WAGNER MOURA

Um dos melhores atores do Brasil, ele fala sobre interpretar um personagem gay, a dificuldade do idioma em produções estrangeiras, o filme que dirigirá e as manifestações no país

 

Por Elaine Guerini, de Berlim

 

Wagner Moura não é louco a ponto de virar as costas para Hollywood – principalmente após ter estreado na indústria americana com Elysium (2003). O baiano quer, sim, um lugar ao sol na Meca do cinema. Mas isso não significa que ele fará o jogo geralmente necessário para chegar lá, topando qualquer papel apenas para ser visto. “Se for simplesmente para me promover e para aparecer, o filme americano não me interessa”, diz o ator, muito confortável exercitando o seu talento em longas-metragens brasileiros. Até porque as produções nacionais também lhe garantem visibilidade no exterior. Depois de imortalizar o Capitão Nascimento de Tropa de elite, vencedor do Urso de Ouro de Berlim de 2008, Moura voltou ao festival de cinema alemão, onde foi recebido com toda a pompa. Ele concorreu como melhor ator na 64ª Berlinale, realizada em fevereiro, por uma performance ousada, envolvendo cenas de sexo gay – rodadas com muita naturalidade. No novo filme de Karim Aïnouz, Praia do Futuro, com estreia nas telas brasileiras em maio, seu personagem é um salva-vidas do Ceará que joga tudo para o alto ao se apaixonar por um turista alemão. Ele segue para Berlim, deixando toda uma vida para trás, incluindo um irmão mais novo que o perseguirá até encontrá-lo. “Prefiro rodar filmes que fazem sentido para mim no Brasil do que deixar que me transformem em algo que não sou em Hollywood.’’ A seguir, os principais trechos da entrevista concedida à Status, no Berlinale Palast.

– É preciso coragem para abraçar um personagem gay? Principalmente após sua projeção mundial na pele de um sujeito durão, como o capitão Nascimento, da franquia Tropa de elite?
– Embora eu entenda a pergunta, tenho dificuldade em pensar nisso. O fato de o personagem de Praia do Futuro ser homossexual não fez diferença. A minha relação com o ator Jesuíta Barbosa, que vive o irmão mais novo do meu personagem, foi muito mais árdua, dolorosa e complicada do que as cenas com Clemens Schick (o ator alemão, que interpreta seu companheiro no filme). Por ser pai de três filhos (da união com a jornalista e fotógrafa Sandra Delgado), eu nunca abandonaria uma criança. Quanto à coragem, não consigo imaginar o meu trabalho sem riscos. Isso é um pré-requisito para o ator.

O ator como capitão Nascimento

– Não existe a preocupação em mostrar outras facetas como ator, num movimento de carreira calculado?
– Não. Depois de Tropa de elite, que foi um filme muito forte, houve uma grande expectativa em cima dos meus próximos personagens. Para mim, quando me perguntavam para que lado eu seguiria após Nascimento, era difícil responder. Eu não sei o que as pessoas esperam que eu faça. Será que elas queriam que eu reprisasse Nascimento eternamente? A verdade é que eu nem gosto da palavra carreira. Já tenho quase 40 anos e atuar é a minha vida. Não separo o artista da pessoa. Faço os trabalhos que me interessam. Nunca penso no que um filme ou um personagem representará em termos de imagem.

– E isso vale também para o nu frontal que você fez em Praia do Futuro? Não se sentiu exposto ao rodar a cena?
– Nem pensei nisso. O nu tinha de acontecer em alguma cena. Como eu estava nu no quarto com Clemens, ser filmado de frente me pareceu natural naquele contexto. Por eu estar trabalhando com Karim Aïnouz, um diretor que respeito, sabia que ele não faria nada para me expor. Com a bagagem que tenho, estou esperto o suficiente para não entrar em ciladas, trabalhando com diretores oportunistas.

Em Praia do Futuro

– Tem dificuldade para atuar em outras línguas – aqui em alemão e, em Elysium, em inglês?
– Sim. Para mim, é difícil atuar numa língua com a qual não tenho tanta familiaridade. Falo inglês, mas nunca vivi fora do Brasil. Os três meses que passei na Alemanha me ajudaram, mas não foram suficientes. É preciso ter uma relação profunda com o idioma para que a sua fala seja verdadeiramente um depoimento seu e para que você possa preencher o personagem de humanidade. Por isso, é sempre mais complicado.

