NO MEIO DO NADA

A aventura de dois britânicos que resolveram cruzar, a pé, 1.600 km do maior deserto de areia do mundo, na península arábica

 

Por Piti Vieira

 

Durante um mês, Alastair Humphreys (na frente) e Leon McCarron puxaram 300 quilos de suprimentos, água e equipamentos pela areia do Empty Quarter

O britânico Alastair Humphreys, 37 anos, estava fraco. Sua cabeça latejava, seus olhos ardiam. As dunas atrás dele brilhavam em um tom de ocre profundo. À sua frente uma planície de cascalho se estendia até o horizonte e por centenas de quilômetros além. Ele se sentia oprimido pela escala do deserto e pelas centenas de escaldantes quilômetros que ainda tinha pela frente. Sem tomar banho ou dormir em uma cama por um mês, ele estava com fome, com sede e cansado de transportar suprimentos pesados em um carrinho feito no quintal de casa. No entanto, não existia outro lugar na Terra em que ele preferisse estar. Ele tinha esperado 15 anos para chegar até o Empty Quarter ou Rub’al-Khälï, o maior deserto de areia do mundo. Junto com o irlandês Leon McCarron, 28 anos, ele cruzou 1.600 quilômetros sobre a areia escaldante daquela região, que abrange cerca de 650 mil quilômetros quadrados do sul da Península Arábica, incluindo a Arábia Saudita e áreas de Omã, Emirados Árabes Unidos e Iêmen.

Humphreys está acostumado a roubadas. Ele passou quatro anos dando a volta ao mundo em cima de uma bicicleta, andou por toda a Índia, atravessou o oceano Atlântico remando e esquiou sobre toda a calota de gelo da Groenlândia. Seu herói é o explorador etíope Wilfred Thesiger (1910-2003), um dos maiores aventureiros do século 20 e autor do livro Arabian Sands (Pelos Desertos das Arábias, fora de catálogo no Brasil), um clássico da literatura de viagem, que conta suas travessias pelo Empty Quarter na década de 1940. “Minha jornada foi inspirada nele, mas não pretendia repetir nenhum de seus caminhos. Havia razões pragmáticas para isso. Não é mais permitido perambular à vontade em torno da Arábia Saudita. Eu não tinha ideia de como conduzir um camelo e não podia pagar por um de qualquer maneira. Então, meu plano era encadear alguns segmentos de diferentes viagens feitas por Thesiger, transportando meu material em um carrinho caseiro construído especialmente para essa viagem do sul de Omã até a chamativa Dubai”, disse ele à Status. Para ajudá-lo, Humphreys recrutou McCarron, um aventureiro que ele pouco conhecia, mas que já tinha dado a volta ao mundo de bicicleta e, principalmente, não havia reclamado de ter de puxar 320 quilos de suprimentos e equipamentos sob o calor do deserto.

A região que eles tinham em mente já não existe mais e a aura inóspita só aparece no meio do deserto

“Só tivemos tempo para um dia de treinamento, na praia de uma cidade inglesa à beira-mar, tremendo sob a chuva que caía. Real mente não foi uma preparação ideal para o que nos aguardava no deserto”, diz McCarron. A dupla partiu de Salalah, na costa sul de Omã. Carregaram o carrinho com cerca de 30 litros de água e fornecimento de macarrão instantâneo, biscoitos e latas de carne para um mês. “Começamos a puxar o carrinho pela estrada, cheios de emoção. Após 15 anos sonhando acordado, minha aventura Thesigeriana estava finalmente a caminho. Mas, então, tudo parou”, conta Humphreys. Eles descobriram, tarde, que o veículo especialmente projetado não fazia curvas. “As rodas não viravam. Foi um desastre. Nós continuamos teimosamente por algumas horas, puxando a engenhoca inútil, amaldiçoando a nossa própria incompetência. Toda a viagem foi desmoronando diante de nossos olhos. Ao anoitecer, sem ter ainda conseguido sair da cidade, desistimos.” Mas graças aos mecânicos de Salalah, que com grande habilidade e imaginação soldaram um novo sistema de direção para o carrinho, a expedição estava salva. Três dias depois da partida inicial, eles começaram novamente.

