LIÇÕES DAS COPAS

Será que o fato de jogar em casa faz da seleção brasileira a favorita para ganhar o Mundial? Identificamos erros e acertos das seleções passadas. Confira

 

Por Rodrigo Cardoso

 

A Seleção Brasileira irá estrear na Copa do Mundo de 2014 muito bem credenciada. A vitória incontestável por 3×0 sobre a atual campeã do mundo, a Espanha, na final da Copa das Confederações, no ano passado, devolveu ao Brasil um favoritismo adormecido desde a queda nas quartas de final da Copa de 2010, na África do Sul. Fortalecida, jogando em casa e com a torcida a favor, a equipe do técnico Luiz Felipe Scolari, muitos acreditam, será imbatível no Mundial de 2014. Para se proteger dessa armadilha, um bom exercício é olhar para trás e identificar erros e acertos das seleções passadas.

SÍNDROME DO “JÁ GANHOU”

O “oba-oba” causou estragos em outras épocas. Em 1950, a Copa foi vencida pelo Uruguai, que calou 200 mil torcedores no Maracanã na final contra o Brasil, que jogava pelo empate e ganhava por 1×0 até os 21 minutos do segundo tempo. O revés por 2×1 – antes o Brasil havia goleado a Espanha e a Suécia por 6×1 e 7×1, respectivamente – é, até hoje, a derrota mais dolorida da história do futebol brasileiro.

 

JOGAR BONITO… E PERDER

O Maracanazo, como ficou conhecida aquela derrota, encontra paralelo com o Mundial de 1982, disputado na Espanha. O Brasil, comandado por Telê Santana, que contava com Zico, Sócrates e Falcão, só para citar três craques, dava espetáculo em seus jogos, mas foi eliminado, apesar de jogar pelo empate, pela Itália, que fazia uma copa medíocre até então. Aquele Mundial ficou marcado pela polêmica:

O BRASIL TEM DE SER FIEL AO FUTEBOL, ARTE?

Os comandados de Carlos Alberto Parreira, em 1994, voltaram com a taça do Mundial dos Estados Unidos dando vida à máxima: é melhor jogar feio e ganhar. “O Brasil tem mania de achar que a Seleção só perde para ela mesma, o que não é verdade”, alerta o comentarista Paulo Vinícius Coelho, o PVC, dos canais ESPN.

 

DISTÂNCIA DO TORCEDOR

Scolari não deve seguir um script adotado  no Mundial passado, na África do Sul. Na ocasião, Dunga, então treinador da “Canarinho”, isolou o grupo do contato com torcedores e mídia. Repetir isso pode ser um tiro no pé. No Brasil, boa parte da população não terá acesso aos jogos da Copa. “Liberar treinamentos para a torcida será fundamental para Felipão reforçar a identificação do brasileiro com a sua seleção”, afirma o sociólogo Túlio Velho Barreto, vice-coordenador do núcleo de sociologia do futebol da Fundação Joaquim Nabuco e Universidade Federal de Pernambuco.

 

SOBERBA

Este pecado marcou a campanha brasileira no Mundial de 1974, na Alemanha. O carrossel holandês, apelido do time da Holanda, que revolucionou o futebol com jogadores que não guardavam posição fixa, não foi devidamente estudado pelos brasileiros. O comentarista Alberto Helena Jr., que trabalhou naquela Copa, afirma ter questionado o então técnico Zagallo, sobre como a Holanda atuava, dias antes do confronto vencido pelo time laranja, que eliminou o Brasil. “Essa foi a resposta dele: ‘Pelo que sei, jogam de tamanco’”, lembra Helena Jr. Autoconfiança é importante, mas combinada à desinformação é desastre na certa.

 

GÊNIOS EM CAMPO

A presença de craques também pontua as equipes que levantaram a taça: PELE em 1958, 1962 e 1970, Garrincha, em 1958 e 1962, Romário,em 1994, e Ronaldo Fenômeno e Rivaldo, em 2002. Agora as fichas estão postas em Neymar.

 

BOA PREPARAÇÃO

Mas nem só as derrotas ensinam. As Copas vencidas pelo Brasil também deixaram boas lições. Em 1970, a preparação física bem planejada e executada – um mês antes do torneio, a equipe já treinava no México, local da competição – permitiu que a Seleção vencesse jogos difíceis, como contra a Inglaterra e o Uruguai. O oposto, porém, pode influenciar na derrota, como em 2006, na Alemanha. A preparação do time brasileiro em Weggis, na Suíça, ficou marcada pelo clima de Carnaval.

 

GRUPO FECHADO

Poucos treinadores são tão hábeis em fechar um grupo quanto Felipão. Em 2002, a “família Scolari” foi um dos trunfos na conquista do mundial da Ásia. É nesse ambiente de união que o técnico consegue apostar em jogadores de pouco nome para vestir a camisa titular. Em 2002, foi o meia Kleberson (abaixo, à esq.). Nesta Copa, é o volante Luis Gustavo(abaixo, à dir.).

 

A EXPERIÊNCIA DE FELIPÃO

A experiência do treinador também pode ajudar os jogadores mais jovens, caso de Neymar. Felipão, que foi uma espécie de paizão na conquista do penta em 2002, hoje está mais próximo da figura de um avozão, como define o sociólogo Barreto. Neymar e Oscar, outra aposta do time, terão apenas 22 anos durante o Mundial. “A juventude é um grande adversário para o Brasil”, diz PVC. Tudo bem, o Brasil venceu a última Copa das Confederações com os dois em campo. Mas essa competição não pode servir de parâmetro exclusivo. A Seleção já ganhou outras Confederações, em 2005 e 2009, e fracassou nos Mundiais seguintes. Que isso também sirva de lição.