OS INVASORES

O hobby deles é explorar topos de prédio, galerias de esgoto, trilhos de metrô, pontes e os lugares mais difíceis – e proibidos – das maiores cidades do mundo. Conheça os place hackers

 

Por Fabrícia Peixoto

 

Bradley Garret, pesquisador e place hacker, caminha sobre a ponte Forth Rail, na Escócia, sem proteção. a mais de 100 metros de altura, Se cair, é morte na certa

Os três rapazes prenderam a respiração. Escondidos atrás de arbustos, permaneceram imóveis enquanto dois policiais caminhavam sobre o carvalho seco, bem perto dali. Por sorte, a dupla que fazia a ronda noturna estava concentrada em uma calorosa discussão sobre futebol. Bastou que dobrasse o quarteirão para o grupo de invasores correr em direção à cerca de arame. Depois de ultrapassá-la por baixo, resultando em alguns arranhões, o trio chegou ao pátio, forçou um portão enferrujado e finalmente pôde soltar o riso nervoso diante do feito: eles estavam dentro da usina termelétrica de Battersea, desativada há mais de 30 anos e uma das construções mais icônicas de Londres. Cansados e imundos, os três tiraram as máscaras e deitaram no chão para admirar aquela construção sombria, com seus tijolos vermelhos envelhecidos e imponentes chaminés. “Deitado ali, percebi o quanto era forte o sentimento de liberdade. E me dei conta de que eu estava completamente apaixonado por esse tipo de aventura. Eu havia me tornado um place hacker”, diz à Status o pesquisador americano Bradley Garret, da Universidade Oxford, na Inglaterra.

Garret no parapeito da catedral de Saint-Sulpice, em Paris

Em outras palavras, Garret estava viciado em invadir lugares. A prática, também conhecida como urbex (exploração urbana), consiste em entrar clandestinamente em lugares proibidos ou de difícil acesso, como construções abandonadas, redes de esgoto, trilhos de metrô e topos de prédio. Uma aventura perigosa, sujeita não apenas a detenção por invasão, mas também a riscos de doença e até morte. Como as missões são realizadas de forma ilegal, sorrateiramente e na calada da noite, não é possível carregar todos os equipamentos necessários para garantir a segurança da empreitada. Na imagem que abre essa reportagem, por exemplo, Garret aparece de pé sobre a estrutura da famosa ponte de Forth Rail, na Escócia, a cerca de 100 metros de altura (o equivalente a um prédio de 22 andares), sem qualquer proteção. Ele e outros três amigos escalaram a estrutura de aço usando apenas um par de luvas especiais e alguns ganchos, nada mais. Detalhe: a ponte faz parte do sistema de transporte da cidade e ainda está em atividade, com trens percorrendo os trilhos 24 horas por dia. Medo de cair? “Meu coração batia furiosamente. Meu corpo queimava de medo e excitação, mas é justamente essa sensação que te impulsiona a seguir em frente, mas com cautela”, diz Garret. “Mais de 60 homens morreram construindo aquela ponte e eu não podia deixar de imaginar seus corpos fantasmagóricos em queda livre. Imaginei a sensação de impotência caso um de meus amigos caísse.”

Invasor no telhado do hotel Holliday Inn, em Belfast, na Irlanda

 

Galeria de drenagem de água no subterrâneo de Londres

Mais de 300 invasões

Formado em arqueologia pela Universidade da Califórnia, onde também obteve seu mestrado em história, Garret nunca havia ouvido falar em exploração urbana até começar a pesquisa para sua tese de doutorado, há cerca de cinco anos. Ao mergulhar no assunto, ele não apenas descobriu comunidades de exploradores, como passou ele mesmo a participar ativamente de incursões pela cidade. O objeto de estudo, porém, conquistou o pesquisador, transformando Garret em um explorador extremamente ativo, com mais de 300 invasões contabilizadas. Com uma particularidade: ele é um dos poucos a revelar sua identidade. Enquanto a maioria dos exploradores urbanos costuma usar codinomes para evitar problemas com seus empregadores e até mesmo com a polícia, Garret usa seu próprio nome, sobrenome e ainda faz questão de divulgar imagens de seus feitos pela imprensa. “Acredito que meu papel seja um pouco diferente. Sou um place hacker, mas sou também um pesquisador. Estou sendo pago para isso e seria antiético de minha parte esconder quem sou”, diz.

Outro que não vê problemas em fazer tudo às claras é o historiador e fotógrafo americano Steve Duncan, 35 anos. Autor do documentário Undercity, que relata uma inacreditável viagem pelos trilhos de metrô de Nova York, ele coleciona multas e detenções por suas aventuras, mas nem por isso deixa de fazê-las. Como na vez em que, de cima da Catedral de São João, em Nova York, com câmera e tripé em mãos, foi confundido com um atirador – resultando em um alerta de emergência que mobilizou mais de 100 policiais. “Foi um constrangimento, sem dúvida, mas são ossos do ofício”, diz o americano. Ele conta que uma de suas experiências mais marcantes ocorreu em Roma, quando ele e um grupo de amigos decidiram explorar o sistema de esgotos da capital italiana. “Diversas passagens estavam bloqueadas por tijolos, mas uma delas estava aberta. Ali dentro, encontramos um pequeno trecho da Cloaca Máxima, o primeiro sistema de esgoto do mundo, construído durante a Roma Antiga”, conta.

