O AMOR É ESTRANHO

O príncipe encantado de Star – ela não revela seu nome verdadeiro – tem 79 anos, 54 a mais que ela em seus atuais 25 aninhos

 

Por Reinaldo Moraes

 

“Star” é o que você chamaria de uma tremenda gatinha. Esbelta, cabelos lisos, de um loiro escuro, ela tem uma doçura meio safada no olhar e uma voz suave e envolvente que deixam qualquer marmanjo como eu e você pensando imediatamente em trêfegas sacanagens. Ela postou vários vídeos no YouTube que não deixam dúvidas quanto a isso. Bem verdade que Star era bem mais atraente antes de riscar com algum tipo de lâmina uma cicatriz em forma de X na testa, como homenagem ao seu bem amado, que tem uma suástica inscrita à faca no mesmo lugar.

Well, você não gostaria de encontrar um sujeito com uma suástica na testa e um olhar delirante num lugar ermo, de dia ou de noite, em qualquer lugar deste planeta. Nem mesmo na Corcoran State Prison, na Califórnia, onde o tipo em questão cumpre uma sentença de prisão perpétua por ter ordenado o assassinato de sete pessoas em 1969, inclusive da bela e grávida atriz Sharon Tate, então mulher do cineasta Roman Polanski, antes que ele saísse por aí sodomizando garotinhas de 13 anos.

O príncipe encantado de Star – ela não revela seu nome verdadeiro – tem 79 anos, 54 a mais que ela em seus atuais 25 aninhos. Parece que Star, apelido que o próprio serial killer lhe pespegou, apaixonou-se por Charlie Manson ainda adolescente, quando seus pais, religiosos batistas, a mantinham sob estreita vigilância, trancada no quarto a maior parte do tempo, por uso de drogas. Star jura que não se apaixonou por Manson por seu status de mega-homicida e maluco registrado. Mas sim por sua militância ambientalista em prol do planeta, das árvores, águas, animais etc. Confesso que não sei de que meios Manson lança mão para suas pregações naturebas, nem se o deixam manter blog e site na prisão. Confesso aqui uma vergonhosa preguiça de ir pesquisar isso. Mas sei que a Star mantém vários websites que agitam a bandeira: “Dê uma chance a Manson.” E é melhor darem logo. Parece que o velho tá meio surdo, com os pulmões ferrados e sabe-se lá em que estado anda seu velho e gasto aparelho reprodutivo.

Mas o que tem a ver aquela suástica na testa, em todo caso, com ambientalismo? Isso Star não menciona. Ela acha é que Manson foi vítima de uma injustiça, pois era “apenas” o líder de uma seita empenhada em resistir a um suposto complô dos negros americanos visando à extinção da raça branca, primeiro nos Estados Unidos, depois em toda a face da Terra. Os assassinatos cometidos pelo grupo de Manson, em meio a genuínos festins diabólicos, tinham como finalidade jogar a culpa nos ativistas negros, como os Black Panthers e a turma do Weather Report, que tratavam de aterrorizar os States na época com bombas e sequestros. O que o hipnótico Charlie pretendia era acirrar ainda mais a já não pequena beligerância histórica entre os dois grupos étnicos no país. Malucos da pá virada – virada pras bandas do mal – é o que eles eram. Verdadeiros diabos hipongos que poderiam ter saído da barriga de Mia Farrow no filme O bebê de Rosemary, grande sucesso de Polanski de 1968, um ano antes dos assassinatos arquitetados por Manson, que, no entanto, segundo o inquérito policial, não os teria cometido com as próprias mãos.

A história desse cara resume a voga dos misticismos de pacotilha que integrou, junto com muito arroz integral, a pauta do desbunde sessentista, sobretudo na Califórnia dos Mammas and the Papas e do Jim Morrison. A maior parte dessas seitas e doutrinas era inofensiva, resumindo-se a posturas físicas, uma alimentação que segregava todas as coisas gostosas à disposição do paladar, a começar pelas carnes, e a crença na sabedoria transcendente dos astros, óvnis incluídos, e na força transformadora da flor e do amor. Algumas seitas, porém, pegavam pesado e cobravam sangue humano em seus rituais, seja dos fiéis ou de gente que se aproximava de seus membros na santa ingenuidade hippie. Foi o caso da escultural Sharon Tate, que levou mais de um centena de facadas pelas mãos dos seguidores de Manson, garotas, na absoluta maioria.