Com Matt Damon em Elysium

– Alguns atores dizem que o uso de um idioma estrangeiro contribui para que eles se escondam ainda mais atrás do personagem. Concorda?
– Para mim, não serve. Como ator, não procuro me esconder por trás do personagem. É o oposto. Quando você faz direito, você acaba se expondo totalmente. E eu nem estou falando de nu. Todos os tipos que interpretei têm um pouco de mim. Não têm só a minha cara, mas também as minhas emoções. Atuar é uma exposição muito grande porque expõe o seu ponto de vista sobre o personagem. Você se coloca no lugar dele.

– Tem interesse em fazer carreira em Hollywood, seguindo os passos de Rodrigo Santoro? No Brasil, você escolhe os personagens que quer fazer. Mas lá dificilmente será assim, não?
– Não sou um ator muito requisitado nos EUA. Recebo propostas, mas não aceitei nenhuma depois de Elysium. Ainda assim, Hollywood me interessa, mesmo sendo um mercado onde eu não tenho valor comercial. Até porque eu quero filmar em outros lugares e trabalhar com diretores importantes. Para isso acontecer, no entanto, eu não quero ter de abrir mão da minha experiência de vida e de artista.

Moura, que é a favor das manifestações sem violência, ao lado de José Padilha e do deputado Marcelo Freixo

– Sua atitude não deve agradar aos agentes de atores de Hollywood. O que eles acham da sua opção?
– Os meus agentes americanos me dizem o tempo todo que lá é preciso fazer um filme para conseguir pegar outro depois. Mas eu não sei fazer isso. Nunca vou aceitar um trabalho que não me interessa pensando que talvez alguém me veja no filme e me chame para fazer algo significativo. É por isso que recuso a maioria dos convites que recebo. Claro que me interesso por muitos papéis da indústria americana. Só que aí são eles que não querem que eu faça (risos). Aí eles chamam Javier Bardem (risos). Mas ok. Em algum momento aparecerá algo bom para mim. Se não aparecer, tudo bem também.

– Uma pena o projeto Fellini Black and White ter sido engavetado. Há ainda alguma chance de você interpretar o diretor italiano?
– O projeto não saiu por uma tragédia, a morte de Henry Bromell (em março de 2013, aos 65 anos), que dirigiria o filme. Estava tudo engatilhado para eu interpretar Fellini (a ideia seria especular o que o cineasta teria feito em Los Angeles, quando sumiu num Cadillac, reaparecendo algumas horas antes de comparecer à festa do Oscar, em 1957, quando A Estrada da Vida ganhou o prêmio de melhor produção estrangeira). Ainda estou em contato com o produtor do filme (Andrew Lazar). Talvez o projeto saia do papel. Mas não posso contar com isso. Esse sim seria um grande projeto para eu fazer nos EUA.

– Como vê a fase Comédia da Vida Privada do cinema nacional? Considera decepcionante o fato de só as comédias conquistarem sucesso comercial no Brasil nos últimos anos, numa linguagem muito próxima daquela da tevê?
– Não vejo assim, apesar de ter produzido Serra Pelada (com direção de Heitor Dhalia) para ser bem-sucedido comercialmente. Nós esperávamos que o filme fosse um blockbuster brasileiro, o que não aconteceu. Xingu é outro filme que não foi bem. Mas isso é uma contingência. A produção brasileira de maior bilheteria no País até hoje é Tropa de elite, um filme político. Também não concordo com a ideia de a comédia ser um gênero menor. Elas são importantes, até porque estão levando o público aos cinemas atualmente para ver filmes falados em português. Não vejo nas comédias uma ditadura estética. É tudo filme brasileiro. Isso é coisa de momento. A diversidade é algo que mostra a maturidade do nosso cinema. As comédias da Globofilmes não fazem sucesso por acaso. No Brasil, nós temos a tradição da chanchada.

– Acha que a trajetória do guerrilheiro Carlos Marighella (cinebiografia que Moura dirige em 2015) tem fôlego para se tornar um hit nos cinemas?
– Vou fazer tudo para que o filme seja um sucesso comercial. Terei um orçamento alto e produção da O2 Filmes. Há tempos sinto que está na hora de dirigir. Sempre tive interesse em fazer essa ponte para a direção. Escolhi Marighella pela minha admiração por ele e também pelo fato de o Brasil ter problema de memória e pela direita ainda ser tão forte no País. A Alemanha, por exemplo, tem uma relação madura com o seu passado. Em cada esquina, você vê referências ao Holocausto. Ainda que os eventos tenham proporções tão diferentes, o Brasil não tem a mesma postura diante da ditadura. A Lei da Anistia embaralhou um pouco. Ninguém foi realmente responsabilizado por torturar e por matar.

