ADRENALINA A 300 KM/H

Carros que custam milhões de dólares, rachas clandestinos e muita ação. Status entrou no set de filmagem de Need for Speed, o filme inspirado no famoso jogo de videogame, e mostra os bastidores dessa superprodução

 

Por Elaine Guerini, de Blue Ridge (EUA)

 

 

O título Need For Speed – o filme já adianta que os astros desta superprodução de US$ 70 milhões não são de carne e osso. Na verdade, os atores estão em segundo plano e as grandes estrelas bebem gasolina, emitem um barulho que soa como sinfonia para os amantes de automobilismo e devoram qualquer pista. São alguns dos bólidos mais desejados do mundo. Como o McLaren P1, o Koenigsegg Agera R e o Ford Mustang 2015 – este último chega às telas de cinema (a partir de 14 de março, data da estreia no Brasil) antes mesmo de seu lançamento mundial. “A ideia é dar ao espectador a impressão de que ele está no volante desses supercarros, pilotando-os a 370 quilômetros por hora”, diz à Status o cineasta Scott Waugh.

Mais conhecido como dublê de cenas de perseguição automobilística, profissão que abandonou em 2005 para ocupar a cadeira de diretor, Waugh propõe um revival dos clássicos filmes de carros dos anos 60 e 70, como “Bullitt” (1968), com Steve McQueen.

“A indústria automobilística faz parte da cultura americana”, diz o diretor. “Os motoristas enxergam os automóveis como uma extensão de si mesmos.’’

Para homenagear a paixão pelos carros, num filme movido a testosterona, a DreamWorks Pictures se associou à produtora de jogos eletrônicos Electronic Arts – responsável pelo game Need for speed, com mais de 140 milhões de cópias vendidas ao redor do mundo. “Como o jogo não possui uma história propriamente dita, nós só o usamos como pano de fundo, por ele representar a emoção real atrás do volante’’, afirmou o produtor e roteirista John Gatins. Ele escreveu Need for speed em parceria com o irmão, George Gatins. Ambos são proprietários de uma loja de carros em Van Nuys, na Califórnia, na qual veículos clássicos são restaurados. “Tínhamos uma tela em branco diante de nós. Mas precisávamos transportar para o cinema a sensação de que o espectador é o piloto”, diz o produtor. Ao que parece, conseguiram. “Pelo ângulo das câmeras, a plateia se sente no carro, como se estivesse jogando o game.”

A equipe de Need for speed recebeu a reportagem da Status em Blue Ridge, no Estado da Geórgia, durante as filmagens. No dia da visita, foi rodada uma cena no Swan Drive-In, um dos poucos em operação nos EUA. Foi uma sequência crucial para o protagonista, Tobey Marshall (Aaron Paul, da série Breaking bad), um mecânico que constrói muscle cars e participa de corridas ilegais com eles. É neste drive-in que ele começa a cogitar uma parceria com um milionário ex-piloto da Nascar, Dino Brewster (vivido por Dominic Cooper). Mas algo dá errado. Na verdade, o riquinho planeja uma armadilha para o mecânico, acusando-o injustamente de um crime.  O que acontece é que, por conta desse acidente, o protagonista vai parar na cadeia. Quando ele sai, anos depois, quer vingança, derrotando seu algoz no maior circuito de corridas clandestinas. “É fácil explicar a fascinação por carros, não só nos EUA como na Europa’’, disse Cooper, nascido em Londres. “O carro representa riqueza e prosperidade, além de liberdade. Todo garoto sonha com o dia de ter o primeiro automóvel e poder sair por aí sem destino’’, disse o ator, que dirige vários veículos no filme: um McLaren P1, um Koenigsegg Agera R e um Lamborghini Sesto Elemento. “Foi um privilégio. Só há três destes Lamborghinis no mundo.’’

 

Curso de dublê

Na produção, os atores pilotam mesmo – ainda que sejam substituídos por dublês, por razões contratuais, nas cenas extremamente perigosas. “A maioria dos atores cursou uma escola de dublês, em Los Angeles, antes das filmagens, pois eu não queria um filme com cenas de ação feitas no computador. Isso soaria falso”, afirmou o diretor. Por conta da sua longa experiência no setor, ele sabia exatamente o que fazer para impressionar os espectadores. “Um erro grave seria desrespeitar as leis da física. Por isso, só colocamos os atores e os carros em situações em que ambos conseguiriam sobreviver, por mais espetaculares que fossem. O público sabe quando está sendo enganado. Isso faz com que ele não invista emocionalmente na história.”

Com os supercarros no centro da trama, foi necessário encontrar os veículos que melhor representassem Need for speed nas telas – no que dizia respeito ao design, à personalidade e à performance da máquina. Foram escolhidos tanto muscle cars dos anos 70 quanto carros europeus com preços exorbitantes, sendo que muitos deles obviamente figuram no game de corrida. O Mustang Shelby GT500 2013 teve uma versão especial criada para o filme. Ele é pilotado pelo protagonista, na companhia de uma vendedora de carros (Imogen Poots), enquanto eles atravessam a paisagem americana. “O Mustang não só simboliza liberdade e romance como fundou o movimento dos muscle cars nos anos 60, tornando-se um ícone”, disse o diretor, lembrando que o Mustang é até hoje um dos carros mais populares nos filmes e nos seriados americanos, com mais de três mil aparições.

