Assim que foi solto, voltou imediatamente à guerrilha, levou seis tiros durante um confronto e acabou sendo novamente detido, por mais dois anos.

Mujica em 3 momentos

Fundo de quintal

Fiel escudeira 

Mujica não esconde sua paixão por Manuela, uma vira-lata de três patas que o acompanha em diversos eventos públicos

Bibi-fonfom

 

No lugar de um carrão com motorista, Pepe faz questão de ir trabalhar com seu próprio carro, um Fusca azul ano 1987 Com o fim da ditadura militar no Uruguai (1973-1985), Mujica elegeuse deputado, senador, foi ministro da Pesca, até concorrer às eleições presidenciais de 2009 pela Frente Ampla, a maior coalizão política do país.

De sandálias, calças puxadas e postura relaxada: foi assim que o presidente uruguaio participou da posse de seu ministro da economia

Durante a campanha, aceitou algumas pequenas mudanças em sua imagem, como um corte de cabelo e um discurso menos radical, mas nada que tirasse de Mujica a essência de um homem desapegado de bens materiais. Assim que foi eleito, não apenas abriu mão da residência oficial como de 90% de seu salário – no lugar dos US$ 12 mil mensais a que tem direito, o presidente fica com apenas US$ 1,2 mil, enquanto o restante é doado a causas sociais. De acordo com a Junta de Transparência Pública do país, a lista de bens do presidente inclui somente seu velho Fusca ano 1987 (a chácara está em nome de sua esposa, a senadora Lucía Topolansky, que também doa a maior parte de seu salário). O máximo de luxo a que se permite é um iPad para ler os jornais, já que o serviço para assinantes não funciona no bairro onde mora. Twitter, Facebook ou mesmo um simples cartão de crédito não fazem parte de seu universo. “As pessoas não compram com dinheiro, compram com o tempo que tiveram que gastar para juntar esse dinheiro. E não se pode desperdiçar esse tempo”, disse o presidente em entrevista à agência espanhola EFE.

Mujica na simplicidade de sua pequena chácara, no subúrbio de Montevidéu

Mas nem tudo são flores para o velho Pepe. Uma parcela da elite uruguaia, sobretudo de Montevidéu, não vê tanta graça nas estripulias de seu líder. Como no dia em que um microfone captou Mujica dizendo que “esta vieja es peor que el tuerto”, em uma clara referência à presidenta da Argentina, Cristina Kirchner, e a seu falecido marido, Néstor Kirchner. Mas as principais críticas a sua administração – não apenas da oposição, mas entre fileiras da esquerda – repousam sobre o fato de Mujica não ter conseguido melhorar a educação no país. “O presidente é um homem honesto, vive como prega. Mas teve uma grande incapacidade de gestão, não se assessorou bem”, diz Verónica Alonso, deputada do Partido Nacional, de oposição. Em seu último ano como presidente (não existe reeleição no Uruguai), Mujica já faz planos para quando retomar sua rotina de cidadão comum. Recentemente, durante um encontro com empresários, disse que pretende adotar um grupo de 25 crianças que, por serem maiores, não têm conseguido encontrar um lar. “Farei isso assim que me livrar desse fardo”, disse Mujica, referindo-se à Presidência. Mais franco que isso, impossível.