O ator vai se aventurar como diretor, filmando a vida do guerrilheiro Carlos Marighella

– Qual será o seu olhar sobre Marighella?
– Farei um recorte de 1964 até 1969, com a sua morte. Marighella é um herói brasileiro esquecido. Foi um homem que pegou em armas para lutar contra a ditadura e pela liberdade. Além dessa dimensão política da sua vida, ele é um personagem apaixonante. Dedicou toda a sua vida à causa, mas era o oposto do que se espera de um guerrilheiro. Era um cara magnético, alegre, otimista, bem-humorado e sexy. Por mais que ele tivesse mais de 50 anos, vivia rodeado de garotada.

– Por que escolheu estrear na direção com um filme sobre a ditadura, uma época que a sua geração não viveu?
– Justamente porque a minha geração não sabe o que é dedicar toda uma vida a uma causa. As pessoas morriam por aquilo. Mas não vou cair no maniqueísmo, como se todo guerrilheiro fosse bonzinho e todo militar fosse filho da puta. Quero um filme humano. E trabalhar com Karim em Praia do Futuro foi a melhor escola do mundo para isso, pois seus personagens vêm com todas as complexidades possíveis. Será um filme épico, mas vivo. Quero que ele traga toda a ebulição política e emocional daquelas pessoas que viviam acima da lei. Elas descobriam a vida, o amor e o sexo, totalmente na clandestinidade. Armadas, elas não tinham de responder a nenhuma forma de poder, fosse o pai, a mãe ou o governo. Eu quero entender isso.

– Por ser politizado e viajado, como vê o momento atual no Brasil, nessa fase de manifestações?
– Assistimos a um recrudescimento da direita no Brasil. Por conta dos interesses econômicos que a Copa do Mundo e a Olimpíada despertam, há um movimento muito forte de repressão e de criminalização das manifestações. Só que, desde que eu me entendo como cidadão, o que eu presenciei de mais importante no Brasil, do ponto de vista democrático, foi justamente a manifestação. É evidente que, se alguém da manifestação cometer um assassinato, essa pessoa deve ser enquadrada na lei, de forma correta, como homicida. Mas essa tendência da direita no Brasil de conter e criminalizar as manifestações é um resquício perigoso dos anos de chumbo no Brasil.

– Você é a favor da Copa no Brasil?
– Sou. Mas entendo que as pessoas se manifestem contra o evento, pela forma como a Copa está sendo preparada e pelo tanto de dinheiro que está sendo gasto. Mais uma vez, é o dinheiro público usado de forma errada, do jeito que as coisas geralmente são feitas no Brasil. Há muita coisa errada no Brasil. Como essa recente tentativa espúria de ligar o deputado estadual Marcelo Freixo, do PSOL, à morte do cinegrafista Santiago Andrade. Foi uma clara armação, com apoio da Rede Globo e do jornal O Globo. Foi uma manobra para desmoralizar um líder de oposição, no intuito de enfraquecer as manifestações. Infelizmente, essa é a forma como a política ainda é conduzida no Brasil, com as velhas oligarquias e os políticos de sempre tratando o País como uma capitania hereditária.

– Olhando para trás, como você avalia Tropa de Elite hoje, num momento de explosão de violência por parte da polícia? Até hoje alguns acreditam que o filme vangloriava a violência.
– Isso é problema de quem acredita. Eu não posso deixar de fazer um filme pensando no que vão pensar. Quando chamaram Tropa de fascista pela primeira vez, no jornal O Globo, eu fui a primeira pessoa a responder, escrevendo um artigo para o mesmo jornal, reagindo fortemente contra essa ideia. Vejo como uma postura ingênua ou de má índole confundir o que pensa um personagem com o que pensa o realizador de um filme. Será que Francis Ford Coppola pensa como dom Corleone?

– Quando entrevistei o cineasta Constantin Costa-Gravas (presidente do júri que concedeu o Urso de Ouro a Tropa de Elite, em 2008), ele justificou a escolha do filme dizendo que um homem com a sua “percepção do mundo jamais poderia ignorar um filme político de tamanha relevância’’…
– Depois dessa declaração, vinda do maior cineasta político de esquerda do mundo (responsável por filmes como Z, Estado de sítio e Desaparecido – um grande mistério), não preciso de mais nada (risos).