Esse Manson era caso de polícia desde que nasceu. Filho de uma prostituta alcoólatra de 16 anos com sabe-se lá quem, o sobrenome lhe veio de um breve relacionamento que a mãe teve com algum cafiolo piedoso que resolveu assumir a paternidade do garoto. A vida do jovem Charlie, previsivelmente, não foi nenhum passeio no parque, transcorrendo entre reformatórios na adolescência e prisões na vida adulta, locais onde sofreu e infringiu abusos de toda espécie, tendo sido, por exemplo, currado várias vezes, a ponto de se tornar um bissexual assumido. Durante um tempo, sua especialidade foi roubar carros, embora a última cana que puxou antes dos assassinatos, de seis anos, tenha sido motivada pela falsificação de um reles cheque de 37 dólares quando estava em liberdade condicional. Bizarrices jurídicas típicas do moralismo puritano dos nossos bróders do Norte.

Vincent Bugliosi, o promotor público do caso conhecido como Tate-La Bianca (o casal LaBianca foi morto logo em seguida ao assassinato da Sharon Tate e seus quatro amigos na mansão do casal Polanski), autor de um livraço de 600 páginas estarrecedoras sobre o caso, relata que Manson, depois de cumprir sua última pena, caiu de boca no flower power californiano, em San Francisco. O ambiente de extrema permissividade caiu-lhe como uma luva: muito amor livre, maconha, ácido, ócio, rock, orientalismos de ocasião e gente jovem, sobretudo garotas birutinhas, em busca de um líder espiritual, fosse ele mestre iogue, professor de levitação, citarista indiano, astrólogo, jogador de tarô, búzios, runas  – ou um maluco de olhar esgazeado recém-saído da prisão, como Charles Manson.

“As mulheres o adoravam,” conta Bugliosi, “começando pela bibliotecária Mary Brunner, seguida pela bonitinha Lynette Fromme (chamada de Squeaky), pela ninfomaníaca Susan Atkins e pela ricaça Sandra Good.” Esse era o time de carniceiras místico-revolucionárias que faziam o serviço homicidário a mando de Manson e sob influência das músicas do chamado disco branco dos Beatles, nas quais viam signos ocultos que orientavam suas ações, em especial a zoada canção “Helter Skelter” (montanha russa, em inglês), título, aliás, do livro do promotor. (No Brasil saiu como Charles Manson – retrato de um crime repugnante).

Difícil dizer se a lindinha Star se uniria a esse time de perigosas “Manson girls” se vivesse naquela época. Mas não parece nada improvável. Afinal, se hoje em dia ela morre de tesão pelo velhote de bengala e meio banguela, com aquela suástica na testa, há 44 anos em cana, o que ela não faria pelo jovem, livre e carismático Manson em meio à vertigem dos anos 60. Até o X ela já riscou na testa, estragando um bocado a candura de seu rostinho de menina, sem, no entanto, ter o desplante de completar as perninhas da suástica – até porque iria em cana se o fizesse.

Star visita o multimatador regularmente na prisão, todo sábado e domingo, sempre que ele não está na solitária por ter aprontado alguma, o que acontece com frequência. Sob as vistas de dois guardas armados de cassetete e spray de pimenta, pode dar um beijo no homem, conversar e se distrair com ele por cerca de cinco horas a cada dia. Diz ela que vai se casar com Charles Manson. O doidão, porém, desconversa: “Isso é um monte de lixo. A gente só tá inventando essa história pra consumo do público,” ele afirma numa entrevista recente à revista Rolling Stone. Mesmo assim, sempre que a Star aparece para visitá-lo, Manson se ilumina e saúda sua noivinha com a mesma frase: “Star! Não é uma mulher. É uma estrela na Via Láctea!”

Um fofo, né? O chato é que a Justiça americana não permite visitas íntimas ao assassino de Sharon Tate. Chato pra moça, porque o maluco do Manson não parece se importar muito com isso. Diz ele na mesma entrevista: “Sexo pra mim é como ir ao banheiro. Pode ser com uma garota, pode não ser, pra mim tanto faz.” Caraca, suspiro eu. Tudo bem que Elvis Presley já tinha nos avisado a todos de que o amor é estranho – Love is strange. Mas, cazzo!

Onde essa gostosinha da Star foi amarrar sua estelar libido?!