Como essas máquinas tão desejadas custam entre US$ 2 milhões e US$ 3 milhões, foram desenvolvidas réplicas para o filme – sobretudo para as cenas de desastres e explosões. E as montadoras, interessadas em ver seus modelos numa produção hollywoodiana, ajudaram nessa missão, o que garantiu a perfeição das cópias. “Fizemos cerca de 15 réplicas com design perfeito e barulho do motor realista. Ninguém seria louco de correr o risco de danificar um carro desses durante as filmagens. Eles são comparados a obras de arte”, contou o produtor Gatins.

 

Piloto na gaiola

Para capturar a adrenalina nas cenas de perseguições, a equipe de Need for speed também precisou de carros-câmera e de pod cars (carros-casulo, na tradução literal). Os carros-câmera, desenvolvidos para carregar o equipamento, precisavam registrar os movimentos frenéticos das corridas, enquanto os pod cars eram usados nas cenas de interiores, nos veículos. Os carros-casulo foram projetados para as cenas de corrida em que os atores precisavam se concentrar no diálogo, ainda que eles estivessem no volante, participando de rachas alucinantes. Esses veículos eram dirigidos remotamente pelos dublês, posicionados estrategicamente atrás dos atores. O dublê ficava numa espécie de gaiola, acoplada ao carro, de onde podia controlar tudo. “Foi surreal a minha primeira experiência no pod car. Por instinto, obviamente eu tinha sempre o meu pé no pedal do freio, como se isso pudesse ajudar alguma coisa”, contou o ator Aaron Paul, rindo. “O bom é que você percebe como os dublês são pilotos muito melhores. Aí é só relaxar e aproveitar a carona, sempre em alta velocidade.” É essa sensação que os produtores levaram para a telona. Quer uma carona?

 

OS ASTROS DO FILME

Koenigsegg Agera R 

Com 1.140 cavalos de potência, o carro da montadora sueca atinge mais de 400 km/h e alcança 300 km/h em apenas 14,5 segundos. Preço: US$ 2,5 milhões

Mustang Shelby GT500 2013 

Produzido pela Ford, este ícone do automobilismo conta com motor de 671 cavalos de potência, tem carroceria em fibra de carbono e atinge 320 km/h. Preço: US$ 70 mil

Bugatti Veyron Super Sport World Record Edition

Esta máquina ostenta o título de mais rápida do mundo pelo Guinnes book: atinge 430 km/h, comprovado em testes. Preço: US$ 2,3 milhões

Lamborghini Sesto Elemento  

Um dos mais belos carros já fabricados pela montadora italiana, ele alcança 100 km/h em 2,5 segundos e atinge 322 km/h. Preço: US$ 2,2 milhões

 

ENTREVISTA

Foi graças ao ambíguo Jesse Pinkman, de Breaking Bad, que Aaron Paul conseguiu o papel de protagonista em Need for speed – o filme, um piloto badass de corridas ilegais.

– Precisou aprender a dirigir carros em alta velocidade para o filme?
– Quando me convidaram para o projeto, já me avisaram que eu teria de fazer um curso intensivo para dublês de cenas de automobilismo. Foi nessa escola que eu aprendi a me sair de situações problemáticas no volante de um carro. Foi incrível!

– Qual a cena mais perigosa que filmou?
– Não pude fazer tudo, pois eu tinha um dublê no set. Foi ele quem me fez parecer um herói (risos). Só fiz o que me deixaram. Na cena mais emocionante que rodei, dirigi um carro a 280 quilômetros por hora numa ponte. Enquanto eu pilotava, houve um acidente atrás de mim, o que me obrigou a acelerar para depois ter de frear com tudo, por conta de um obstáculo à frente. Eu treinei aquela freada, quando o carro dá uma grande derrapada, por semanas a fio (risos).

– Foi nessa cena que você precisou parar o carro pertinho da câmera, pondo em risco a vida do cameraman?
– Foi. Como eu tinha de parar o carro bruscamente, posicionando a minha janela diante da câmera, nenhum cameraman queria segurar o equipamento. Ninguém confiava em mim (risos).
– Como resolveu o problema?
– O cameraman foi preso a uma corda. Se eu não tivesse parado no lugar certo, alguém o puxaria de lá, evitando o choque.

– Qual o carro favorito entre os que pilotou?
– O Ford Grand Torino. É um clássico!

– Há uma grande expectativa em torno do seu nome por conta do sucesso de Breaking Bad. Acredita ser esse o filme que o projetará em Hollywood?
– Espero que sim. Eu nunca fiz nada parecido no cinema. O custo de uma cena de Need for speed equivale provavelmente a um episódio inteiro de Breaking Bad (risos). Aqui não se trata apenas de um filme de carros. Não é mais um Velozes e furiosos. Nós temos uma história honesta e crua de um cara que luta para manter um negócio da família, mas ele mal consegue sobreviver. Por conta disso, sua vida se torna uma jornada desesperada pelos EUA, participando de corridas clandestinas. O filme é uma montanha-russa.

– Ficou satisfeito com o tão aguardado episódio final de Breaking Bad?
– Muito. A série tinha de terminar de um jeito selvagem. Para não decepcionar os fãs, teria de ser o episódio mais obscuro e violento de todos.

Para filmar em alta velocidade, foram criados carros-casulo, dirigidos por pilotos. Dentro do veículo, os atores fingiam que estavam na corrida e podiam dialogar

 

 

DOS GAMES PARA A TELONA

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