Montagem do carrinho caseiro, construído especialmente para a viagem

Sol e lentidão


Nos dias seguintes estabeleceu-se uma rotina. Eles acordavam às 4 da manhã, se arrumavam rapidamente e começavam a andar. No início, ficavam em silêncio. O ar ainda estava fresco e Vênus aparecia brilhante no horizonte. Com o nascer do sol, vinha a conversa e as risadas. Mas o calor ia aumentando até chegar aos 45o C e dominar os pensamentos. Eles andavam por uma hora, davam uma breve pausa para um gole de água e algo para comer, e continuavam. Repetiam isso até o calor se tornar demasiado. Então, paravam para descansar por algumas horas, se escondendo do sol na única sombra que havia: a do carrinho. A lona que Humphreys havia trazido teve um desempenho admirável quando foi testada por ele em seu jardim, mas o sol do Empty Quarter acabou por se mostrar um pouco mais feroz do que o da Inglaterra em outubro, transformando a lona em uma peça inútil.

As paisagens eram vastas e mudavam lentamente. Havia dunas altas que subiam abruptamente do chão, mas, na maioria das vezes, o arredor era plano e vazio. “Grande parte do tempo estávamos em pistas de cascalho. Passamos por instalações de gás e petróleo e pequenos assentamentos. A única coisa que nunca mudava era a lentidão do nosso ritmo, que girava em torno dos 50 km por dia. Achava frustrante passar um dia inteiro trabalhando duro para chegar a um ponto que tinha sido capaz de ver desde a manhã”, diz McCarron. À noite, quando paravam para dormir, uma ou duas horas depois de o sol ter se posto, eles trocavam as camisas suadas por algo mais quente, cozinhavam o jantar e entravam em seus sacos de dormir. Sem barracas. Sem preparação. Sem problemas.

Sem tomar banho durante toda a jornada, Humphreys acabou a expedição em um shopping de luxo

E, assim, os quilômetros, horas, dias e semanas se passaram. Dentre as conversas habituais (comida, mulheres, mais comida) que Humphreys e McCarron tiveram, eles discutiam as viagens de Thesiger. Mas ele teria se surpreendido ao ver o quanto a região havia mudado em apenas algumas gerações. Os beduínos que ele tanto admirava não levavam mais uma existência tão dura. “Em nossa jornada, eles abriam as janelas de seus veículos 4×4 com ar-condicionado para tirar fotos com seus smartphones dos britânicos loucos. Onde quer que fôssemos, éramos motivo de piada”, diz Humphreys. E nada poderia tê-lo surpreendido mais do que o lugar que a dupla escolheu para o final da expedição: O topo do edifício mais alto do mundo, o Burj Khalifa, em Dubai. “Nós nos sentimos tão fora de lugar naqueles shoppings. Não nos lavávamos há um mês. A cidade moderna foi um lugar divertido para terminar a viagem. Não posso imaginar que minhas futuras expedições irão acabar do lado de fora de uma loja Dolce & Gabbana!”

 

SIR WILFRED THESIGER

 

Quem foi o explorador cuja visão mística rejeitou o moderno mundo tecnológico em favor das tribos da África e dos desertos da Arábia?

Uma vez, em 1946, Wilfred Thesiger ficou três dias no Empty Quarter à espera do resgate de seus compa-nheiros beduínos. Torturado pela fome e pela sede, ele teve alucinações onde carros o levavam a salvo para casa. “Eu preferiria morrer de fome do que sentar em uma cadeira, ouvir rádio e ser dependente de carros”, ele escreveu mais tarde. Como explorador, Thesiger, que morreu aos 93 anos, foi pego em ataques intertribais, perseguido por invasores hostis e preso pelas autoridades sauditas. Ele viajava sozinho e explorou toda a região ao sul da Arábia, cruzou a Abissínia, hoje Etiópia, onde nasceu (seu pai era o embaixador britânico), lutou ao lado dos monarquistas na guerra civil no Iêmen (1966-1967), viajou com os nômades Bakhtiari no Irã, caminhou através das planícies do Grande Deserto de areia do Irã oriental e explorou o interior do Afeganistão. Mas sua grande expedição foi pelo Empty Quarter, o maior deserto de areia do mundo, onde ele viveu de 1945 a 1949 e escreveu seu famoso livro Arabian Sands. Todas essas viagens foram feitas a pé ou por transporte tradicional, seja ele camelo, cavalo, mula, burro ou canoa.