Garret em uma linha desativada do metrô de Londres

Mas o que leva, exatamente, alguém a sentir prazer em andar pelo esgoto ou em correr o risco de ser atropelado por um trem? A sensação de adrenalina que envolve a aventura é, sem dúvida, um fator importante, mas não é o único. “O que move um explorador urbano é uma necessidade de retomar espaços, o que para mim tem uma forte relação com a busca por liberdade”, diz Garret. A ideia, diz ele, remete à base filosófica da chamada psicogeografia. O termo, cunhado pelo pensador francês Guy Debord, na década de 50, pressupõe uma exploração geográfica pautada pela “deriva”, ou seja, pelo “deixar-se levar”. Nesse sentido, qualquer canto da cidade está sujeito a (e deve) ser explorado pelo indivíduo, independentemente de barreiras físicas ou de leis. Na visão de Garret, a ideia está mais viva do que nunca. “Estamos perdendo nossa liberdade com uma rapidez assustadora. São guerras que não terminam, eternas ameaças terroristas, governos autoritários, tudo isso reduzindo nossos direitos em nome de uma suposta segurança”, diz. “Não à toa, o interesse pela atividade só aumenta.” Os grupos mais ativos, segundo ele, concentram-se em Londres, Paris e Nova York, mas muitos costumam viajar para outras cidades europeias, em busca da exploração ideal.

De fato, basta uma simples pesquisa sobre exploração urbana na internet para encontrar dezenas de sites especializados no assunto, com sugestões de lugares a serem explorados, dicas de segurança e, sobretudo, relatos pessoais (tudo sob anonimato). No infiltration.org, os exploradores utilizam os fóruns para trocar todo tipo de informação, inclusive fotos e vídeos. “Muita gente ali se conhece e até realizou alguma atividade junto, mas não queremos publicidade. Por isso usamos codinomes”, conta Liz, que preferiu não se identificar, à Status. “É como uma comunidade e esses fóruns ajudam bastante a mantermos certas regras.” De fato, é comum ver nesses sites exploradores urbanos defendendo uma espécie de “ética das invasões”.

O Invasor desafia o perigo ao caminhar no alto do Ritz Carlton de Chicago

Morte na tailândia

Entre as principais regras está a de não interferir nos espaços. Pixação ou quaisquer outras marcas não são aceitas. Muito menos deixar lixo para trás. Os exploradores torcem o nariz, por exemplo, aos turistas que costumam invadir as Catacumbas de Paris para a realização de raves com até 200 pessoas, deixando garrafas, copos e pontas de cigarro em uma rede subterrânea que começou a ser escavada ainda na época do Império Romano. “Esses espaços são verdadeiras cápsulas do tempo. Se houver interferência ali, perdem o sentido”, diz Duncan.

O americano Steve Duncan escala a Queensboro bridge, em Nova York

Apesar de serem alguns dos principais defensores do movimento, tanto Duncan quanto Garret são críticos à atuação de curiosos, ou seja, de pessoas que não têm a paciência e a dedicação necessárias à pesquisa que antecede uma incursão ou mesmo aquelas que não levam a atividade tão a sério. Em agosto de 2010, o britânico Jim Smith, de 30 anos, conhecido por explorar prédios famosos, morreu ao cair da varanda de um hotel, na Tailândia. Mesmo com toda a experiência que tinha, Jim havia consumido algumas garrafas de cerveja, naquela noite. “Mesmo os veteranos estão sujeitos a erros. E não estou nem me referindo a consequências legais ou jurídicas, mas sim à morte”, diz Duncan. Certa vez, ele e mais dois amigos quase se afogaram quando percorriam um sistema de drenagem próximo à Baía da Jamaica, em Long Island. “A maré encheu de repente e foi então que percebi que nosso conhecimento sobre a infraestrutura era precário”, conta. “Tentamos abrir diversos bueiros, com a água já na altura do peito. Quando finalmente conseguimos abrir, saímos no meio de uma rua movimentada e uma minivan teve que desviar rapidamente para não nos atropelar.” O risco de ser preso também é grande, claro. No final do ano passado, o voo de Garret havia acabado de pousar em Londres e, antes mesmo de os passageiros serem liberados, dois policiais vieram detê-lo quando ainda estava na poltrona. Foi detido e interrogado até à noite, sob diversas acusações, entre elas invasão de propriedade privada, e até hoje corre o risco de ser deportado para os Estados Unidos. “Não vou deixar de fazer o que faço por medo de ser preso. Se o ambiente político na Inglaterra é insensível a ponto de não perceber a importância de uma pesquisa social, prefiro me mudar para um país mais tolerante”, diz.

Em um guindaste na área industrial de Paris

OS SONHOS DOS EXPLORADORES

Lugares que estão na mira de invasores como Bradley Garret

1. Sistema de metrô de Seul, Coreia do Sul

É o mais longo do mundo em extensão, com 519 estações. Não precisa dizer mais nada!

2. Sistema de drenagem de Tóquio, Japão

É um daqueles cenários dignos de ficção científica. Tanques com 100 metros de profundidade e
turbinas que fazem a água da chuva ser drenada por quilômetros.

3. Metrô-2, Moscou, Rússia

Além do sistema de metrô tradicional, existem fortes indícios de que a capital russa tenha uma rede paralela, ainda mais profunda, construída durante o governo de Stalin como uma possível rota de fuga.

4. Tocha da Estátua da Liberdade, Nova York, Estados Unidos

Ponto mais alto da estátua, a tocha está fechada à visitação desde 1916. É acessível por meio de uma escada com 54 degraus, mas também é possível tentar acessá-la externamente, usando uma corda disparada do topo da coroa. “Já fizemos isso para subir no Anjo do Norte (monumento na costa leste da Inglaterra)”, diz Garret.